Marte

Encontrado lago de água por baixo de uma camada de gelo em Marte

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O radar enviado para Marte para encontrar água abaixo da superfície cumpriu a sua missão: detetou aquilo que pode ser um lago de água no estado líquido na parte sul do planeta vermelho.

Atualizado

Encontrar água no estado líquido em Marte é um dos grandes objetivos das missões de exploração do planeta vermelho. As sondas ainda não a conseguiram recolher, mas a análise dos dados registados por um radar ao longo de quase três anos descobriu aquilo que pode ser um lago, com água no estado líquido, com 20 quilómetros de comprimento. O lago estará localizado por baixo de uma camada de gelo com 1,5 quilómetros de profundidade. Os resultados alcançados pela equipa italiana foram publicados esta quarta-feira na revista científica Science.

Se já está a preparar o fato de banho para um mergulho é melhor tirar daí a ideia: a água é (mesmo) gelada e é mais parecida com uma salmoura (ou até um lodaçal) do que um lago de água límpida que estaríamos à espera. Nesta localização, as temperaturas são muito inferiores a zero, o ponto de congelação da água no estado puro, mas neste caso a água não estará congelada. Os investigadores acreditam que neste local, como noutros em Marte, existam sais minerais dissolvidos, como magnésio, cálcio ou sódio. Estes sais minerais dissolvidos, a par da pressão exercida pela camada de gelo por cima do lago, fazem com que temperatura de solidificação seja muito mais baixa (68º C negativos ou menos) e que, por isso, o lago se mantenha no estado líquido — tal como acontece na Terra.

Este é um resultado impressionante que sugere que a água em Marte não é apenas temporária como as descobertas anteriores sugeriam, mas tem um corpo de água permanente que fornece condições para a existência de vida por longos períodos de tempo”, disse Alan Duffy, astrónomo na Universidade da Swinburne (Austrália), num comentário aos resultados. “Esta água subterrânea pode existir como um lago preso por baixo de camadas de rocha ou misturados com solo marciano para criar um lodo salgado, mas, de qualquer forma, 20 quilómetros de comprimento é muita coisa.”

“Esta é uma descoberta de significado extraordinário e está ligado a um aumento da especulação sobre a presença de organismos vivos no planeta vermelho”, diz Fred Watson, investigador no Observatório Astronómico Australiano, no Departamento de Indústria, Inovação e Ciência. Mas o investigador recomenda cautela porque “a concentração de sais necessária para manter a água no estado líquido seria fatal para qualquer forma de vida microbiana existente na Terra”.

Os dados foram recolhidos entre maio de 2012 e dezembro de 2015 por um equipamento da sonda Mars Express: o radar MARSIS (Mars Advanced Radar for Subsurface and Ionosphere Sounding) que há mais 12 anos tenta encontrar água abaixo da superfície marciana. Os 29 registos de radar mostraram que existia algo diferente por baixo da região Planum Australe, localizada na calota (ou massa) de gelo a sul do planeta. O perfil encontrado é semelhante ao dos lagos de água líquida encontrados por baixos dos lençóis de gelo na Antártida e Gronelândia, o que sugere que Marte tenha um lago do mesmo tipo.

Esquema que mostra como os dados registados pelo radar são diferentes quando há ou quando não há água por baixo da camada de gelo, neste caso no pólo sul marciano — Diez (2018) Science

As calotas polares em Marte são muito semelhantes às que existem na Terra, daí que os cientistas tentem há mais de 30 anos encontrar água por baixo das camadas de gelo nestas regiões, comenta Fred Watson. “Agora, pela primeira vez, temos provas convincentes que existe água no estado líquido por baixo das calotas no sul de Marte”, diz o investigador que não participou no trabalho. “Esta localização não tem nada de especial”, acrescenta Alan Duffy, que não participou neste estudo. O investigador explica que o radar MARSIS é mais sensível nesta região, mas que provavelmente existem depósitos de água semelhantes por todo o planeta.

A comunidade científica está entusiasmada com a descoberta, mas Michael Brown, investigador na Faculdade de Física e Astronomia da Universidade Monash (Austrália), é mais cuidadoso com os festejos. “Estes resultados baseiam-se na interpretação das imagens do radar registadas com a sonda Mars Express e estou certo que a comunidade científica vai debater explicações alternativas, para o que a sonda observou, nos próximos meses ou anos.”

A possibilidade de existir água no estado líquido leva os investigadores a pensar mais longe. “Nas futuras explorações a Marte feitas por humanos, significa que pode ser um recurso para quem esteja lá a viver”, comenta Brad Tucker, investigador no Observatório Mt. Stromlo na Universidade Nacional Australiana. A água é essencial para a sobrevivência dos astronautas e pode ser usada na conversão do hidrogénio e oxigénio em combustível para foguetões. Encontrar uma fonte no próprio planeta, reduz (e muito) os custos de enviar água para o espaço com esses objetivos.

Que caminhos pode seguir a investigação a partir daqui? Por um lado, descobrir se existem outros lagos como este noutros pontos do planeta. Por outro, verificar se o lago — ou lodo salgado, como lhe chamam alguns investigadores — é alimentado por rios subterrâneos como acontece na Antártida. Mas antes demais é preciso confirmar se o que foi encontrado é realmente água.

Atualizado às 16h15

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