Michael Wolff era um nome praticamente desconhecido fora dos Estados Unidos até esta semana, mas entrou na cena pública mundial com estrondo. Tudo graças ao seu novo livro, “Fire and Fury”, com relatos dos primeiros meses de Donald Trump e da sua equipa na Casa Branca que dão conta de ataques pessoais, rivalidades e inexperiência.

Alguns dos episódios mais quentes dos conhecidos até à data prendem-se com as declarações do ex-conselheiro Stephen Bannon, que terá criticado os filhos do Presidente, dizendo que Donald Trump Jr. teve uma atitude “traidora” ao encontrar-se com representantes russos e apelidando Ivanka Trump de “burra que nem um tijolo”. O interesse tem sido tal que a venda do livro foi antecipada alguns dias e os advogados do Presidente já avançaram com ações legais. Mas quem Michael Wolff, o homem por detrás deste fenómeno literário?

“Uma criação de Nova Iorque por excelência”

Michael Wolff é um colunista habitual em publicações de renome como a New York Magazine e a Vanity Fair, tendo-se especializado em escrever sobre a área dos media — o seu livro mais conhecido é “The Man Who Owns the News”, uma biografia do magnata da comunicação Rupert Murdoch. No currículo tem dois National Magazine Awards, um dos prémios editoriais mais cobiçados entre os media norte-americano, mas o seu trabalho também esteve debaixo de fogo algumas vezes, com acusações de que teria escrito mentiras ou exagerado. Em tempos, Wolff chegou a tentar comprar a New York Magazine, mas a sua proposta não foi a vencedora.

Filho de um publicitário e de uma jornalista, nascido em New Jersey em 1953, tornou-se uma figura conhecida entre a elite nova-iorquina, destacando-se pelo seu ego. “Os jornalistas de Nova Iorque são os primeiro a reconhecê-lo, Wolff é a criação de Nova Iorque por excelência, obcecado com cultura, estilo, burburinho e dinheiro, dinheiro, dinheiro. (Para Wolff, nada é mais erótico do que um multimilionário)”, escreveu em 2004 a jornalista Michelle Cottle, no perfil que fez de Wolff para a revista New Republic.

O artigo deixa claro o interesse de Wolff pelos mais ricos, sobretudo no meio dos media. “Muitos deles têm sido repetidamente espetados [pelo jornalista], esfregando a patine de poder e dinheiro para revelar as verrugas, flacidez e cicatrizes físicas que crescem (na visão de Wolff) nos narcisistas super-ricos que compram, gerem e arruinam empresas de media para gratificarem os seus egos insaciáveis”, pode ler-se no mesmo perfil, onde se sublinha que ele gosta de estar no centro da ação. Assim se explica que os livros mais famosos até à data de Wolff sejam precisamente a biografia de Murdoch e, agora, os relatos dos primeiros meses na Casa Branca do milionário e estrela de TV tornado Presidente, Donald Trump.

Críticas e defesas sobre a honestidade de Wolff

No mesmo artigo são também abordadas as críticas ao jornalismo “pouco convencional” de Wolff. “As cenas nas suas colunas [sobre media] não são tanto recriadas, mas sim criadas — brotando mais da imaginação de Wolff do que do conhecimento concreto sobre os acontecimentos”, poder ler-se, com o estilo do jornalista a ser definido como o de alguém que “absorve a atmosfera e os rumores que ouve em cocktails, nas ruas e especialmente em almoços no Michael’s“.

Em 2008, seria a vez do reputado jornalista, especialista nos media do New York Times, David Carr escrever que “um dos problemas da omnisciência de Wolff é que ele até pode saber tudo, mas percebe algumas coisas mal”, a propósito da biografia de Murdoch.

O próprio Wolff admitiu em tempos ter à vontade com a mentira, como recorda o Washington Post: no seu livro “Burn Rate”, sobre o período em que foi um empreendedor da internet, Wolff admitiu ter pedido clemência aos seus financiadores, antes do seu negócio acabar por colapsar, invocando uma cirurgia ao coração do seu sogro — algo que nunca aconteceu. “Quantos lapsos morais cometi? Quantas falhas éticas tive? Como muitos outros conspiradores financeiros, estava em modo ‘curto-prazo'”, escreveu.

Com esta nova narrativa do primeiro ano da Casa Branca, as críticas de outras jornalistas norte-americanos ao autor não tardaram. “Ele nunca se preocupou muito com respeitar as fontes. Não acredito que muitas daquelas citações foram ditas para serem publicadas”, escreveu o colunista da Bloomber View Joe Nocera, dando a entender que Wolff não é particularmente respeitoso de acordos sobre o que é dito off the record.

Outros, como a editora Janice Min da Hollywood Reporter (onde Wolff é colunista) defenderam a idoneidade de Wolff como jornalista. Min recordou uma conversa que ouviu numa festa e que garante estar replicada palavra por palavra no livro “Fire and Fury” e ao New York Times relembrou que “as pessoas muitas vezes não gostam de ouvir o que ele diz, mas uma das coisas mais irritantes do Michael é que ele é apenas leal à história”. O jornalista da Reuters Jonathan Weber, que editou Wolff em tempos, garantiu que “nada” o levou alguma vez a duvidar de algo que o jornalista escreveu.

O New York Times relembra ainda que Stephen Bannon, até à data uma das pessoas colocadas mais em xeque com o livro, não desmentiu nada do que foi tornado público — apesar de as declarações que lhe são atribuídas terem provocado a irritação do Presidente Donald Trump, que disse que Bannon “perdeu a cabeça”. No entanto, identifica alguns erros factuais presentes no livro, como atribuir uma notícia sobre atos sexuais de Trump à CNN quando esta foi divulgada pelo BuzzFeed e declarar que Trump não conhecia John Boehner (ex-líder da maioria republicana na Câmara dos Representantes) quando estes na verdade já tinham jogado golfe juntos.

Sobre a veracidade dos factos no livro “Fire and Fury”, o próprio Michael Wolff deixa um aviso na introdução, publicada por um jornalista da NBC. No texto, o autor deixa claro que o seu método dá voz a várias versões dos acontecimentos reveladas pelos entrevistados (ao todo mais de 200 pessoas foram ouvidas por Wolff), que são muitas vezes “descoladas da verdade, se não mesmo da realidade”: “Por vezes deixei os atores darem as suas versões e permitir ao leitor julgar. Noutras alturas, devido à consistência dos relatos e de fontes em que passei a confiar, fiquei-me por uma versão dos acontecimentos que creio ser a verdadeira.”