Videojogos

The Crew 2: aborrecimento em alta velocidade

A Ubisoft volta às estradas com a sequela da série de condução em mundo aberto. "The Crew 2" consegue elevar-se do terrível lançamento do seu antecessor, mas pouco mais do que isso.

The Crew 2 decide ir mais longe nos jogos de condução, permitindo-nos saltar das estradas para os céus ou para a água

O mundo dos jogos de condução mudou muito nos últimos anos quando algumas das séries mais conhecidas decidiram apostar em experiências em mundo aberto. Aliar a liberdade de condução num espaço sem limites polvilhada com eventos competitivos tornou-se quase a norma para os racing games. Se algumas séries históricas como Need for Speed acabaram por seguir esta estrada em mundo aberto, não faltaria muito para que novos títulos surgissem a concorrer no mesmo mercado. Em 2014, a gigante francesa Ubisoft lançaria de forma desastrosa o jogo The Crew para competir no género das corridas em mundo aberto, com o título a aparecer nas lojas com imensos problemas técnicos. Quatro anos depois a empresa tenta redimir-se com a sequela The Crew 2, recém-lançada a 29 de Junho.

Dizer logo à partida que esta sequela é melhor do que o jogo original não é dizer muito. The Crew demorou um ano até conseguir afinar todos os seus erros com a expansão Wild Run, que chegou tarde demais para convencer o público e os críticos desiludidos pelo estado do jogo aquando do seu lançamento. Entre o lançamento dos dois títulos o mercado de blockbusters ficou muito mais povoado em termos de open world racing games com as grandes empresas a lançarem diversos títulos em competição uns com os outros. Há portanto muita estrada virtual percorrida, muitos erros cometidos e muitas boas ideias aproveitadas. O que nos leva a ficar surpreendidos com algumas das terríveis decisões de desenvolvimento deste The Crew 2.

Voltamos ao mesmo modelo de jogo que nos obriga a estar sempre ligados à Internet ainda que o que temos para partilhar com outras pessoas online seja praticamente nulo. Um jogo que se chama The Crew e que o máximo que nos permite é aliar-nos a mais três amigos que tenham o jogo para percorrermos juntos os eventos do jogo. Nas raras ocasiões em que nos cruzamos com algum jogador anónimo nas desérticas estradas de The Crew 2, não há qualquer interação possível nem forma de comunicação. Onde muitos outros jogos nos permitem desafiar jogadores desconhecidos para corridas improvisadas, The Crew 2 é um verdadeiro terreno estéril em termos de interação ou jogabilidade com condutores que encontramos online. Estão prometidas as adições de modos multiplayer daqui a uns meses, o que é certamente tarde demais para conseguir convencer muitos jogadores a investirem neste jogo.

A melhor forma de olhar para este título é vê-lo apenas como um single player que nos obriga compulsivamente a estar sempre ligados à Internet. A explicação, diria, reside na teimosia da Ubisoft em querer preencher um jogo com um sistema de loot quando o grande celeuma de 2017 foi a forma como o público (e até a comunidade política) reagiram negativamente aos abusos destes sistemas e inclusões de micro-transações.

Esta sequela decorre num festival ficcional de desporto motorizado ao longo de todo o território dos EUA. As diferentes atividades estão disponíveis pelo mapa, e temos muitas vezes de percorrer longos trajetos para encontrar novos eventos que nos são indicados na bússola. O problema de termos de conduzir do ponto A ao B é que muito do desenvolvimento deste mundo aberto da versão reduzida no território dos EUA é vazia de conteúdo, e damos por nós a percorrer inúmeros quilómetros em que não existe nada de interesse à vista.

Seguindo uma lógica contemporânea de redes sociais, em The Crew 2 a nossa progressão mede-se pelo número de seguidores que temos. Começamos como um verdadeiro desconhecido e temos de alcançar a celebridade através dos nossos feitos, e cada corrida feita ou acrobacia demonstrada é suficiente para nos garantir mais uns quantos seguidores. Os argumentistas ainda tentaram criar uma linha narrativa que não só é verdadeiramente sofrível do ponto de vista de escrita, como é desnecessária: um jogo de corridas como este vive pela diversão e pelo desafio da condução.

Para se diferenciar dos restantes concorrentes, The Crew 2 decidiu estender a experiência da condução para além dos automóveis e das motas, permitindo-nos conduzir barcos de corrida e pilotar aviões. Estas adições ao jogo são agridoces: se por um lado o feel de competir com barcos e aviões está bem conseguido, por outro os eventos e desafios disponíveis para estes veículos são demasiado simplistas e não demoramos muito a sentir a sua monotonia. Este é, aliás, um dos problemas dos muitos desafios das diversas “modalidades” que The Crew 2 nos traz: não demoramos muito a ficar aborrecidos pela falta de talento na sua conceção.

Com tantos elementos de mediania, há um fator onde The Crew 2 se torna verdadeiramente memorável. Em alguns segmentos ou provas desportivas podemos alternar entre qualquer um dos três tipos de veículos. Podemos estar a sobrevoar uma cidade com um avião, aproximarmo-nos do solo e mudarmos automaticamente para carro, progredindo dessa forma a corrida. A transição está feita de forma irrepreensível e contribui para alguns dos momentos mais marcantes dos jogos de corridas.

Mas os pontos positivos ficam por aí. Visualmente The Crew 2 é detalhado em termos de veículos e de partículas de efeitos climáticos, mas uma desilusão na construção gráfica das cidades que parecem apenas maquetas simplistas e sem vida. O mundo é interessante de explorar mas esgota-se rapidamente com a repetição e ‘desinspiração’ das provas e desafios desportivos dos diversos tipos de veículos. A união entre o tipo de condução mais próximo dos jogos de máquinas de arcadas com um mundo aberto é algo já feito por tantos outros, e não há nada mecanicamente que The Crew 2 faça melhor do que os seus concorrentes.

Este é o grande problema deste novo título da gigante Ubisoft: se a extensão das corridas para o céu e para o mar são uma boa adição, e a transição automática entre os diversos tipos de veículo é irrepreensível, nada mais há que se eleve acima de um objeto verdadeiramente mediano. E com os 59,99 euros que o jogo custa para qualquer uma das plataformas onde foi lançado (PC, Xbox One e PS4) há muitos concorrentes dentro do mesmo género que podem ter mais anos de idade, mas em todos os aspetos são melhores.

Ricardo Correia, Rubber Chicken

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