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O presidente do Sindicato dos Enfermeiros (SE), José Correia Azevedo, admite, em entrevista ao jornal “i” (link do artigo ainda indisponível), que o primeiro dia de greve pode ter sido irregular mas insiste que enviou um ofício por e-mail para o Ministério da Saúde no dia 25 de agosto, antes de enviar para o Ministério do Trabalho o pré-aviso que “por acaso chegou no primeiro dia dos 10 dias úteis de antecedência obrigatórios”. Acusa o ministro Adalberto Campos Fernandes de “abuso de confiança” por “estar a pôr em dúvida o nosso pré-aviso” e ameaça com nova greve caso as faltas injustificadas marcadas aos enfermeiros não sejam retiradas.

Independentemente do que o tribunal disser, se eles não retirarem as faltas têm outra greve a seguir. Se houver faltas injustificadas, convocamos uma nova greve”, garante o dirigente sindical.

Sem reuniões agendadas, e recusando-se a negociar com “surdos”, José Correia Azevedo lembra que a última reunião com o Ministério foi a 3 de setembro — já depois de terem apresentado uma proposta negocial a 16 de agosto –, quando o secretário de Estado da Saúde lhes terá dito que “estávamos a pedir um salto de canguru e o Ministério só podia dar um salto de minhoca”. “A retórica não nos levou a lado nenhum.”

O ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, já veio dizer que a proposta do SE, tal como foi apresentada, custaria 120 milhões ao Estado e que poderia, em certos casos, duplicar salários de base a alguns enfermeiros. Mas o sindicalista explica que a proposta previa um aumento faseado até 2019, onde o base de início de carreira se fixaria em 2.020 euros (mais cerca de 1.000 euros do que acontece agora) e 720 euros abaixo do assistente (no caso dos médicos). E José Azevedo recusa a ideia de que não haja dinheiro para estes aumentos.

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Se fosse falta de verbas o senhor ministro não tinha a lata, passe a expressão, de promover 200 médicos a consultores. Isso implica mensalmente mais do que o salário dos enfermeiros: cada médico consultor recebe perto de 1.500 euros a mais.”

Focando-se na diferença entre enfermeiros e médicos, o sindicalista aproveita para dizer e repetir que “os médicos não fazem nada sem os enfermeiros”. “Os médicos precisam dos enfermeiros para fazer quase tudo e nós precisamos dos médicos para fazer algumas coisas.”

Duro nas críticas a Adalberto Campos Fernandes, o sindicalista acusa o ministro da Saúde de estar a “fazer as coisas de forma muito desonesta” ao “circunscrever o conflito às parteiras, quando é geral” e por insistir na “irregularidade da greve”.

José Azevedo tece ainda várias considerações sobre o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), que não apoia esta greve. O sindicalista afirma que o SEP “não está a negociar nada com o Ministério da Saúde” e afirma que o sindicato está “controlado” e “comandado” por Ana Avoila, que dirige a frente comum dos sindicatos da Função Pública e que tem estado a negociar um regime geral para carreiras gerais e não o regime para a carreira específica dos enfermeiros. O presidente do SE refere ainda que com esta divisão entre os sindicatos da classe, quem ganha é a corporação médica.

Certo é que o ministro da Saúde vai reunir esta terça-feira com o SEP e deverá entregar-lhes uma proposta neste que é o segundo dos cinco dias de greve marcados pelo SE e pelo SIPE. Ontem, Adalberto Campos Fernandes esteve reunido com António Costa para preparar esta reunião, conforme noticiou a Lusa.

Costa preparou com ministro da Saúde reunião com sindicato dos enfermeiros na 3ª feira

De resto, o SEP justifica a não adesão à greve precisamente por estarem agendadas a reunião de sexta-feira passada e a de hoje, mas já admitiu avançar com formas de luta caso não sejam apresentadas propostas esta terça-feira ou se estas forem insuficientes.

Os enfermeiros reivindicam a introdução da categoria de especialista na carreira de enfermagem, com respetivo aumento salarial, bem como a aplicação do regime das 35 horas de trabalho para todos os enfermeiros.