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Música

Bob Dylan. As coisas mudaram? Problema delas

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Houve casa cheia para o concerto de reencontro em Lisboa depois do Nobel. O mundo sempre a mudar e Bob Dylan sempre na mesma. Mas qual deles estará certo?

Aviso: esta foto não é do concerto que quinta à noite na Altice Arena. Dylan não quis que o fotografassem

Christopher Polk

Autor
  • Alexandre Borges
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Há um momento razoavelmente definidor no concerto em que, já a caminho do encore, Bob Dylan sai por fim de trás do piano e canta “Why Try to Change Me Now”. É difícil não ler como um statement que tenha escolhido justamente aquela canção (que não é sequer dele, mas um velho standard americano que Dylan gravou no álbum de 2015 “Shadows in the Night”) para ser a única que cantaria sem se barricar atrás das teclas.

Don’t you remember?
I was always your clown
Why try to change me
Why try to change me now?

Bob Dylan é quem é, o que sempre foi: uma espécie de revolucionário avesso à mudança, a permanência que protesta, o tipo que opta por gritar em formato de murmúrio; o profeta que não sai a pregar, quem quiser que apareça para a conversão. O primeiro álbum – Bob Dylan – saiu em 1962, que é como quem diz, há 56 anos. O homem foi à Lua, levantaram e derrubaram o muro de Berlim, mataram Martin Luther King e elegeram Barack Obama, e depois Donald Trump, inventaram a internet e a clonagem, ergueram e tombaram todas as grandes utopias, e o senhor Zimmerman segue essencialmente igual. O estilo, entre o indolente e o enigmático, atrai uns e esgota a paciência a outros. Há mais de meio século que é assim e todos estão certos – e o artista também não parece aborrecer-se muito com isso.

O que mudou então? Absolutamente nada. Uma certa geração e um certo público que, antes, não estavam tão atentos a Dylan, terão talvez passado a estar depois do Nobel atribuído por “ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana”. Mas o Nobel não tornou Bob Dylan nem mais jovem nem mais agradável, tornou-o apenas mais “essencial”, mais “imperdível”, mais “obrigatório”, mais uma daquelas coisas que “não podes mesmo perder”, numa época em que o espírito do tempo criou um novo pânico: o de se passar ao lado, o “fear of missing out”, como se o sentido da vida residisse em coleccionar carimbos no passaporte (não reside. Ainda hoje perguntei a uma Alexa e ela garantiu-me que “42”).

Talvez por isso e só por isso se falou e sentiu mais agitação em torno deste concerto do que do anterior, em 2008, no então Optimus Alive. Mas a verdade previsível é que o Nobel nada mudaria em Dylan, que – recorde-se – não se deu sequer ao trabalho de ir dar um passou-bem aos senhores da Academia Sueca e levantar o prémio. Quando o concerto começou, com a Altice Arena toda em modo sentado e bem-comportado, começou portanto com esta espécie de paradoxo: com uma canção chamada “Things Have Changed” a provar precisamente o contrário: que nada mudara. “Things Have Changed”, tema da banda sonora de “Wonder Boys”, de Curtis Hanson, e que lhe deu outro prémio muito cobiçado – o Óscar –, é a canção que Dylan tem usado para abrir os concertos, mas manda a justiça que se diga que soa mais certa e pessoal do que nunca.

People are crazy and times are strange
I’m locked in tight, I’m out of range
I used to care, but things have changed

Há dez anos, no Passeio Marítimo de Algés, um senhor sexagenário batido em concertos do profeta, garantia-nos, em júbilo, que nunca o vira falar tanto como naquela noite. Dylan tinha, tanto quanto nos recordamos, dito: olá, um ou dois obrigados e murmurado qualquer coisa que tanto pode ter sido “vocês são um público incrível, sinto-me compreendido como nunca antes na vida” como “alguém viu o meu comprimido para a tensão? Não toco nem mais uma sem o meu comprimido para a tensão”. Não efabulava, pelos vistos, este senhor. Ontem, em Lisboa, Robert Allen Zimmerman, 76 anos, 77 dentro de dois meses, abriu a boca para falar com o público exactamente zero vezes. Não ficámos ofendidos – não houve nada de ofensivo na atitude. Ele esteve lá e tocou com toda a honestidade, que é aquilo que lhe pagam para fazer; simplesmente, não sente que seja importante dizer o que quer que seja às pessoas. Não é mau; poupa-nos à histeria da demagogia, mas digamos que alguns de nós foram educados para cumprimentar as pessoas quando entramos, por exemplo, num elevador. E elas não pagaram para nos ver.

Durante uma hora e 45, percorreram-se 20 temas, devidamente transformados em novas versões para que ninguém se entusiasmasse especialmente ou atrevesse a tentar cantar. Mas o artista e a banda foram generosos: peregrinaram por nove álbuns (fora “Things Have Changed”, que foi single) harmoniosamente repescados entre os clássicos do início de carreira e alguma discografia recente. Portugal marcava o arranque desta nova etapa europeia da chamada “Never Ending Tour”, mas, comparando com o concerto anterior – dado no final de Novembro no Beacon Theater, em Nova Iorque, Dylan deixou cair as covers de “Melancholy Mood”, “Once Upon a Time”, “Full Moon and Empty Arms” ou “Autumn Leaves” e trouxe, para a troca, a íntima e bela “Simple Twist of Fate”, de “Blood on the Tracks” (1975), “Make you Feel My Love”, de “Time Out of Mind” (1997), a energia benévola de “Don’t Think Twice, It’s All Right”, de “The Freewheelin’ Bob Dylan” (1963), ou “Spirit on the Water”, de “Modern Times” (2006), quase todos reforçados pelo contrabaixo de Tony Garnier e a espreguiçarem-se dolentemente para pura fruição da qualidade da banda.

E houve “It Ain’t Me, Babe” e “Highway 61 Revisited”, na sequência de abertura, como previsto; a paisagem americana de “Summer Days” e “Honest With Me”, também do disco de 2001 Love and Theft (com Dylan a fazer qualquer coisa parecida com libertar-se num breve solo ao piano). Houve “Pay in Blood”, “Soon After Midnight” e o músculo de “Early Roman Kings”, todas de “Tempest”, de 2012, e coisas bem mais antigas como “Tangled Up in Blue” ou “Desolation Row”. “Love Sick” terminou a parte “regular”, antes dum encore com “Blowin’ in the Wind” e “Ballad of a Thin Man” a roçarem o irreconhecível. Tanta gente no Festival da Canção a fazer música que soa igualzinha à de outras pessoas e Bob Dylan para aqui a soar tão diferente dele próprio – há lá direito.

You hand in your ticket
And you go watch the geek
Who immediately walks up to you
When he hears you speak
And says, “How does it feel
To be such a freak?”

Fotografar e filmar – tinham avisado à porta – estavam proibidos (imprensa incluída) e talvez nada mostre melhor quão pouco Dylan e 2018 têm a ver um com o outro. Quando os músicos vêm agradecer, alguns aventureiros arriscam os smartphones, esticando os braços para uma recordação que prove que estiveram ali. Na sétima aparição aos Portugueses, o senhor Nobel da Literatura apresentou-se de voz bem tratada e com uma preciosa escolta de músicos. Cumpriu rigorosamente com o que se esperava. Nada a apontar. Nem sequer um arrepio na espinha.

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