“É a cinco euros, é a cinco euros! O cachecol com a mística do Benfica, a cinco euros! Carrega Benfica!”. A ladainha, repetida a muitos metros e a quatro horas do jogo grande da terceira jornada vai acompanhando os passos rumo ao Estádio da Luz. O sol é inclemente, as pessoas escondem-se como podem dele enquanto se vão aproximando do palco do encontro. Ainda não é um caudal gordo de pessoas, a torneira é mais estreita, mas é uma questão de tempo.

Já nas imediações do recinto, a habitual amálgama. De pessoas, de conversas cruzadas e cortadas – “já vos disse que na Madeira vos arranjo casa, é mesmo perto do Estádio do Marítimo” – de sons. Numa roulotte com entremeadas, passa a música da série La Casa de Papel. Mais à frente, num espaço coberto com mesas e bancos, a apelar ao piquenique, a batucada frenética das músicas da moda. As cornetas, no meio disto tudo. Ainda há o speaker que vai animando as tropas e gritando palavras de ordem. “E quem não salta não é lagarto, olé!”. Alinham-se apostas. Um homem prevê o hat-trick de André Almeida, outro o poker de Ferreyra, outro ainda, talvez o mais equilibrado de todos, o 2-0 com golos made in meio-campo: Gedson Fernandes e Pizzi. A assistir a tudo, um homem com a camisola subida, a meio gás entre estar vestida e despida, que lhe revela a barriga proeminente e a tatuagem na pele morena do braço esquerdo onde se lê “Fabricado em Portugal”, logo abaixo do símbolo do Benfica.

De pé junto a uma mesa cinzenta, João Saldanha, João Bolinhas e Carlos Neto, três amigos de longa data, conversam em torno de uma geleira. Mas não é uma qualquer; é vermelha e branca, vestida a rigor. Há batatas fritas, pedaços de presunto, pão, linguiça e cerveja, muita cerveja. “E estão a vir reforços!”, atira João Saldanha. “De comida ou pessoas?”, pergunto. “Os dois!”, responde, antes de lhe explodir uma gargalhada. Vêm os três de Setúbal, chegaram cedo para aproveitar cada momento do dia que até sabe a férias.

Fala-se, claro, de futebol. “Estou a gostar do Benfica esta época. Melhorou qualitativamente em relação à época passada, na forma de jogar. A equipa manteve jogadores importantes e está com mais pressão e qualidade de jogo”, sublinha João Saldanha. O outro João, o Bolinhas, acrescenta: “Há pressão alta, mas ainda faltam opções para o meio-campo. Precisamos de banco. Mas o Gedson tem estado bem, é craque”. Pergunto a Saldanha por Pizzi e pelo arranque de temporada goleador. “O Pizzi está a melhorar, porqu…”. É interrompido. “Nem fale do Pizzi, que ele não gosta do Pizzi!”, atira o amigo. A provocação não fica sem resposta: “Não é não gosto, é bom jogador mas não é nenhum craque. Ele está a ver que vão contratar mais jogadores para o lugar dele e está a jogar um bocadinho melhor…”.

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Mais à frente, uma mulher de voz fina e sotaque carregado do norte diz muito alto: “Não há nada como o nosso país”. Chama-se Fernanda Veiga e vem de Paris acompanhada do marido António e do filho Ricardo. Vivem há sete anos na capital francesa. Ele foi primeiro, em agosto; ela depois, em novembro, empurrados pela crise: estavam os dois desempregados. De lá para cá, regressam à terra natal, Freamunde, todos os anos – ora em julho, ora em agosto. 2018 é ano de agosto e o dérbi aguça a saudade da Luz. “É a nossa casa”, assegura António.

“Sou femme de ménage“, diz Fernanda, num tom estridente e um sorriso maroto. “Faço limpezas”, corrige depois. O marido trabalha nos pavimentos de estradas. Parecem felizes. “Aquilo é uma maravilha, foi pena não ter ido há mais tempo”, garante Fernanda. António é mais comedido: “É difícil mudar, mas temos de ser duros, temos de nos fazer à vida. É ou não é?”.

Os dois concordam na paixão pelo Benfica. “Isso vem desde pe-que-ni-na!”, diz Fernanda, soletrando, saboreando bem a palavra. “Sou do norte, mas lá há muitos benfiquistas, não são só portistas”, garante. “O norte não nos diz nada. Em cinco irmãos sou o único benfiquista e com muito orgulho”, acrescenta António.

Estar na Luz é uma excitação que lhes parece retirar anos ao BI. “Ai, menina, até já me dói a barriga só com a ansiedade de voltar ali”, atira António num sorriso quase pueril. “O Benfica dá-me um mal aqui no peito… como as unhas todas!”, aponta Fernanda. Sintetiza tudo numa frase. “Este mês de agosto é uma maravilha. É mesmo como diz a música: oh querido mês de agosto. É viver um dia de cada vez até as férias chegarem”.