No fim de 2003, os Estados Unidos da América estavam no auge da paranóia anti-terrorista: era pretexto para guerras, espionagem, conversas e livros. Enquanto passeavam pelo campus da Universidade da Califórnia, Berkeley — em São Francisco — o escritor angolano Pepetela conversava longamente com o académico Nuno Severiano Teixeira, ex-ministro, e falava-lhe de um livro que estava a escrever sem lhe revelar o assunto. Eram ambos visiting scholars na universidade pública número um norte-americana. Severiano fazia investigação para as suas provas de agregação na Universidade Nova, sobre estudos europeus e a política externa da União Europeia. Pepetela escrevia “O Terrorista de Berkeley”, que publicaria em 2007: contava a história de um jovem estudante que, por desgosto de amor, criou um amigo fictício, para quem mandava mensagens desesperadas a congeminar ataques terroristas imaginários, e que por isso chamou a atenção dos serviços secretos. Mas isso Severiano Teixeira não sabia.

Um par de anos antes, ainda a sociedade norte-americana não estava traumatizada pelos atentados às Torres Gémeas, António Costa Pinto foi senior visiting scholar em Berkeley. A experiência não se limitou à vida académica: em 2000, este professor de Ciência Política jantou em Berkeley pela primeira vez num restaurante etíope, onde não há talheres e se come com as mãos. “Há ali uma enorme diversidade de cultura gastronómica”, recorda Costa Pinto, sobre uma época em que ainda era exótico para um português encontrar restaurantes persas ou etíopes. Em Stanford, a universidade privada mais elitista da América a 40 km dali — onde também já tinha estudado — não havia restaurantes como aqueles.

O ambiente de São Francisco é cosmopolita. A vida académica de excelência junta dos melhores investigadores do mundo em várias áreas. Moe’s, a livraria com três andares já fora do campus, é uma perdição para estudantes e professores. A biblioteca da universidade, com a enorme clarabóia e luz natural torna agradável as horas de pesquisa e estudo aos “académicos visitantes” — tradução à letra de visiting scholars. É uma faculdade competitiva. Das melhores dos Estados Unidos, onde é quase impossível entrar. Medianos ficam de fora. Ter qualquer coisa de “Berkeley” no currículo é uma medalha na lapela de que nem todos se podem orgulhar.

“O que mais me marcou — conta António Costa Pinto ao Observador — foi a qualidade dos professores e colegas com quem trabalhava. Por outro lado, há a enorme diversidade: uma universidade global, com seminários sobre China, Japão, Rússia, América Latina”. Para Nuno Severiano Teixeira, “o mais impressionante é a vida académica, os recursos e o apoio para fazer investigação, assim como a possibilidade de debater com outras pessoas de topo, de várias nacionalidades”.

Um visto especial e não há portugueses a fazer doutoramentos em Berkeley

Mas para inscrever o nome desta universidade norte-americana no currículo é mesmo preciso lá ir. O processo é burocrático. Não basta ter uma carta a dizer que se está inscrito para embelezar o currículo, como fez o ex-secretário-geral do PSD, Feliciano Barreiras Duarte — o que acabou por lhe custar a demissão do cargo no partido depois de uma polémica que durou mais de uma semana. Para entrar em Berkeley num programa de visiting scholar é preciso ser dispensado do serviço da sua própria universidade e ter um contrato com a instituição para onde se vai. Com base nisso, é obrigatório solicitar um visto especial à Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, o chamado “visto J1”, para se viajar com aquele estatuto para a Califórnia. Só uma entrevista final na própria embaixada fecha o processo e habilita o académico e partir para a sua visita, que deverá durar um semestre académico, ou seja, cerca de quatro meses.

Os visiting scholars também não vão fazer doutoramentos a Berkeley. Os que ainda não forem doutorados e assim chamados junior visiting scholars vão para lá estudar, recolher bibliografia, consultar obras, falar com especialistas de topo nas mais variadas matérias. Os doutoramentos são feitos nas universidades de origem, no próprio país. Um doutoramento em Berkeley é uma porta que se abre para uma elite: para quem não tiver bolsa custa uma fortuna. “Não há portugueses a fazer doutoramentos na Universidade da California, Berkeley, muito menos há ‘parcerias’ para doutoramentos”, diz ao Observador um professor universitário norte-americano.

A “frequência do curso de doutoramento na Universidade de Berkeley”, como Barreiras Duarte descreveu no currículo que consta na sua dissertação de mestrado era uma impossibilidade. E “concluir” o doutoramento “em parceria” com a mesma instituição “com o estatuto de visiting scholar“, como consta no mesmo documento, é outra expressão inadequada. A comissão científica do Departamento de Direito da Universidade Autónoma de Lisboa criou um grupo de trabalho para analisar os documentos relativos a Berkeley e outras eventuais falhas no currículo entregue por Barreiras Duarte, para decidir se o aluno — cuja dissertação de mestrado teve 18 valores muito por causa do currículo — deve voltar a frequentar a componente letiva daquele grau. A decisão será tomada até 18 de abril.

Outra coisa é ir para Berkeley investigar, como fizeram Costa Pinto e Severiano Teixeira.

Os milhões de um português e espectáculos raros no auditório

Nos anos 90, quando tinha estado perto de São Francisco, na Universidade de Stanford, António Costa Pinto chegou a acompanhar os primórdios da criação do departamento de estudos portugueses em Berkeley, depois de um português com fortuna no imobiliário chamado “de Pinto” ter doado cerca de 14 milhões de dólares à universidade para apoio a estudantes lusodescendentes. O politólogo acabou por ser uma das pessoas que ajudou a pôr esse fundo em funcionamento, e havia de passar, anos mais tarde, dois semestres no Moses Hall, o edifício da universidade onde fica o Institute of European Studies de Berkeley como visiting scholar: primeiro em 2000/2001 e dez anos depois, em 2010/2011.

À chegada ao vasto campus universitário, há uma reunião prévia com os visitng scholars que ali chegam de todo o mundo, “de introdução às universidades americanas, sobre aquilo a que se tem direito, o que se pode e não pode fazer . Os americanos são muito organizados nisso”, lembra Costa Pinto. No seu caso, foi a convite trabalhar com o professor Richard Herr que era naquela época era responsável pelo grupo de estudos ibéricos. Dessa vez, organizou um seminário sobre a “A Europa do Sul e a integração europeia”, em que participaram jovens professores como os cientistas políticos Pedro Magalhães, hoje investigador no Instituto de Ciências Sociais, ou o norte-americano Michael Baum, atualmente administrador da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Na sua visita de 2010, organizou uma conferência sobre os 100 anos da República, que deu origem a um livro: “The Portuguese Republic at One Hundred“.

“A vantagem de ser visiting scholar é estar um certo período livre de outros compromisso letivos, administrativos e inteiramente dedicado à investigação”, explica por sua vez Nuno Severiano Teixeira ao Observador ao telefone a partir de Georgetown, em Washington, onde agora está como visiting professor — a diferença é que tem de dar aulas. “É estar numa das melhores universidades do mundo, que tem uma das melhores bibliotecas do mundo, com o privilégio de ainda se poder debater o próprio projeto de investigação com as pessoas da universidade”.

O quotidiano do ex-ministro da Administração Interna e mais tarde da Defesa passava sobretudo pela biblioteca. “Chegava por volta das dez ou dez e tal e saía ao fim da tarde. Ao fim de semana também estava aberta, e durante a semana até muito tarde”. Para além de ter conhecido o escritor angolano Pepetela, ainda teve tempo de ver espetáculos que não esqueceu no grande auditório da universidade. “Assisti lá a um recital da Cecilia Bartoli e vi um bailado que foi um dos últimos espectáculos do Merce Cunningham”.  À chegada a Lisboa, estes visiting scholars puderam, então, inscrever a passagem pela Califórnia no seu currículo. Depois de chegarem.