A Venezuela decidiu investir no negócio das moedas virtuais: esta terça-feira é o lançamento oficial do “petro”, a nova criptomoeda venezuelana. As primeiras vendas desta nova unidade monetária digital surgem numa altura em que o país está mergulhado numa crise económica sem precedentes, aliada ao fosso que Nicolás Maduro cavou, tanto internamente como nas relações internacionais.

De acordo com o próprio Nicolás Maduro, cada petro corresponde a um barril de petróleo venezuelano, logo, 100 milhões de “petros” valem qualquer coisa como 6 mil milhões de dólares. A nova criptomoeda foi detalhadamente criada para valorizar a moeda “real” e funcionar como método de pagamento aos fornecedores estrangeiros – já que as últimas sanções dos Estados Unidos ao país proíbem qualquer nação de comprar dívida venezuelana.

Ou seja, o petro pode muito bem ser uma ágil tentativa de contornar as sanções impostas pelos norte-americanos. A Venezuela sobrevive há meses com vastas restrições de bens alimentares, hiperinflação – que pode este ano atingir os 13.000% – e o colapso da moeda tradicional, o bolívar: esta é, pelo menos aparentemente, uma tentativa desesperada de Maduro de melhorar os índices económicos do país.

Mas já sofreu o primeiro revés. O The Guardian conta que o congresso venezuelano, controlado pela maioria da oposição, considerou a criptomoeda ilegal. No discurso em que anunciava a decisão do poder legislativo, Jorge Millan, um dos congressistas, explicou que “isto não é uma criptomoeda, é uma venda avançada do petróleo venezuelano.”

Jean Paul Leidenz, um economista de Caracas, defendeu na televisão colombiana que um outro problema do “petro” é a transparência do Governo da Venezuela – ou a falta dela.

O petro vai ser emitido por um banco central que gerou hiperinflação com o bolívar. Quem é que daria um voto de confiança a um banco que nem sequer conseguiu manter a confiança do público na moeda tradicional?”, perguntou Jean Paul Leidenz.

Outro dos obstáculos que Maduro enfrenta – por muito inacreditável que seja – é que o petróleo que o Governo venezuelano “promete” com a aquisição de petros ainda nem sequer foi extraído. E, para juntar ao já complicado esquema, vai ser extraído através de um empreendimento conjunto em que o executivo só tem uma presença de 60%.

Apesar de todos os problemas, o superintendente venezuelano para a criptomoeda garante que já há muitos interessados. À margem de uma reunião em Caracas, Carlos Vargas garantiu que “vão certamente aparecer investidores do Qatar, da Turquia, de outras partes do Médio Oriente, assim como europeus e americanos.”

A Venezuela tem eleições presidenciais marcadas para dia 22 de abril. Nicolás Maduro deve vencer e prolongar o mandato – até porque baniu todos os candidatos da oposição que eram mais populares. Mas, na improvável hipótese de perder, todas as pessoas que tenham adquirido petros não vão ter qualquer retorno, já que um novo Governo vai considerar a nova criptomoeda ilegal e inexistente.