Não é propriamente a coisa mais fácil do mundo fugir ao chavão do “jogo que ninguém gosta de jogar mas que mesmo assim vale um terceiro lugar, um pódio e uma medalha de bronze”, mas este sábado o El Español foi a publicação europeia que teve a maior ginástica e encontrou qualquer coisa que vale a pena referir no início desta crónica – existe uma forma de quantificar o peso da partida, pelo menos numa perspetiva da seleção belga, e a mesma corresponde a 32 mil euros. Confuso?

Segundo o jornal espanhol, o triunfo da Bélgica diante da Inglaterra, conferindo a melhor classificação de sempre aos Diabos Vermelhos num Campeonato do Mundo, rendeu 313 mil euros a cada jogador. Se tivessem perdido, seria apenas 281 mil. Aqui não se conta com os 45 mil euros para cada um pelos direitos de imagem nem os 50% acordados pelas receitas totais advindas da venda de produtos oficiais (deverá rondar um “bolo” de 2,5 milhões de euros a dividir ao meio), pelo que a fronteira entre uma vitória e uma derrota era feita por 32 mil euros. A este nível, isso é pouco ou nada. Num Mundial, há valores bem mais altos; quais, é uma questão de olharmos ao jogador em causa e daí percebermos a que equivalem os “seus” 32 mil euros.

Bélgica venceu Inglaterra num jogo que valeu a melhor classificação de sempre aos Diabos Vermelhos (GIUSEPPE CACACE/AFP/Getty Images)

Comecemos por Thomas Meunier, o papa quilómetros do conjunto de Roberto Martínez à direita que foi uma baixa de peso na meia-final com a França e que inaugurou o marcador logo aos 4′. A jogada em si foi fantástica, num exemplo paradigmático do melhor que a Bélgica tem – passe longo a explorar a profundidade, ocupação de espaços entre linhas, exploração dos corredores laterais, desvio na área para golo; no entanto, o jogador do PSG há muito que merecia este golo, por ser talvez um nome menos mediático do que De Bruyne, Hazard ou Lukaku mas um dos elementos com maior preponderância na manobra da equipa. Aos 26 anos, o antigo elemento do Club Brugge, que em miúdo trabalhou numa fábrica de peças para automóveis (entretanto tem as suas aventuras fora do futebol, como um negócio de catering), deu uma prova de maturidade, foi um dos melhores (talvez até o melhor) na posição e voltou a acelerar para fazer a diferença na área contrária.

Se na Bélgica as únicas alterações passaram pelos regressos de Meunier e Tielemans ao onze (saídas de Dembelé e Fellaini), Gareth Southgate promoveu uma autêntica revolução no onze com metade da equipa trocada: Jones, Rose, Dier, Loftus-Cheek e Delph entraram de início, na tentativa de ajudarem também as unidades da frente a dar mais golos a Harry Kane, que partia bem posicionado para arrecadar o prémio de melhor marcador. No caso de Rose, por exemplo, o jogo correu tudo menos bem (apesar da nova “tática” de fazer buracos nas meias) e saiu ao intervalo; no caso dos médios, o cenário foi diferente.

Delph, o polivalente jogador do Manchester City que ainda deu um saltinho a Inglaterra durante o Mundial por ter sido pai pela terceira vez, foi o primeiro a dar um sinal de perigo, mas o remate de fora da área acabou por sair fraco para Courtois. Pouco depois, começou a aparecer Loftus-Cheek, médio do Chelsea que esteve emprestado ao Crystal Palace esta temporada e que é uma das principais bandeiras entre os mais novos nesta geração por si só jovem dos Três Leões: aproveitando os espaços entre linhas e a falta de agressividade de Witsel e Tielemans no ataque à bola e ao espaço, o jogador de 22 anos ameaçou a baliza de fora e teve uma grande jogada onde foi passando adversários até ao cruzamento cortado pela defesa contrária.

Ao contrário do que se pensava, sobretudo após o golo madrugador, não houve aquela chuva de golos e oportunidades a que estamos habituados nestes encontros para apuramento do terceiro e quarto lugares e até foi a Inglaterra a ter mais vontade e iniciativa, como se viu numa bola longa controlada por Sterling para remate na passada de Kane ao lado (23′). Ainda assim, pouco mais se veria até ao intervalo, a não ser um desvio por cima de Alderweireld na sequência de um canto marcado para fora da área por Witsel com um remate enrolado que acabou por virar assistência. Quando a Bélgica acelerava e a bola caía nos pés de De Bruyne, tudo mudava; no entanto, isso aconteceu poucas vezes e o 1-0 arrastou-se mesmo até ao descanso.

Southgate percebeu bem que necessitava de subir linhas e ter outro critério nas fases de construção, fazendo logo duas mexidas no recomeço do segundo tempo com as entradas de Lingaard e Rashford. O resultado não foi imediato – e Martínez também deu a sua “ajuda”, porque ao trocar Lukaku por Mertens ganhou velocidade nas saídas mas perdeu o pilar que impedia os avanços dos centrais para zonas de construção, criando nessa área superioridade numérica – mas, sobretudo a partir dos 60′, o desgaste das principais unidades belgas confundiu-se com a melhoria dos britânicos, que assumiram por completo o jogo.

Eric Dier, com um remate rasteiro já perto da área e sem ninguém a sair no ataque à bola, deu o primeiro aviso para defesa fácil de Courtois (68′); pouco depois, numa combinação simples 2×1 que deixou o antigo defesa do Sporting isolado, a bola sobrevoou o gigante guarda-redes do Chelsea mas Alderweireld conseguiu, de carrinho, afastar a bola em cima da linha para canto (70′). À entrada do último quarto de hora, Maguire, de cabeça após bola parada, atirou muito perto do poste (74′).

Foi preciso esperarmos até aos 80 minutos, quando estávamos a verificar com a ajuda do Goalpoint que Trippier passou a ser o jogador com mais passes para finalização do Mundial e que De Bruyne confirmou o estatuto de elemento com mais ocasiões de golo criadas, para vermos a Bélgica mostrar aquilo que faz como mais nenhuma equipa quando está a ganhar e tem espaços. Primeiro, e sempre com o médio do Manchester City a pautar essas mesmas transições, Mertens cruzou para o poste contrário, Meunier disparou uma bomba de primeira e Pickford fez uma grande defesa (80′); pouco depois, a saída rápida e a visão superlativa de De Bruyne encontrou Hazard – que até tinha começado de forma mais discreta – que, com uma receção orientada, ganhou ângulo na área e rematou rasteiro sem hipóteses para o 2-0 (82′), no jogo que muitos consideram ser uma estupidez existir mas que acabou por ser mais um encontro com qualidade neste Mundial da Rússia.

Louis Van Gaal, antigo selecionador da Holanda, já tinha manifestado essa ideia. Alan Shearer, antigo avançado inglês foi uma das muitas vozes que na antecâmara deste encontro falou nisso mesmo. Todavia, num contexto competitivo completamente diferente, este Bélgica-Inglaterra pode ser, por exemplo, a final do próximo Campeonato da Europa em 2020. Claro que haverá sempre França e Croácia, os finalistas do Mundial. E Alemanha, Espanha ou Portugal, eliminados de forma prematura. Mas estas gerações de jogadores que estiveram esta tarde em São Petersburgo têm ainda muito para dar ao futebol. E, no caso dos Diabos Vermelhos, valem bem mais do que os 32 mil euros de diferença por jogador que deu esta vitória.

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