Obrigado por ser nosso assinante. Usufrua de leitura ilimitada deste e de todos os artigos do Observador.

Em março de 2012 abria a Taberna da Rua das Flores, na morada que lhe empresta o nome, em Lisboa. De lá para cá, não há dia em que se passe à porta e não se encontre uma fila de pessoas descontraídas, de copo na mão, à espera de serem chamadas a entrar. Nesta taberna não se aceitam reservas, ao contrário do que acontece no espaço irmão e vizinho, aberto desde dezembro, onde os telefonemas antecipados são aconselhados. A Taberna Fina, cujo contrassenso do nome é de fazer esboçar um sorriso, partilha três coisas com a que fica na rua das Flores: os ares taberneiros, os produtos frescos e sazonais como protagonistas de toda a cozinha e André Magalhães, o homem com boina colada à cabeça que, nestas andanças pela gastronomia, começa a dispensar de apresentações.

“São dois negócios diferentes, com sócios diferentes”, começa por explicar o chef André Magalhães, na sala do primeiro piso do hotel Le Consulat, que antecede o restaurante. O que une as duas tabernas, diz, é o ponto de partida para a criatividade culinária, isto é, o produto e a sazonalidade — ainda na semana passada chegou meio porco da raça mangalitsa que foi partilhado por ambos os espaços. Mas se no restaurante que abriu há seis anos a matriz é a cozinha tradicional portuguesa, no mais recente existe uma abordagem mais refinada, de fine dinning, com um único menu de degustação composto por 10 pratos (56 euros por pessoa, sendo que a harmonização com vinhos resulta no acréscimo de 22 euros).

O pão é feito especialmente para a Taberna Fina e deve ser divido à mão. © Gonçalo Villaverde

O menu só é desvendado quando as pessoas se sentam à mesa e arranca com três snacks e um amuse bouche delicados, que contrastam com o momento do pão — servido num recipiente de cortiça recheado de pedras quentes, o pão feito pela padaria Gleba especialmente para a Tarbena Fina é para ser divido à mão e partilhado pelos comensais. “O pão é o prenúncio da refeição em si. Normalmente as pessoas chegam ao restaurante e empanturram-se de pão e manteiga. Os snacks e o amuse bouche fazem com que as pessoas comecem a salivar, a preparar o palato. Só depois é que introduzimos o pão que consiste num momento de partilha, que nos traz de volta à terra”, diz André.

O menu em questão, que é composto por um prato de carne e um de peixe, muda de semana à semana, sendo que, por vezes, há alterações diárias a mando dos produtos disponíveis. “O processo inicia-se com o produto, pelo que a criatividade é constante”, continua André Magalhães, reforçando que na Taberna Fina assistimos a um casamento feliz, tudo porque a cozinha portuguesa se apaixonou pelo espírito petisqueiro das tabernas de outros tempos. No dia em que visitámos esta taberna — cujo ambiente é marcado pelas mesas com tampos de mármores, sem toalhas, paredes tingidas a azul petróleo e vista para uma Lisboa que cada vez mais fica acordada até mais tarde — chegou-nos à mesa cabrito assado acompanhado de ervilhas e milho painço e corvina com aipo e alecrim, dois pratos vestidos a rigor para um jantar de alta gastronomia.

André Magalhães é um dos elementos que une as duas tabernas. © Gonçalo Villaverde

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O vinho acompanha a ocasião e é sugerido pelo escanção Diogo Frade, que o serve acompanhado da história do rótulo, com pormenores mais e menos técnicos, consoante o desejado por quem o vai bebericar. Mas à parte da harmonização previamente estipulada, há a possibilidade de escolher outros vinhos. E André Magalhães garante que na carta disponível existem propostas que não se encontram facilmente das garrafeiras espalhadas pela cidade. Pedimos exemplos e à cabeça do taberneiro vem a frase “vinhos brancos velhos”.

A Taberna Fina é parte integrante do Le Consulat, com morada fixa em plena Praça Luís de Camões. O dono do hotel, de nome François Blot, convidou André Magalhães para abrir o espaço depois de se tornar cliente assíduo da Taberna da Rua das Flores, um pouco mais abaixo. Na versão mais refinada da história que une os dois protagonistas, a proposta do francês terá nascido da impossibilidade de arranjar mesa na Taberna da Rua das Flores que, como escrevemos no início do artigo, continua sem aceitar reservas. Feliz ou infelizmente, não é o caso da irmã mais nova, que tem 24 lugares sentados e surpresas semanais garantidas.

Nome: Taberna Fina
Morada: Praça Luís de Camões 22, Lisboa (integrado no hotel Le Consulat)
Horário: Das 19h às 23h. Encerra aos domingos e às segundas
Menu de Degustação: 56 euros por pessoa (acresce 22 euros com harmonização de vinhos)
Reservas: Aconselham-se (tel.: 938 596 429)
Site: https://leconsulat.pt