Tailândia

Pai, o paraíso escondido da Tailândia

Se Banguecoque é um mundo à parte, onde nos devolvem os sorrisos à velocidade da luz, o norte do país reúne o elitismo da cidade em Chiang Mai, o estilo rural em Chiang Rai e a paz de espírito em Pai.

Pai. É esta a palavra a guardar. Ainda por cima é fácil

À medida que avançamos no planisfério a partir de Portugal, que é como quem diz Espanha, França, Alemanha, Rússia etc. e tal, o tempo estica. Quando aterramos na Tailândia, o nosso relógio dá sete horas a mais que em Lisboa. É de noite e isso é só um pormenor. O aeroporto Suvarnabhumi ferve de agitação. Aqui ninguém dorme e é tudo a mil à hora. Na estrada, a situação mantém-se. Com mais neons ainda. O que é reconfortante para a alma. Afinal, quem é que gosta de chegar à noite a um país desconhecido sem luz nem correrias? Se a ideia é estimular a mente, mil obrigados Banguecoque.

Ora cá está. É Bangecoque. E como podem ver, está de noite. É assim a noite em Bangecoque

A capital tailandesa é um mundo à parte. Pela grandeza dos 1.568 km2, pela correria dos 9 milhões de habitantes e pela maneira como os modernos arranha-céus se entrelaçam com os bairros sociais a serpentear o imenso caudal do Rio Chao Phraya. Há de tudo, desde barcos até ao skytrain – sem esquecer o metro subterrâneo, claro, e os tuk-tuks, óbvio. A vida é uma aventura constante. Daí que Banguecoque seja, desta vez, e só desta vez, um toca-e-foge. O nosso corpo não aguenta tanta adrenalina, queremos paz, tranquilidade e sossego. Eischhhhh, isso é pedir muito. Será? Indicam-nos o norte do país e toma lá, assim de repente, Chiang Rai, Chiang Mai e Pai. Atenção, nada de praia, nem ilhas ou resorts. Se queremos paz, tranquilidade e sossego, aventuramo-nos pela montanha acima.

É uma perdição. Chiang Mai está no pódio das cidades mais culturais da Tailândia, entre Banguecoque (inevitável) e Ayutthaya (a 80 km da capital, a cidade mais populosa do mundo em 1760 e onde mora a estátua do Buda do jogo arcade Street Fighter, com a impressionante envergadura de 37 metros de comprimento por oito de altura). Chiang Mai, dizíamos, é cultura. O Wat Phra That Doi Suthep, por exemplo – um templo gigantesco, cheio de mini templos esculpidos, no topo da montanha Doi Suthep, a 1676 metros de altitude.

Se tiver fôlego, é só subir a escadaria com 290 degraus. Quando se chega lá acima, a vista é arrebatadora. Verde, verde e mais verde. De vários tons, de perder de vista. À imagem do Grand Canyon, outro cartão postal da cidade (a 11 km do centro) com as falésias avermelhadas a piscar o olho a Marte e o Lago Huay Tung Tao ali à mão de semear para um mergulho lá de cima. Com a vida cultural preenchida durante o dia, é elementar um toque citadino à noite. Para tal, vale a pena outro mergulho. Outra vez?

Calma, este mergulho é metafórico. Nas ruas da parte velha de Chiang Mai, onde a comida tem mais encanto. Pela variedade de caldos, mariscos, peixes, fondue e por aí fora. Há o Night Bazaar, há o Walking Street e há o mercado, na sua verdadeira aceção da palavra. Impossível sair de lá de mãos a abanar ou de estômago vazio. O desafio é encontrar uma só barraca do seu agrado. Porque há tantas, tantas que a sua cabeça viaja do ponto de partida até ao de saída. Tudo tem a ver com o seu espírito aventureiro e, claro, a fome. Se comer um caldo na quinta barraca, vai querer um espeto de mariscos na décima e uma cerveja na oitava. É assim mesmo, um pára-arranca ilimitado. Os olhos comem, as pernas (e o estômago, vá) obedecem.

De Chiang Mai para Chiang Rai, a curta distância de 197 km. Nada demais, exceção feita à disparidade de estilos. Se Chiang Mai é uma cidade grande, com avenidas largas e neons pisca-pisca como se estivéssemos num episódio do Miami Vice, a dinâmica de Chiang Rai é menos cidade-cidade e mais rural. Em defesa dos interesses da região, conhecida pelo seu papel ativo no cultivo das papoilas, de onde se extrai o ópio (esse malandro). Acontece que tudo muda em 1988, quando a princesa Srinagarindra (mãe do rei) inventa uma curiosa troca de cultivos para favorecer a agricultura tradicional e, voilà, eis que a dupla café-tabaco impõem-se em grande.

A mudança de estilo é acompanhada pelo aparecimento de turistas, algo impossível há 30 anos naquela zona tão remota. E bonita, diga-se de passagem. Afinal, estamos no Triângulo Dourado, onde se cruzam as fronteiras de Tailândia, Laos e Myanmar. Das varandas dos restaurantes à beira-rio, é possível observar nitidamente a movida nos três países: pessoas a andar a pé, outras a andar de barco ou a sair de um gigantesco prédio com a palavra casino escrita no último andar. É um regalo para os olhos. Mais uma vez. Tudo é novo, tudo é especial. Até uma simples feira de roupa, brinquedos e telemóveis. Porque estamos no outro lado do mundo e há cheiros, caras e trejeitos nunca vistos, jamais repetidos.

Como se isso fosse pouco, há um cruzamento insuspeito de dois submundos inacreditáveis, estilo Tim Burton. Ali mesmo, em Chiang Rai. Contado ninguém acredita, só visto mesmo. É o Wat Rong Khun (templo branco) e o Baan Dam (templo preto). A quantidade de turistas à volta desses dois templos é um desafio à paciência. Há filas, bilhetes, torniquetes e outros que tais. Lá dentro, o templo branco construído pelo artista local Chalermchai Kositpipat nos anos 90 desafia os costumes tailandeses.

Primeiro, a própria figura do templo escapa ao figurino habitual e até dá ares da catedral Sagrada Família, de Gaudi, em Barcelona. Depois, o interior é uma rapsódia de cor e bonecada, nada a ver com a Tailândia. Há desenhos dos heróis da Guerra das Estrelas e até uma caricatura do Keanu Reeves. Para chegar aí, temos de passar por uma ponte (branca, claro) com uma série de mãos desesperadas a meia haste, que personificam as trevas. Por falar nisso, o inferno está bem personificado no templo preto, obra de outro artista local (Thawan Duchanee). O impacto visual é ainda mais forte pela presença de ossos e animais empalhados numa casa com escassa luz e cercadas por imensas árvores caídas para dar um ar ainda mais fantasmagórico.

Visto e revisto, vamos para a última paragem do Norte. Chama-se Pai. Assim mesmo, p-a-i. E é um mimo. Se pudesse, ficava ali mais uns dias. Quem sabe semanas. Ou até meses. É uma aldeia lindíssima, rodeada pela montanha, cheia de charme, só com casa de um ou dois andares. Nada de prédios altos. Nem de multinacionais. Só a tal paz de espírito. Qual é o preço? As curvas. Para chegar lá, temos de fazer 1864 curvas. Isso mesmo, 1-8-6-4 curvas. Muitas? Antes de chegar a Pai, sem dúvida. Depois, nem pensar. Porque a simplicidade mora em Pai. O tempo até parece que anda para trás. Será das ruas por alcatroar? Da quase ausência de carros? Dos quilómetros de barraquinhas com tudo e mais alguma coisa? De todo um mundo de havaianas no pé? Isto é o paraíso. Mesmo.

Se a Tailândia é a terra onde nos devolvem o sorriso, até em Banguecoque, a amabilidade em Pai é assunto de Estado. Que delícia andar ali, sem rumo. Qualquer canto tem o que se lhe diga. Tudo é feito com amor, carinho e amor, outra vez. Como a mais bonita estátua de Buda de toda a Tailândia. Há quem se queira aventurar pelas montanhas à volta e há quem simplesmente se renda à inércia para melhor absorver os prazeres mais simples da Terra.

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