Cinema

“Black Panther”: outro super-herói, só mais um super-herói

O filme de Ryan Coogler sobre o pioneiro super-herói negro da Marvel tem um enquadramento muito original, embora esteja condicionado pelas convenções do formato. Eurico de Barros dá-lhe duas estrelas.

Sempre pensei que Pantera Negra havia só um, o Eusébio e mais nenhum. Mas sou um fraco leitor de “comics” de super-heróis (e sobretudo dos da Marvel) e por isso desconhecia a existência do Black Panther, criado em 1966 por Stan Lee e Jack Kirby, respondendo ao clima de agitação política e social desse tempo, com a crescente visibilidade e importância do movimento pelos direitos civis dos negros na sociedade norte-americana e o aparecimento de movimentos radicais e violentos como os Panteras Negras. Black Panther foi assim o primeiro herói negro dos “comics” dotado de super-poderes, já que os poucos criados antes dele não os tinham e tendiam a ser pobremente estereotipados na sua caracterização.

[Veja o “trailer” de Black Panther”:]

Depois de uma primeira aparição integrado no grupo dos Vingadores em “Capitão América”: Guerra Civil” (2016), Black Panther surge agora no seu próprio filme, realizado e co-escrito por Ryan Coogler (“Creed: O Legado de Rocky”). O que há de diferente em “Black Panther” e o faz sobressair da esmagadora maioria das outras fitas do género, sejam de super-heróis da Marvel, sejam da DC, é o contexto em que a personagem se manifesta. Black Panther (Chadwick Boseman) não é um super-herói urbano e norte-americano, mas sim africano e de uma tribo dominante: T’Challa, o rei de Wakanda, uma nação fictícia e tecnologicamente mais avançada do que qualquer outra, devido à posse exclusiva de um minério com propriedades únicas, o vibranium.

[Veja a entrevista com o realizador Ryan Coogle:]

A Wakanda de “Black Panther” é uma monarquia tradicionalista, “high tech” e militarista, uma utopia africana onde coexistem características tribais e futuristas, na qual se afirma com veemência e orgulho uma identidade política, cultural e étnica, e que funciona como uma espécie de compensação ficcional para todos os estados falhados, ditaduras, regimes autocráticos de culto da personalidade e cleptocracias do continente africano. É também um lugar onde as mulheres estão maioritariamente presentes na esfera do poder, através da rainha viúva, mãe de T’Challa (Angela Bassett), da sua sobredotada irmã Shuri (Letitia Wright), que está para Black Panther como Q está para James Bond, alimentando-o de tecnologia e “gadgets” de ponta, da sua ex-namorada e agente especial, Nakia (Lupita Nyong’o)  e da guarda pessoal do monarca, exclusivamente feminina.

[Veja a entrevista com Chadwick Boseman:]

Para consumo externo, Wakanda é apenas mais um país africano sonolento, pobre e agrário. Os seus reis sempre seguiram o prudente costume de não revelar ao mundo exterior todo o seu progresso e poder tecnológico, social e bélico, optando ainda por uma estrita política de não-intervenção, partilha de conhecimentos ou de ajuda humanitária e de desenvolvimento, quer em África, quer no resto do planeta. Mas o secretismo, o isolacionismo e a paz de Wakanda são duplamente ameaçados em “Black Panther”. Por um lado, por Klaue (Andy Serkis, livre de segundas identidades digitais), um bandido sul-africano que conseguiu obter vibranium; e pelo outro, por Killmonger (Michael B. Jordan), um pretendente ao trono cheio de ressentimentos e de ódio, que sempre viveu nos EUA e quer transformar Wakanda no oposto do que o país sempre foi. 

[Veja a entrevista com Lupita Nyong’o:]

“Black Panther” é, no entanto, (mais) um filme de super-heróis da Marvel. Por isso, apresenta as limitações do formato e segue as convenções, as situações feitas e a ideologia daqueles que são agora as grandes vacas leiteiras de Hollywood e têm de ser mungidos segundo as normas. O argumento “rouba” em várias direcções para assegurar a espectacularidade (“A Guerra dos Tronos”, “Batman”, “Homem de Ferro”, “007”), a história é de juntar os pontinhos e acaba por se levar muito a sério no seu esquematismo, a acção é estridente e frenética, muito dependente dos efeitos especiais e visualmente chegadinha aos jogos de vídeo, como se vê nomeadamente na sequência da perseguição de automóveis na Coreia do Sul.

Ryan Coogler também não resiste a um paternalismo e uma condescendência de sinal contrário àqueles a que o filme se pretende contrapôr, nem a veicular o discurso idealista e “humanista” postiço do género. Já nos basta a demagogia dos políticos, dispensamo-la também nos filmes de super-heróis. Mesmo naqueles que conseguem içar-se um bocadinho acima do rame-rame, como é o caso de “Black Panther”.

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