Mantenha-se atento ao céu na noite de sexta-feira para sábado porque os portugueses vão poder assistir a um fenómeno astronómico único nos últimos cem anos. Ao longo da sua translação em redor do Sol, a Terra vai colocar-se entre a estrela e a Lua Cheia fazendo com que ela fique oculta pela sombra projetada pelo nosso planeta. Mas este não vai ser um eclipse lunar qualquer: em primeiro lugar porque é total, isto é, a Lua vai ficar completamente tapada; depois porque ela vai ficar vermelha; e acima de tudo porque este vai ser o eclipse total da lua mais longo do século XXI.

A juntar a tudo isto, as condições astronómicas ainda adicionam um bónus ao céu noturno de sexta-feira para sábado: Marte, que está excecionalmente brilhante e vermelho ao longo de julho e agosto deste ano, vai aparecer mais brilhante do que alguma vez esteve nos últimos 15 anos. Tudo porque nessa noite o Sol e a Terra também vão estar alinhados com o planeta vermelho.

Os eclipses totais da Lua acontecem quando “a Terra se encontra entre o Sol e a Lua de forma a projetar a sua sombra na Lua”, que “atravessa completamente a sombra da Terra”, explica o Observatório Astronómico de Lisboa. A juntar a este fenómeno junta-se um outro: em vez de ficar às escuras como seria expectável durante eclipse, a Lua vai assumir uma tonalidade algures entre o amarelo-escuro e o vermelho-alaranjado vivo.

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A refração da luz é um fenómeno ótico que ocorre quando a luz muda de meio de propagação e passa a viajar a uma velocidade diferente. É por causa disto que os objetos parecem distorcidos dentro de água.

Essa coloração deve-se “à refração da luz pela atmosfera”, explica ao Observador a astrónoma Susana Ferreira do Observatório Astronómico de Lisboa: “Quando estamos perante o pôr do sol, é normal que se veja no céu muitas cores próximas do vermelho. Esse é um efeito que vem da refração da luz pelas camadas que compõem a atmosfera, que depois prolonga-se pelo espaço. Se a Lua estiver na direção da luz projetada ela também fica vermelha“.

Essa cor não depende apenas da nova velocidade que a luz assume, mas também das características da atmosfera: “Por exemplo, a Lua Azul chama-se assim porque houve um ano em que a segunda lua cheia do mês coincidiu com um grande incêndio que lançou muitas poeiras na atmosfera. Essas poeiras fizeram com que a luz refratasse para a tonalidade azul”, recorda Susana Ferreira.

Isso está de acordo com aquilo que o Observatório Astronómico de Lisboa esclarece: “As diferentes tonalidades que podem ser observadas num eclipse lunar podem demonstrar o estado de saturação da nossa atmosfera com poeiras provenientes de atividade vulcânica recente ou de fenómenos meteorológicos de grande dimensão. Quanto maior for a quantidade de poeiras existentes na atmosfera, mais escuro será o eclipse e a coloração da Lua”.

Ora, ainda em janeiro deste ano houve uma lua vermelha. Mais, houve uma Lua Cheia, a segunda no mesmo mês, que além de estar mais próxima da Terra do que costuma estar, também passou por um eclipse total que a tornou vermelha em boa parte do evento. Sozinho, nenhum destes eventos era especialmente entusiasmante: as luas azuis acontecem em média a cada três anos, as luas gigantes ocorrem uma vez a cada 14 meses e as luas de sangue surgem duas vezes por ano, quando a Terra se põe entre o Sol e o nosso satélite natural. Tudo ao mesmo tempo é que é algo especial.

Só que esta lua vermelha traz outra particularidade: é a mais longa que vai haver no século XXI. A fase total do eclipse — aquela em que a Lua fica completamente oculta pela sombra da Terra – vai durar uma hora, 42 minutos e 57 segundos. Antes e depois disso, a Lua vai estar apenas parcialmente tapada durante uma hora e seis minutos em cada uma das partes. Contas feitas, este eclipse vai ter três horas e 55 minutos desde o início até ao fim.

Este eclipse vai ser visível, pelo menos em parte, em Portugal: “Em Portugal Continental a lua nasce numa altura em que está já a decorrer a totalidade do eclipse e encontra-se próxima do planeta Marte na constelação do Capricórnio. Os planetas Saturno, Júpiter e Vénus estarão à direita”, indica o Observatório. Segundo Susana Ferreira, o país vai poder ver o eclipse desde que a lua nasce, às 20h47, até à penumbra, que ocorre às 00h30.