À quarta foi de vez: depois de três finais perdidas, Portugal é campeão da Europa de Sub-19. Os comandados de Hélio Sousa bateram a Itália por 4-3 após prolongamento e conquistaram o título europeu que faltava à Seleção Nacional, num jogo com um final de loucos. João Filipe marcou no primeiro tempo e Francisco Trincão, no segundo, deu uma vantagem de dois golos a Portugal, que seria desfeita por Moise Kean pouco depois. O encontro foi para prolongamento, João Filipe voltou a marcar, mas os italianos conseguiram novo empate, antes de Pedro Correia assinar o quarto golo português e carimbar uma vitória histórica para as cores nacionais.

No final dos 120 minutos houve festa rija no relvado, com os jogadores portugueses a levantarem o troféu, adivinhando-se também uma receção calorosa à chegada a Portugal, prevista para segunda-feira. Para já, fonte oficial da Presidência da República já adiantou ao Observador que Marcelo Rebelo de Sousa recebe os novos campeões europeus na terça-feira, às 12:30, no Palácio de Belém.

Ainda o jogo não tinha começado, já havia um obstáculo para Hélio Sousa contornar: Miguel Luís, médio do Sporting que tem sido peça importante no meio campo nacional, apresentou queixas no aquecimento e ficou fora do onze, com Nuno Henrique, atleta que atua no Sion, da Suíça, a assumir o seu lugar. Portugal perdeu um criativo, mas ganhou capacidade física e defensiva no miolo e até entrou bem na partida, com João Filipe, logo no primeiro minuto, a atirar cruzado, mas ao lado da baliza, deixando o primeiro aviso português.

O extremo do Benfica, que tem dado nas vistas ao longo da competição, parecia decidido a marcar e, três minutos depois, desviou de cabeça uma cruzamento venenoso para a área italiana, mas Plizzari agarrou sem problemas. Portugal entrava bem no encontro, tinha mais bola e ia somando oportunidades: Nuno Henrique, de cabeça, obrigou o guardião transalpino a aplicar-se, antes de José Gomes, avançado do Benfica, rematar ao lado, com o esférico a ir à malha lateral.

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Nas bancadas, o público finlandês apoiava a Seleção Nacional… por enquanto. Como tem sido hábito ao longo da competição, desde que a seleção da casa foi eliminada – exatamente pelas duas formações finalistas – um grupo de adeptos apoia uma das equipas ao longo dos primeiros 45 minutos e, ao intervalo, veste a camisola da outra seleção e canta por ela, como se da formação finlandesa se tratasse. Talvez por isso, ou não, a motivação portuguesa parecia não acabar e, aos 26′, David Carmo, central do Sp. Braga, atirou uma autêntica ‘bomba’ de fora da área, obrigando Plizzari a esticar-se e desviar para canto.

Portugal estava melhor, mas o nulo mantinha-se no marcador. A Itália procurava segurar o ímpeto português e, a espaços, ia forçando a defesa nacional a mostrar concentração e acerto. Durante todo o primeiro tempo, João Virgínia, titular pela primeira vez no lugar do lesionado Diogo Costa, não teve grande trabalho, com os transalpinos a nunca conseguirem criar grande perigo para as redes portuguesas. Em cima do intervalo, a insistência portuguesa foi recompensada: cruzamento de José Gomes, assistência de Francisco Trincão e João Filipe, sem deixar a bola tocar no chão, amortece e remata certeiro para o golo da vantagem nacional no último lance do primeiro tempo. Plizzari até ficou mal na fotografia, mas Portugal justificava o golo e, ao descanso, 1-0 para os comandados de Hélio Sousa.

João Filipe, aos 45 minutos, recebeu no peito e, sem deixar a bola tocar no chão, abriu o marcador para a Seleção Nacional (Créditos: Twitter UEFA)

Na segunda parte, a Itália vinha disposta a contrariar o rumo dos acontecimentos e, logo nos primeiros minutos, o capitão Melegoni disparou forte, mas ao lado da baliza nacional. O lance foi perigoso e a nova claque italiana parecia ter gostado: já todos equipados de azul, os finlandeses aplaudiram, e muito, a tentativa da formação transalpina, que já contava com Moise Kean, avançado da Juventus, em campo. Mas Portugal não se deixou assustar e Francisco Trincão quase ampliou a vantagem: transição rápida conduzida por José Gomes, que serviu o extremo do Sp. Braga para o remate forte mas por cima do jovem minhoto. Um minuto depois, novamente Trincão, com um grande remate de primeira, mas ao lado.

Portugal estava em vantagem, mas nem por isso tirava o pé do acelerador e o segundo golo nacional parecia mais perto do que o primeiro italiano. João Filipe, com mais uma exibição de fazer arregalar a vista, bailava à frente de dois adversários, antes de rematar muito perto do alvo. Pouco depois, o extremo do Benfica recebeu uma bola longa, dominou e atirou para defesa de Plizzari; na recarga, Francisco Trincão foi mais rápido do que os adversários e atirou para o fundo das redes, assinando o 2-0. Foi o quinto golo do extremo do Sp. Braga no Europeu, tornando-se assim o melhor marcador da competição.

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Mas a Itália não atirava a toalha ao chão e ainda havia portugueses a festejar na bancada, já Moise Kean atirava cruzado para o 2-1. De rajada, o impensável acontecia: desconcentração da equipa portuguesa, ataque rápido da squadra azzurra e Moise Kean, melhor marcador italiano na prova, a bisar e a estabelecer o empate a dois. A 15 minutos dos 90, tudo empatado e Portugal foi da euforia à desilusão em menos de cinco minutos.

Com dez minutos por jogar, Hélio Sousa ainda não tinha mexido na equipa e o desgaste físico começava a notar-se. Aos 83′, a primeira troca: saída de José Gomes para a entrada de Mésaque Djú, numa alteração entre avançados do Benfica. E o recém entrado quase fez o terceiro golo português com um desvio que saiu perto, mas a igualdade acabaria mesmo por se manter até ao final dos 90 minutos.

O prolongamento trouxe duas equipas muito desgastadas a dar tudo o que tinham para levar o título consigo. Os índices de motivação dos italianos superavam os portugueses, fruto dos dois golos apontados de rajada, e era a formação transalpina quem levava a bola mais perto do seu objetivo. Mas seria Portugal a equipa mais eficaz: João Filipe (quem mais?) à entrada da área a atirar muito forte, com a bola ainda a tocar no poste antes de entrar na baliza italiana. Estava feito o 3-2, o quinto golo de João Filipe, que igualava Trincão no topo da lista de marcadores. Ao intervalo do prolongamento, Portugal estava em vantagem.

A taça, que fugiu a Portugal em três finais, foi finalmente conquistada após vitória sobre a Itália por 4-3 (Créditos: Twitter UEFA)

Mas esta era uma final de loucos: início do segundo tempo e Scamacca a cabecear sozinho na área, a fazer o empate a três golos. Estava estabelecido novo empate, que duraria… dois minutos. Aos 109′, João Filipe lançou Pedro Correia, avançado do Deportivo, que recebeu no interior da área italiana e conseguiu arranjar espaço para virar e atirar a contar para o quarto golo da Seleção Nacional. A dez minutos do fim, Portugal vencia por 4-3, depois de ter perdido duas vantagens ao longo do encontro. Mas, desta feita, os comandados de Hélio Sousa conseguiriam aguentar a vantagem e, após o apito final, foi tempo de fazer uma festa histórica para Portugal.

Depois de três finais perdidas (2003, Itália, 0-2; 2014, Alemanha, 0-1; 2017, Inglaterra, 1-2), Portugal finalmente viu a persistência recompensada. Duas vitórias na fase de grupos (Noruega, 3-1 e Finlândia, 3-0) e uma goleada por 5-0 sobre a Ucrânia colocaram a Seleção Nacional numa final onde os comandados de Hélio Sousa chegaram com apenas uma derrota, frente aos transalpinos, por 3-2. No derradeiro encontro a história foi diferente e a geração que há dois anos foi campeã da Europa de Sub-17 sagrou-se campeã europeia de Sub-19. Foi a primeira geração de qualquer país a conseguir fazê-lo. Talento não falta e os títulos já começam a aparecer. Fica a questão: até onde pode chegar esta geração?