Beyoncé, além de ser uma das cantoras mais bem sucedidas e influentes do século XXI, tornou-se uma voz para ser ouvida no que toca à igualdade entre raças, etnias e géneros. E talvez seja por isso que a história que a cantora norte-americana contou à revista Vogue seja não só uma revelação para o público mas também uma revelação para ela própria. A voz de “Single Ladies” é a cara do September Issue da Vogue e contou pela primeira vez que é descendente de um dono de escravos.

“Pesquisei sobre os meus antepassados recentemente e descobri que descendo de um dono de escravos que se apaixonou e casou com uma escrava”, contou Beyoncé. “Tive de processar essa revelação com o tempo. Perguntei o que é que significa e tentei colocar tudo em perspetiva. Agora acredito que foi por isto que Deus me abençoou com os meus gémeos. Pela primeira vez, energias masculina e feminina conseguiram coexistir e crescer no meu sangue. Rezo para que seja capaz de quebrar as maldições geracionais na minha família e para que os meus filhos tenham vidas menos complicadas”, acrescentou a cantora de 36 anos, que é mãe de Blue Ivy, seis anos, e dos gémeos Rumi e Sir, que completaram um ano em junho.

No início do mês, circularam rumores de que Beyoncé tinha tido um “controlo sem precedentes” sobre a peça na Vogue e todo o seu conteúdo – no produto final, a revista descreve a intervenção de Beyoncé como um “esforço colaborativo”. A edição da Vogue que tem como protagonista a cantora de “Halo” é ainda a primeira fotografada por um negro: Tyler Mitchell, de 23 anos, ganhou relevância quando foi escolhido para produzir uma capa digital para a Teen Vogue. Raul Martinez, o diretor criativo da Condé Nast, ficou impressionado com o trabalho do jovem fotógrafo e sugeriu-o a Beyoncé, que aceitou.

Na peça, escrita por Beyoncé na primeira pessoa, a norte-americana conta que vem de uma família com uma “linhagem de relações homem-mulher quebradas, abuso de poder e desconfianças”. “Só quando olhei para isso é que fui claramente capaz de resolver esses conflitos na minha própria relação”, revelou a cantora, cujo casamento com o rapper Jay-Z tem feito notícia e causado polémica à volta do mundo nos últimos anos, com rumores de infidelidade. Ainda assim, Beyoncé descreve o homem com quem está há 16 anos como “um soldado e um forte sistema de apoio”.

Beyoncé contou pela primeira vez que Rumi e Sir nasceram depois de uma cesariana de emergência em 2007 Ao contrário do que aconteceu depois do nascimento de Blue Ivy, em 2012, a cantora garante que não sentiu qualquer pressão para seguir “as coisas que a sociedade diz sobre como o corpo deve ser” e aceitou as curvas que surgiram depois da segunda gravidez.

A cantora lançou recentemente o álbum “Everything Is Love” em conjunto com o marido, onde assinam como os Carters, depois de seis discos a solo e outros cinco com a banda Destiny’s Child. Beyoncé descreveu ainda um dos momentos favoritos da já longa carreira, que aconteceu recentemente, durante um concerto em Berlim: “Foi num concerto em Berlim, no Olympiastadion, o local dos Jogos Olímpicos de 1936. E era um local usado para promover uma retórica de ódio, racismo, divisão, e foi o local onde Jesse Owens ganhou quatro medalhas de ouro, destruindo o mito da supremacia branca. Menos de 90 anos depois, dois negros atuaram ali, frente a um estádio cheio e esgotado”.

Numa fase mais pessoal e de retrospetiva, Beyoncé recorda que no início da carreira lhe disseram que nunca estaria na capa de uma revista porque “os negros não vendem”. “Claramente, era um mito”, atirou a cantora de 36 anos.