Se achou difícil caminhar na rua nestes últimos dois dias, mesmo à sombra, imagine o que terão passado os ciclistas nas estradas alentejanas, nestas duas primeiras etapas da Volta a Portugal. Ao contrário daquilo que possamos pensar, talvez até estejam mais bem preparados para enfrentar este calor, mesmo durante o esforço de uma prova, do que o comum veraneante que não respeita os limites do corpo e não se hidrata o suficiente. Ainda assim, uns e outros correm riscos de uma insolação com consequências muito graves.

A 80ª Volta a Portugal começou esta quinta-feira, com uma etapa que ligava Alcácer do Sal a Albufeira (191,8 quilómetros), e arrancou logo a escaldar, com os termómetros a marcarem 45 graus Celsius, segundo um comunicado da prova. Sexta-feira não foi mais fácil. Se, por um lado, se podia celebrar porque a etapa ia ligar Beja a Portalegre, algo que não acontecia há 20 anos, por outro lado, a promessa de mais de 40º C na etapa mais longa (203,6 quilómetros) não vinha ajudar à festa. Pode ser que amanhã e depois, as descidas nas prova em montanha ajudem a refrescar — já que o calor não vai abrandar.

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Os ciclistas treinam muito. “Preparam-se o melhor que podem para a intensidade e dureza da prova. Treinam para cumprir as etapas com a intensidade máxima. Mas não há treino que possam fazer que lhes permita aguentar estas temperaturas extremas”, disse ao Observador Vital Fitas, diretor desportivo do Sporting-Tavira, uma das equipas em prova. Mas se há coisa que os bons ciclistas sabem fazer é “gerir o esforço”, garante Delmino Pereira, presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo.

“O ciclista está habituado a provas duras. É um atleta completo, com condições físicas para aguentar momentos de grandes sacrifícios”, disse ao Observador Delmino Pereira, que foi ciclista profissional entre 1988 e 2001 e participou em 14 provas da Volta a Portugal. O que acaba por acontecer é que os atletas adaptam o esforço às condições. Neste caso, abrandaram a velocidade e, esta sexta-feira, estavam cerca de 40 minutos atrasados em relação ao que seria esperado.

Há muitos anos que a Volta a Portugal acontece no verão, quando as pessoas (e o futebol) estão de férias, com as provas a atravessar as horas de maior calor — uma boa hora para ficar em casa, no fresco, a acompanhar a prova pela televisão —, por isso não se pode dizer que os atletas não esperem encontrar calor. “E os atletas portugueses e espanhóis estão, normalmente, adaptados a estas temperaturas, porque estão habituados a elas”, disse Vital Fitas. O problema é que este ano ainda não se tinha feito sentir tanto calor e as temperaturas altas chegaram precisamente com o início da prova, não dando tempo aos ciclistas de se adaptarem à temperaturas. “Tenho atletas que saíram de casa na segunda-feira com 14ºC. São 30º C de diferença.”

Perto da meta, em Portalegre, no final da segunda etapa da 80ª Volta a Portugal — Paulo maria / INTERSLIDE

Delmino Pereira considera que “as equipas estão a encarar a situação com naturalidade e os atletas também”. “Se calhar encaram com mais facilidade do que as pessoas de fora.” Vital Fitas não é a mesma opinião: “Quando a temperatura chega aos 45º C não há quem não se queixe.” A sola dos pés escalda no calçado, a camurça dos calções sempre molhada provoca assaduras nas virilhas e, como se não chegasse o calor na atmosfera, o alcatrão é uma autêntica chapa para assar carne. Os ciclistas também não se mostraram muito satisfeitos no final da prova, chegando mesmo a afirmar que a etapa devia ter sido anulada.

Mas o maior problema é mesmo o perigo de insolação (ou golpe de calor). Normalmente, o corpo transpira para arrefecer, porque quando o suor evapora refresca a pele. Pior seria se, aliado às temperaturas muito altas, a humidade do ar também fosse alta. Nesse caso, o suor não evaporava, escorria, e os atletas não conseguiriam arrefecer o corpo. Isso e não se hidratarem convenientemente. Basta lembrar o que aconteceu durante o curso de comandos em 2016: nem os formandos estavam preparados para o esforço como os ciclistas estão, nem lhes foi permitida o nível de hidratação que necessitavam — coisa que as equipas de apoio não deixam faltar aos atletas em prova.

Manter a hidratação, com água e bebidas isotónicas (com sais minerais e hidratos de carbono), e ir refrescando a pele (borrifando ou despejando água em cima), minimiza os riscos de sobreaquecimento, que acontece quando o corpo já não consegue baixar a temperatura interna (e se mantém acima dos 40º C). Com o golpe de calor, o corpo desidrata, a tensão arterial desce e os primeiros órgãos a sofrer as consequências são os rins — insuficiência renal aguda. Este estado de desidratação profundo pode levar a enfarte agudo do miocárdio e a alterações neurológicas, como alterações da consciência e coma. No limite, a síndrome de falência múltipla de órgãos  leva à morte. (Se esteve com atenção, percebe que acabei de descrever uma situação semelhante à que aconteceu com os comandos).

Claro que, quando detetada a tempo, esta situação de hipertermia (sobreaquecimento) é reversível. Hidratar, hidratar, hidratar, é o mais importante. Depois borrifar o corpo e colocar-se em frente a uma ventoinha — no fundo, simular o efeito do suor a evaporar do corpo para arrefecer a pele. Pode optar-se por um banho, mas com água tépida, nunca fria, para não provocar um choque térmico. Em situações mais graves, e no hospital, pode ser usado soro gelado no estômago ou na bexiga. Os casos extremos têm de ser acompanhados na unidade de cuidados intensivos.

Em alguns locais, os bombeiros disponibilizaram-se para regar os ciclistas e ajudá-los a enfrentar o calor — Paulo maria / INTERSLIDE

Delmino Pereira assegura que o colégio de arbitragem e a organização da prova se preocupam com a saúde e segurança dos ciclistas e que farão as alterações necessárias — até mesmo cancelar a prova — para salvaguardar os atletas. Uma das medidas já implementadas é a possibilidade de as equipas de assistência poderem começar a fornecer líquidos aos atletas pouco depois do início da prova (aos dois ou quatro quilómetros ou quando for determinado pela organização) em vez dos 50 quilómetros normalmente estabelecidos. E poderem fornecer líquidos até faltarem apenas 10 quilómetros para a meta, quando normalmente seria até aos 20.

Vital Fitas considera a medida importante e explica porquê: os ciclistas levam dois bidões de água (mais ou menos um litro) à partida, mas esta sexta-feira já tinham bebido cinco ou seis bidões quando chegaram ao quilómetro 50. Cada um dos sete elementos da equipa do Sporting-Tavira terá gasto na segunda etapa da prova cerca de 25 bidões de água — entre a água que bebem e a que despejam sobre o corpo.

Finda a prova vem o tão merecido descanso, umas boas massagens e uma refeição rica em hidratos de carbono, proteínas e sais minerais, para repôr o que perderam durante a prova que durou cerca de seis horas. Delmino Pereira considera que agora existem boas estruturas de apoio. Quando ainda era ciclista não havia hoteis com ar condicionado, agora as equipas têm médicos e nutricionistas e condições para fazer a recuperação. Na sua altura dormiam em tendas ou debaixo dos camiões. Sorte tinham quando iam a Portalegre e podiam ficar no seminário. Aí sim, era melhor do que estar num quarto com ar condicionado.