Liga dos Campeões

Na terra dos Beatles, só se ouviu uma música: Here, There and Everywhere * (a crónica do Liverpool-FC Porto)

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Em Liverpool, no estádio onde se ouve o You'll Never Walk Alone, a música foi distinta do Dragão: FC Porto empatou a zero no adeus à Champions mas goleou nas bancadas (até Klopp ficou impressionado).

Gomez ganha no ar mas bola saiu por cima da trave: na primeira parte não houve um único remate enquadrado

AFP/Getty Images

* Aqui, ali e em todo o lado

Na vida como no futebol, não há (ou não deve haver) nada mais sagrado do que a honra. Foi assim que Sérgio Conceição lançou a segunda mão dos oitavos da Liga dos Campeões após a goleada sofrida no Dragão, foi dessa forma que fez a antevisão antes do encontro em Anfiel Road. Pode soar a disco riscado, mas é aquela música que nunca sai ou sairá de moda. E foi com essa letra que os dragões pautaram o jogo desta noite em terra de Beatles. Essa e aquela que deixámos no título, Here, There and Everywhere.

Antes do jogo, viu-se um pouco de tudo em Liverpool, incluindo a versão azul e branca de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr de cachecóis do FC Porto ao pescoço, numa das estátuas mais míticas e de visita obrigatória na cidade. Mesmo sem hipóteses de seguir em frente na Liga dos Campeões, os adeptos dos dragões compareceram em massa. E apoiaram, pela honra. A mesma honra com que a equipa jogou esta noite, destacando-se no plano defensivo e nas transições aqui, ali e em todo o lado, como na música dos Beatles. A honra que saiu ferida após a goleada sofrida em Portugal no encontro da primeira mão, por 5-0. Se quisermos resumir este filme, basta avançar até ao minuto 84 de um jogo sem grandes motivos de interesse até aos instantes finais: antes da marcação de um canto, a bancada destinada aos adeptos nacionais pulava e cantava como se a sua equipa estivesse a ganhar alguma coisa gritando em uníssono “Eu quero o Porto campeão”.

Já tinha havido um episódio curioso antes do início do jogo: Jürgen Klopp, alemão que orienta os reds, tinha parado de mãos nos bolsos durante os habituais exercícios de aquecimento a olhar para essa mesma bancada (que já estava cheia) quase que admirando a festa de uma equipa derrotada no resultado mas apostada em sair de cabeça erguida das competições europeias deixando uma imagem bem diferente do que tinha acontecido no Dragão. Do início ao fim, foi essa imagem que marcou o empate sem golos que deu o apuramento ao Liverpool.

Ficha de jogo

Liverpool-FC Porto, 0-0

2.ª mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões

Anfield Road, em Liverpool

Árbitro: Felix Zwayer (Alemanha)

Liverpool: Karius; Gomez, Matip, Lovren, Moreno; Milner, Henderson, Emre Can (Klavan, 80′), Lallana; Mané (Salah, 74′) e Firmino (Ings, 62′)

Suplentes não utilizados: Mignolet, Van Dijk, Oxlade-Chamberlain e Alexander-Arnold

Treinador: Jürgen Klopp

FC Porto: Casillas; Maxi Pereira, Felipe, Reyes, Diogo Dalot; Óliver Torres, André André (Sérgio Oliveira, 62′); Corona, Bruno Costa, Waris (Ricardo Pereira, 68′) e Aboubakar (Gonçalo Paciência, 80′)

Suplentes não utilizados: José Sá, Luís Mata, Otávio e Brahimi

Treinador: Sérgio Conceição

Ação disciplinar: cartão amarelo a André André (34′), Henderson (59′) e Dalot (90+2′)

Ciente das diminutas (mesmo muito, muito diminutas) hipóteses de causar uma surpresa capaz de garantir os quartos da Champions, Sérgio Conceição aproveitou para rodar alguns jogadores: deixou Sérgio Oliveira e Brahimi no banco, colocou Marcano e Herrera na bancada e deu hipóteses a nomes como Diego Reyes, André André, Óliver Torres ou Waris. Além de Bruno Costa, claro: o miúdo de 20 anos da equipa B estreou-se no principal conjunto logo numa partida da Liga milionária, colocado nas costas de Aboubakar para tentar mexer nas transições.

Valeu pela experiência, nem tanto pela exibição (sem tanta bola quanto desejável). Que foi, tal como a de todos os jogadores azuis e brancos, abnegada, profissional, capaz. Mas não teve aquele brilhozinho individual que o completo encaixe tático entre os dois conjuntos retirou, ao ponto de se poder resumir a primeira parte a duas ou três linhas: quando o Liverpool acelerou (e foram apenas duas vezes), criou perigo (Mané, depois de um desvio por cima aos 17′, acertou no poste aos 30′ num remate cruzado na área); quando o FC Porto pressionou mais alto (e foram apenas duas vezes), conseguiu condicionar por completo a saída em construção dos ingleses.

Ainda assim, uma pequena “medalha” a premiar a segurança na posse e a organização defensiva dos comandados de Sérgio Conceição: frente a um adversário que chega a março com mais 100 golos marcados em encontros oficiais, este foi apenas o segundo jogo em que o Liverpool não enquadrou um remate no primeiro tempo…

O segundo tempo foi um pouco mais aberto, sobretudo nos derradeiros 15 minutos (e não foi coincidência o facto de já estar em campo Salah, o jogador que realmente desequilibra nesta equipa do Liverpool). Waris, aos 53′, e Ings, aos 67′, tiveram os dois primeiros remates enquadrados do jogo, ainda que sem grande perigo. Milner (77′) e Corona (79′) fizeram os disparos seguintes, com o índice de perigo a aumentar ligeiramente na escala. Mas o melhor estava mesmo guardado para o fim: aos 84′, na sequência de uma bola a pingar na área que Óliver Torres rematou com selo de golo, Lovren acabou por tirar o 1-0 de forma in extremis; aos 88′, Casillas fez a defesa da noite a uma cabeceamento de Ings sozinho na área, quase que parando o seu voo antes de tocar a bola para canto.

O FC Porto limpou a imagem no adeus à Champions e cumpriu aquilo que Sérgio Conceição tinha pedido: o respeito pela camisola vestida e a honra do clube. Se a isso juntarmos o fabuloso apoio dos adeptos azuis e brancos que silenciaram quase sempre os reds, e esquecendo a questão das vitórias morais, esta foi uma jornada positiva para os dragões no plano europeu, faltando apenas quebrar aquela cereja no topo do bolo: conseguir uma vitória em Inglaterra (e este já foi o 19.º jogo em terras de Sua Majestade, entre todas as competições internacionais).

P.S. Felipe deu uma entrevista ao Esporte Interativo esta semana e abordou a alcunha de “Felipe Vale Tudo” colocada pelos responsáveis do Benfica. “A história do Felipe ‘Vale Tudo’? Isso deu-me gás! É sinal de que têm respeito e de que estou a incomodar. Se fossem os meus adeptos, aí ficaria incomodado; se é do meu rival…”, disse. Com mais ou menos gás, este Felipe de Anfield Road cabia de forma natural nas escolhas de Tite para o Mundial.

P.S. 2. Ninguém sabe ao certo se Casillas poderá ainda fazer mais uma época no Dragão (é bastante improvável) e, caso saia, para onde irá. Se este foi o último jogo na Liga dos Campeões, terminou da melhor forma

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