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Ao primeiro dia em Coura, Marlon Williams apaixonou-se e os Linda Martini tomaram conta da noite

Foi o arranque da 26ª edição do festival. Marlon Williams estilhaçou-nos o coração, King Gizzard foi o feiticeiro do costume e os Linda Martini conquistaram a noite de Coura.

O primeiro dia foi de reencontro: reencontro com a colina, que nas recordações de edição para edição parece sempre menos íngreme do que na realidade é; reencontro com aquele spot que fica religiosamente marcado, com precisão de GPS sentimental, porque foi ali que se chorou e berrou tantos concertos cravados na pulseira que alguns trazem gasta no pulso e outros guardam numa caixinha; reencontro com caras conhecidas de uma peregrinação que dura há 26 anos, entre curvas de uma estrada nacional que poucos certamente torneariam se não fosse Paredes de Coura a vila do rock.

Tantos lugares comuns, mas ainda assim Coura consegue surpreender com novidades. Algumas mostram-se subtis, como as mudanças que se notam no recinto, agora com uma clareira surgida pouco depois de ultrapassado o pórtico, com sofás e ofertas de vinho a copo para um convívio em estilo sunset de Verão; ou os finos blocos brancos, com capas estampadas a simular livros de Torga, Lídia Jorge, Mia Couto, Lobo Antunes, Camilo, Eça entre outros grandes nomes lusófonos, pregados em árvores envolvidas de tecido vermelho e com um letreiro “Quantas histórias tem o teu festival?”, enquanto uma mensagem apela a que se faça o download dos romances através de um leitor QR code. É um incentivo à leitura nas tardes de sol do Taboão, que sempre viu livros pousados nas suas margens. Pena não haver na selecção A Casa Grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro merecia um lugar naquelas árvores e merecia estar neste recinto para contar o tanto que Paredes de Coura tem além do que aqui se vive nesta curta semana. Não faz parte do portfólio da Leya, patrocinadora da acção, logo não existe.

Marlon Williams emocionou, Linda Martini encontrou o seu espaço nas noites de Coura

Mas a novidade maior veio da Nova Zelândia e fez das árvores que o rodearam, do pôr-do-sol lento por entre os ramos, da plateia rendida em poucos segundos, uma das mágoas de amor mais bonitas que certamente passou por este festival. Marlon Williams apareceu em palco sozinho, discreto, pegou na guitarra e começou a entoar “The First Time Ever I Saw Your Face” e de repente tudo à sua volta se calou. Era a primeira vez que o víamos em Portugal, a primeira que ele nos via também e rápido deixou claro, com um “I love it”, que estava feliz por aqui estar.

Prosseguiu suplicando “Come to me”, já com a banda alinhada a seu lado. À medida que o reportório sucedia, mais ele se soltava e mostrava uma voz que nos agudos nos fazia chorar por Jeff Buckley — afinal ele não morreu e vive na voz de Marlon Williams, hallelujah! — e nos graves descia às baladas de Elvis ou, mais raramente, ao animal ferido de Cave. E mesmo com um ligeiro contratempo em “Party Boy”, com uma falsa partida que obrigou a banda a começar de novo, não deixou de ser uma actuação quase imaculada esta que o quarteto liderado por Williams nos ofereceu.

“I’m lost without you”, bateria em tuuuum ta, tum tuuuum ta, a marcar a batida de um coração arrastado, “Nobody gets what they want anymore” de agudos cristalinos e sofridos e acima de tudo “When I was a young girl”. Outra vez sozinho em palco, antes de despejar uma dor que Nina Simone cantou num tempo diferente do seu, disse-nos que nestes dias a passear por Portugal se tinha apaixonado pelo fado, “fez-me sentir como se estivesse em casa”. Não foram palavras vãs. Aplicou-as numa voz que jorre do peito a emoção que não se diz senão a cantar e inclinou-se para trás de olhos fechados como um fadista dorido na sua solidão. Foi um final melancólico com um amor de elegia clássica: intenso e dramático.

Pausa para engolir em seco

A noite entretanto caiu sem darmos conta. A fome trouxe-nos de novo para a realidade e obrigou-nos a articular o passo no alcance daquela mistura de cheiros esvoaçantes da restauração. Demos não como uma, mas com duas áreas de oferta variada, entre o saudável, o tradicional, o slow e o fast food cheio de pecados mortais de lambuzar os dedos com genuína gula. Enquanto isso, Linda Martini entrava em cena com vontade de arrancar as raízes do chão.

Foram a segunda banda portuguesa a apresentar-se neste primeiro dia de Paredes de Coura, baptizado pelos Grandfather’s House. Nesse concerto diurno, tirando o apoio do núcleo de Braga colado ao palco, o público espalhou-se sentado em família e desenhando semi-círculos na relva. Um cenário antítese daquilo que se passou às 21h40. Recinto com poucas brechas e já impenetrável nas primeiras filas, os Linda Martini deram aos seus fãs a dose de morfina que lhes saciou o corpo, ora balançante e de olhos fechados nas músicas mais calmas, ora monstruoso a saltar em moshes sem anúncio prévio, como em “Mulher-a-dias” ou “Amor Combate”.

Na hora e pouco de concerto ouviu-se o recente álbum homónimo, gravado no ano passado em terras catalãs, mas foi nos singles mais antigos, tornados hinos por quem os segue com devoção desde o primeiro dia, que o anfiteatro mais tremeu. No palco, Cláudia Guerreiro, Pedro Geraldes, André Henriques alinhados à frente a rasgar no baixo e nas guitarras, com Hélio Morais atrás a espancar a bateria com a dose certa de paixão e suor. Mexeram-se, espernearam, dobraram-se quase mortalmente para depois explodir com ira, espectáculo encenado onde a música os comandou. Souberam marcar Coura convencendo mesmo os cépticos, encostados ao fundo da colina mas aplaudindo sem ironia (a história dos Linda Martini sempre colheu amores e ódios) — e brilharam agora em horário nocturno. A lua fica-lhes bem, os aplausos e o eco do público em “Cem metros Sereia” ou em “Unicórnio de Sta. Engrácia” idem, eles merecem e nós também.

O transe dos King Gizzard & The Lizard Wizard e o silêncio que faltou em The Blaze

Era aguardado com grande expectativa, e não era caso para menos. Depois de um frenético 2017 com cinco álbuns editados de rajada, os King Gizzard & The Lizard Wizard apareceram em Paredes de Coura com a carga toda. Atacaram de imediato com “Digital Black”, atrás deles um fundo de trovoada e televisão mal sintonizada.

Começava a hipnose. Só pararam com o galopar de guitarras 15 minutos depois do tiro de lançamento, saiu-lhes um “obrigado” e prosseguiram com “Sleep Drifter”. Nas cordas calcadas com o sobe e desce das escalas orientais, quais encantadores de multidões, Stu Mackenzie e os seus deram-nos aquele saborzinho de space rock salpicado de uma delirante nostalgia da transição dos 80 para os 90, com cheirinho a horas de Street Fighter na Mega Drive – Ready? Fight! até ao KO final. Éramos felizes assim e em pleno século XXI, quase a tocar os novos anos 20, os King Gizzard também nos mostram que estão a curtir despreocupada e desalmadamente.

“Rattlesnake” muda o fundo, tomado de assalto por montanhas de linhas vermelhas em correria 3D. Deslizamos numa força gravítica imaginária que nos precipita para o palco, ao ritmo das maracas que chocalham como a cauda da cascavel.

“Sweat drips out of every pore as
I bite you
more and more and more and
Take one last look at your captor

And hear my tail rattling ‘til you’re dead”

Não há como escapar a estes sete australianos que em Robot Stop provocaram uma avalanche de corpos caídos nas mãos dos seguranças, incansáveis no fosso, depois de sucessivos momentos de crowdsurfing. Parar parece impossível e talvez por isso mesmo o final do concerto tenha sido abrupto, “thank you, thank you, thank you, we love you” disseram de uma assentada quase sem respirar para desaparecerem sob o coro de aplausos e assobios histriónicos.

Depois disto, foi difícil dar aos The Blaze o ambiente que a sensibilidade da música de Guillaume e Jonathan Alric exige. Contemplação é o que os dois ecrãs pousados no palco, primeiro a esconder o duo francês, depois a abrir lentamente para os desvendar numa clareira de espelhos, pediam para quem os estava a observar do outro lado. Mas os corpos ainda esperneavam, electrizados pela energia de King Gizzard, e a colina, num burburinho de fundo impossível de estancar, nunca chegou a pousar na serenidade indispensável para que a música dos Blaze fosse mel para os nossos ouvidos. Fica a vontade de os rever.

A primeira noite de Paredes de Coura fechou a dois tempos. Primeiro com Conan Osiris em quimono e a levar à loucura as primeiras filas da plateia, persistentes nos berros, enquanto outros torciam o nariz atrás, num espectáculo algo inconsequente do lisboeta. Depois com Nuno Lopes, o veterano que sabe nadar perfeitamente nestas águas e que traz sempre um set de arrastar a noite pela madrugada fora. Esta quinta-feira há mais.

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