O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, esteve reunido com Mário Centeno e António Costa em Lisboa, onde discutiu a economia portuguesa, mas também veio discutir o futuro do Eurogrupo sob a liderança de Mário Centeno e passar ao ministro das Finanças aquilo que acha que deve ser a forma de atuação do Eurogrupo. Pierre Moscovici, que durante o verão ainda chegou a tentar ser hipótese para a liderança do Eurogrupo que Mário Centeno assume em janeiro, diz que Mário Centeno “é que é o Presidente”, mas defende que a Comissão tem um papel especial. Ainda assim, garante, está tudo na mesma linha. “Não há nuvens entre nós”.

Numa visita a Lisboa, onde teve encontros com o governo, Banco de Portugal e, claro, com o ministro das Finanças e presidente eleito do Eurogrupo, o francês falou da situação atual da economia portuguesa, fazendo alguns elogios sobre os progressos alcançados e deixando os avisos de sempre: é preciso reduzir a dívida pública e privada, reduzir os níveis de crédito malparado e apostar na educação e inovação.

Mas, uma parte da sua conferência de imprensa foi dedicada a falar da eleição de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo e daquilo que deve ser a sua agenda enquanto porta-voz dos ministros das Finanças da zona euro, com o comissário a dizer que falou com o ministro das Finanças, que irão trabalhar lado a lado, que a Comissão terá um papel importante dentro do grupo e que é preciso ambição para conseguir fazer avançar as mudanças que se pretendem.

Pierre Moscovici, que, tal como noticiou o Observador, durante o verão tentou convencer a família socialista que o presidente do Eurogrupo a partir do próximo ano devia ser ele mesmo, já com o chamado ‘double hat’ – em que seria vice-presidente da Comissão e uma espécie de ministro da Economia e Finanças da Europa -, rejeitou, quando questionado, que estivesse a tentar determinar a agenda de Mário Centeno para o Eurogrupo, sublinhando que a liderança cabe ao ministro português e só a ele.

“O presidente do Eurogrupo é Mário Centeno e está claramente a lidar o Eurogrupo. Ele e só ele. E nós estamos sob a sua liderança. A sua liderança é decisiva”, afirmou. No entanto, logo de seguida, Moscovici defendeu o papel especial que diz que a Comissão tem dentro do grupo, onde Moscivici é o representante da Comissão. “Mas a Comissão Europeia tem um papel especial no Eurogrupo. Quando avaliamos a situação dos países temos um papel muito importante, quando apresentamos as nossas opiniões sobre os orçamentos temos um papel importante, quando fazemos propostas para a União Económica e Monetária temos um papel importante, e por isso temos de trabalhar lado a lado com o presidente do Eurogrupo, seja ele quem for. Foi o que aconteceu com Jeroen Dijsselbloem, foi o caso com Jean-Claude Jucnker antes, e será agora o caso com Mário Centeno. Mas deixe-me ser claro, ele é o Presidente, não sou eu. Ele é o líder e nós estamos lá para colaborar, lado a lado, em pé de igual”.

“A mensagem que trouxe ao Mário ontem foi que precisamos de ambição. Não sei qual será o resultado, mas sei que se o início não for ambicioso, se não for global, se não tivermos uma visão daquilo que o futuro deve ser, então não conseguiremos ter resultados. Se tivermos um início discreto, teremos resultados discretos. É por isso que a palavra-chave para mim, e penso que ele [Mário Centeno] partilha dessa visão, é ambição”, afirmou.

O comissário foi ainda confrontando com as palavras de Mário Centeno após a reunião do Eurogrupo em dezembro, que lhe deu a eleição, sobre a aprovação pelo Eurogrupo da sugestão da Comissão Europeia em que os países em risco de incumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento eram convidados a fazer mais a nível orçamental para corrigir o desvio no seu défice estrutural. Mário Centeno disse na altura que essas palavras não iriam mudar nada na condução da política económica deste Governo. Pierre Moscovici diz que os foi pedido “um pouco mais” na correção do défice estrutural, mas que a avaliação só será feita na primavera.

No final, o francês deixou uma garantia: “não, não há nuvens entre nós”.