Há ainda muitos miúdos pelas escolas, pelos campos de futebol de 7 e pelos sintéticos de 11 com camisolas dos três grandes de Portugal. E é sempre motivo de conversa, porque ter as cores de Benfica, FC Porto ou Sporting funciona como um chamariz para se andar a comentar aquilo que as “outras estrelas” fazem ao fim-de-semana. Mas há, cada vez mais, camisolas dos grandes colossos europeus, numa tendência que acompanha a globalização da indústria. Do Real Madrid e do Manchester United, do Barcelona e do Manchester City. Esta era a noite em que os dois últimos deviam estar a jogar para as meias-finais da Liga dos Campeões. Mas esta foi a noite de Liverpool e Roma.

De uma ou outra forma, pela história maior ou mais modesta na principal prova de clubes europeus, havia qualquer coisa de especial em Anfield. Os da casa com o seu Youll Never Walk Alone cantado ainda mais do fundo por adeptos ainda mais apaixonados pela campanha fantástica dos reds; os forasteiros, com gritos de incentivo atrás de uma das balizas quase como se estivessem num coliseu romano a minutos de uma batalha que passou a não ter impossíveis depois do épica triunfo diante dos catalães na ronda anterior. O ambiente fora de campo era qualquer coisa indescritível; lá dentro, a qualidade do encontro em nada defraudou as expetativas.

Strootman, logo aos dois minutos, testou a atenção de Karius num remate de fora da área; na resposta, Salah recebeu descaído sobre a direita, atirou de pé esquerdo, Alisson, brasileiro que é “apenas” o guarda-redes com mais defesas de toda a Champions, segurou com facilidade. A jogada foi bem criada mas o toque final saiu mal. Ainda assim, a jogada foi bem criada. E nunca mais saiu da cabeça de quem estava a seguir a partida.

A Roma tem sido aquela equipa que não se mostra particularmente forte nos encontros como visitante mas que vai passando etapas com noites de sonho no Olímpico. Foi assim com o Shakhtar Donetsk de Paulo Fonseca, foi assim com o Barcelona. E parecia que os próprios responsáveis já projetavam que fosse assim antes do sorteio: como fizemos aqui menção na altura do emparelhamento das últimas quatro equipas, tinha havido a fuga via redes sociais de uma imagem onde estava já programada a venda de ingressos para o jogo com o Liverpool na segunda mão. Até aos 20′, os italianos foram melhores em Inglaterra: taticamente bem arrumados, com transições organizadas, com qualidade na posse e na circulação. E por pouco não marcaram, quando uma bomba de Kolarov, o lateral ex-City, furou as mãos de Karius e foi embater na trave da baliza do Liverpool (18′).

Os comandados de Jürgen Klopp, que tinham ficado privados de Oxlade-Chamberlain pouco depois do primeiro quarto de hora (entrou Wijnaldum, que faria uma exibição gigante no meio-campo), não conseguiam agarrar no jogo. Em determinados momentos, pareciam até perdidos em campo. Até que, pela primeira vez, a velocidade das unidades da frente começaram a ter bola em profundidade para explorarem a sua principal característica. Foi essa vertigem do Liverpool que atirou a Roma para o fosso, numa queda completamente inesperada.

Mané, o avançado que fez um hat-trick no Dragão, teve a primeira oportunidade flagrante mas, isolado, atirou por cima da trave. Dois minutos depois, o senegalês recebeu um cruzamento atrasado na área e, na passada, rematou de novo para os adeptos. A defesa transalpina tremia por tudo o que era sítio, de bola corrida ou parada, mas nem que tivesse a maior frieza e qualidade do mundo conseguiria travar o primeiro golo. Ainda se lembra daquela jogada de Salah logo aos dois minutos? Pois bem, foi assim mas com um fabuloso remate em arco no ângulo da baliza de Alisson, ainda a bater na trave (36′). E não ficou por aí: nos descontos antes do intervalo, numa jogada com tanto de simples como de eficaz que devia ser gravada e passada centenas e centenas de vezes para todos aqueles que sonham um dia chegar a treinadores, o africano deu a Firmino, recebeu mais à frente e atirou a contar (45+1′).

Até ao início da presente temporada, Mohamed Salah era apenas isso: Mohamed Salah. Recebia algumas músicas com dedicatória dos fãs em África e dos adeptos em Itália, por onde passou antes de rumar a Liverpool, mas não era propriamente um líder no campeonato das alcunhas; hoje, menos de um ano e 42 milhões de euros depois de ter trocado a Roma pelos reds, leva 43 golos em todas as provas numa posição que nem era propriamente a sua (aliás, Klopp admitiu que o próprio avançado ficou espantado quando lhe disse que a missão em termos de dinâmica de equipa seria ir finalizar mais na área), ele é o Faraó, a Jóia do Nilo e o Messi do Egito. E a época ainda não acabou. Sendo que até os próprios adeptos romanos lhe dispensaram aplausos, pelo respeito que mostrou pela anterior formação ao não celebrar os golos, levantando os braços e as mãos como que a pedir desculpa.

Os últimos 25 minutos da primeira parte foram tenebrosos para o conjunto de Eusebio Di Francesco mas os 25 minutos iniciais do segundo tempo seriam ainda piores: os romanos foram dizimados pelas ações ofensivas do Liverpool, viram a sua estrutura partida com uma anormal facilidade e os ingleses chegaram numa rajada ao 5-0: primeiro foi Mané, a empurrar ao segundo poste após assistência de Salah (56′); depois foi Firmino, também a dar apenas o toque final depois de mais uma fabulosa iniciativa do diabo à solta com o número 11 nas costas (61′); por fim foi de novo o brasileiro, agora de cabeça na sequência de um canto batido na direita do ataque (69′).

No entanto, a Roma tem mesmo sete vidas e, do nada, quando eram os ingleses a espreitar mais um ou dois golos, conseguiu colocar a eliminatória novamente “aberta” (ainda que muito complicada): Dzeko, aproveitando um erro de Lovren, recebeu na área e atirou sem hipóteses para Karius (81′), e Perotti, no seguimento de um penálti por corte na área com o braço de James Milner, fez o 5-2 final de uma partida que acabou com os transalpinos por cima e os adeptos em delírio recordando que conseguiram virar uma desvantagem de três golos com o Barcelona. Veremos o que Salah, que saiu com 5-0 aos 74′, terá a dizer sobre essa intenção no regresso ao Olímpico…