Relações

Manter o erotismo nas relações longas? O livro de Ana Carvalheira explica como

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Banalização do sexo na comunicação social ameaça o erotismo, entende a sexóloga Ana Alexandra Carvalheira. Casais juntos há vários anos devem preocupar-se mais com curiosidade e exploração.

"Entre erotismo masculino e feminino já houve muitas diferenças", afirma a autora

Mario Tama/Getty Images

Autor
  • Bruno Horta

O primeiro livro da psicóloga clínica Ana Alexandra Carvalheira chegou esta semana às livrarias portuguesas. “Em Defesa do Erotismo: A Favor da Liberdade e da Saúde Sexual” é editado pelo grupo Saída de Emergência e em 222 páginas apresenta estudos e exemplos reais que a autora tem vindo a conhecer através das consultas.

Sexóloga há mais de duas décadas, doutorou-se em Psicologia da Sexualidade pela Universidade de Salamanca e é professora auxiliar no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA). Sustenta que o erotismo, coração da sexualidade, está debaixo de várias ameaças e que as relações à distância, contrariamente ao que se poderia supor, até alimentam a chama entre os parceiros.

O livro tem prefácio do psiquiatra Francisco Allen Gomes e vai ser apresentado no dia 30 na Fnac do Chiado, em Lisboa, com a presença da jornalista Maria Elisa Domingues e da psicóloga Gabriela Moita.

Qual é a sua definição de erotismo?
É o coração sexualidade. Gosto de dizer que o erotismo é intrinsecamente humano, caracteriza-nos como seres humanos. Vem antes do ato sexual. Erotismo é tudo aquilo que mobiliza o nosso desejo, que nos retira de um estado de neutralidade sexual e nos leva a um estado de disponibilidade ou até alguma excitação sexual. Isso pode implicar uma diversidade brutal de estímulos, fantasias, imaginação, estímulos sensoriais, um cheiro, uma imagem.

Mas diz no livro que o erotismo está em crise.
Sim, por isso, precisa de ser defendido. O erotismo está a esgotar-se.

Quais são as grandes ameaças?
Desde logo, a banalização do sexo. Aí, a comunicação social tem responsabilidades: os jornais e revistas continuam a vender em função de terem notícias sobre sexo na capa. A banalização do sexo é anti-erótica.

Diz no livro que o erotismo passa pelo mistério e pela novidade.
Claro, e pela imaginação. O erotismo precisa de espaço para se manifestar, precisa de elaboração. De não se ver tudo. Porque se se vê tudo, é pornografia. Nada contra a pornografia, só estou a separar conceitos.

As próximas gerações conseguirão lidar com essa banalização, melhor do que a geração nascida no século XX?
O grande desafio para as novas gerações é o de descobrirem novas formas de erotismo. Vão ter de o reinventar. Os do século XX vão de ter de salvar o erotismo, acho que temos de o salvar nas nossas relações. Vivemos num mundo de imagem, é isso que traz o excesso de visibilidade do sexo. A vida, hoje, é no ecrã. Passamos do ecrã do telemóvel para o ecrã do computador, do ecrã da televisão para o ecrã do iPad. Vivemos de ecrã em ecrã. Isto dá-nos imagens atrás de imagens e dá-nos outra coisa, que também ameaça o erotismo: o imediatismo. É tudo para agora, é tudo para ontem. A pessoa quer sexo para hoje, um companheiro para agora, quer o trabalho feito agora. O erotismo não pode ser isto, o erotismo precisa de tempo, de descoberta e reinvenção, precisa de reelaboração constante.

Ana Alexandra Carvalheira é sexóloga clínica desde 1997

De que é que as pessoas mais se queixam nas suas consultas?
Da perda do desejo e da falência do erotismo.

Essa perda de desejo é aquilo a que os médicos chamam disfunções sexuais?
Não necessariamente.

Que outros fatores ameaçam o erotismo?
Já falei da banalização do sexo, do imediatismo, do excesso da imagem. Há também os aceleradores de relações: aplicações no telemóvel, como o Tinder. São mecanismos para procurar parceiros para sexo casual, para a vida toda, para relações com mais ou menos compromisso. Outra das ameaças é uma certa perda do espaço da esfera privada. Há cada vez menos privado e cada vez a esfera pública é maior.

Por influência da Internet?
As redes sociais facilitam essa amplificação da esfera pública, mas não só. Não quero que pareça que tenho um discurso contra as redes sociais ou os telemóveis. Antigamente havia mais tempo em privado, enquanto hoje há a necessidade de causar uma imagem no outro, de ter uma certa imagem pública. De certa forma, é o que estou a fazer ao dar esta entrevista: causar uma imagem que será divulgada por um jornal. Hoje as pessoas têm essa preocupação. O casal tem menos espaço privado. O erotismo precisa de alcova, de algum recolhimento.

Escreve que “nunca a realização amorosa e sexual foi tão valorizada” como atualmente. E que “nestes tempos modernos se investe mais no amor do que alguma vez se investiu”. Isto quer dizer que as relações amorosas também estão em crise? Ou seja, são muito valorizadas porque são escassas?
Talvez isso faça algum sentido. Teria de pensar melhor. Parece-me que o amor também está ameaçado. Por exemplo, a realização profissional é hoje mais valorizada do que nunca. Hoje, mais do que antigamente, temos de fazer mestrados e doutoramentos, dar aulas em Lisboa e no Porto e em Madrid, escrever para o Observador, mas se possível também para o Le Monde, etc. As nossas profissões obrigam-nos a ter maior mobilidade, a cumprir uma agenda com inúmeros compromissos. Essa mobilidade não facilita muito o amor e o estar em família. Hoje é comum haver relações à distância. Todos conhecemos um casal em que ela vive em Lisboa e ele vive em Londres.

Isso é bom ou mau?
Depende dos casais.

Mas considera que uma relação à distância ameaça o erotismo?
Até pode potenciar, depende da distância e das características das pessoas. A grande vantagem da relação à distância, para o erotismo, é que permite um afastamento das pessoas seguido de uma aproximação, várias vezes. Este movimento faz o erotismo respirar. Muitas vezes, nas relações de longa duração, de cinco, dez ou 20 anos, os membros do casal têm tendência para se fusionar, para ficarem muito dependentes um do outro, para gostarem das mesmas coisas, para fazerem as mesmas coisas, para onde vai um vai o outro, parece que só há o “nós”, não há os dois indivíduos. Este fusionar destrói o erotismo. O erotismo precisa de um movimento de afastamento e aproximação. Só que, para aguentarmos o afastamento, precisamos de tolerar a separação, sem insegurança. Como há pessoas que ficam muito inseguras, preferem compromisso e segurança. E depois o erotismo não respira, é abafado. O fogo precisa de oxigénio para existir.

Há 40 ou 50 anos o erotismo era mais forte do que hoje? Ou também tinha falhas, mas as pessoas não lhe davam tanta importância?
Casar por amor é uma coisa moderna. Hoje é que as pessoas se casam por amor. E separam-se quando o amor acaba. Antigamente, casavam-se porque dava jeito, ou por algum tipo de interesse, às vezes até económico. E o amor vinha depois. Não é isso que os avós dizem? Vinha depois, quando vinha. Se não viesse, paciência, porque o casamento era para toda a vida. Portanto, havia relações profundamente deserotizadas. E depois procurava-se o erotismo com uma terceira pessoa.

As mulheres conformavam-se mais com essa falta de erotismo?
Era mais valorizado o papel de mãe, de esposa, de dona de casa. Essas mulheres de que estamos a falar tinham tido uma socialização sexual altamente repressiva. A sexualidade era uma coisa a evitar. A masturbação não existia. Portanto, chegavam à vida adulta e para muitas delas a sexualidade era como se não existisse. O que interessava era serem boas donas de casas, boas mães.

“Em Defesa do Erotismo”, de Ana Alexandra Carvalheira; Ed: Saída de Emergência; 15,50€

Dedica um capítulo à sexualidade das pessoas homossexuais, bissexuais e transgénero. A crise do erotismo é transversal a géneros e orientações sexuais?
Chamei a esse capítulo “Sete Mil Milhões de Sexualidades”. A diversidade é enorme. Há casais hetero com dificuldades no erotismo e o mesmo em casais homo. Entre erotismo masculino e feminino já houve muitas diferenças, acho que a tendência é para diminuírem. Mas ainda persistem algumas. Ainda coexistem padrões antigos com padrões modernos. Vivemos um tempo de enormes transformações sociais. Sobretudo entre pessoas velhas, persistem diferenças. No erotismo masculino, a componente visual tem grande impacto. No erotismo feminino, menos. Mas também já há pornografia feita por mulheres para mulheres. É claro que as mulheres também se excitam com a visão de um corpo masculino, no caso da heterossexualidade. Mas tradicionalmente o erotismo feminino é mais emocional, mais baseado na intimidade, aparece mais sob a forma de narrativa. O erotismo masculino é mais fragmentado, mais descontínuo, por episódios. O homem consegue separar mais o contexto.

Quer dar um exemplo?
Um casal vive na mesma casa e na hora do jantar, quando estão sentados à mesa, ele faz alguma coisa de que ela não gosta. Uma palavra mal dita, ou nem olha, ou não lhe dá a atenção que ela gostava de ter tido. Ela fica incomodada. Terminam o jantar, arrumam a cozinha, passam para a sala, veem uma série na televisão e três horas depois vão para o quarto. Ele quer sexo e ela não. Ela está ainda zangada com o episódio que aconteceu três horas atrás. Os homens, com mais facilidade do que as mulheres, fazem sexo para adormecerem melhor, para libertarem stress. As mulheres têm uma necessidade de que esteja tudo arrumado na cabeça. Os homens têm mais facilidade em fazer sexo para lidarem com a tristeza ou outras emoções negativas. As mulheres dificilmente fazem isso. Ou seja, as mulheres também se importam com a beleza do corpo do outro, mas para esse corpo ter um potencial erótico tem de haver promessa de intimidade amorosa, na forma de narrativa. Tem de haver uma história. O erotismo masculino é mais separado do contexto emocional. Isto é o estereótipo, depois há muitas variantes e graus muito diferentes.

Como é que se ultrapassa a crise do erotismo? A terapia é uma boa reposta?
A terapia sexual ou a psicoterapia podem ser necessárias para determinadas pessoas em determinados momentos. A perda do erotismo, ou as ameaças ao erotismo, fazem-se notar sobretudo nas relações de longa duração. No início das relações é mais fácil o erotismo manter-se lá em cima. Há um estado de paixão, há um desejo intenso pelo outro, esse outro ainda não é conhecido, ainda há mistério e novidade. Esse outro ainda não é familiar, por isso, não está lá todos os dias em casa a deixar as meias. Com o tempo, vem o conhecimento do outro e a perda de novidade, já se sabe que o sexo é ao sábado à noite e ao domingo de manhã. Perde-se aquela separação que ainda existe no início, o casal passa a estar em conjugalidade. A longa duração pode, muitas vezes, perturbar a vivência erótica. O que se ganha em segurança perde-se em erotismo.

Qual é, então, a grande tarefa da conjugalidade?
Haver um investimento no erotismo desde o início, uma preocupação e um cuidado em salvar o erotismo. Haver uma intenção e uma preocupação com o erotismo e a sexualidade, uma preocupação com a minha sexualidade, com o meu património erótico e com o da minha relação. Evitar a fusão com o outro. Conciliar as duas forças contrárias que são a necessidade de segurança e a necessidade de liberdade. Partimos para a relação com a necessidade de compromisso e segurança, mas ao mesmo tempo precisamos de algum espaço para o erotismo fluir. Não podemos achar que conhecemos o outro na totalidade, porque quando temos essa ideia não damos espaço para haver outras coisas, não damos espaço para a curiosidade e a descoberta. O erotismo vive na atitude de curiosidade e de exploração.

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