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Há um tesouro no Periquita muito bem guardado

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Para Domingos Soares Franco, vice-presidente e enólogo sénior na José Maria da Fonseca, fazer vinho não é apenas uma profissão, é uma forma de vida... que, às vezes, prega surpresas.

“Vou revelar a história de um tesouro escondido algures nesta casa. Começo por contar que ando sempre à procura de exemplares antigos de garrafas de Periquita. Há dois anos soube que, num restaurante algures no Alentejo, havia um exemplar que me interessava. A nosso pedido, um vendedor trocou a garrafa por dez caixas de Periquita. Era de 1880 e veio, em muito bom estado, juntar-se a mais duas do mesmo ano. A garrafa estava em cima de uma barrica, mas o proprietário desconhecia a sua história. Mandei-a embrulhar numa engarrafadeira que ainda cá trabalha e que sabe como engarrafar à antiga. Meti a garrafa numa caixa e guardei-a. O problema é que ficou tão bem guardada que, agora, não me lembro onde está. Mas tenho a certeza de que um dia, algures na próxima geração, irão descobrir esse tesouro de 1880!

Incrivelmente, estas três garrafas irmãs são todas do mesmo ano, embora se desconheça o que tem este ano de particular. Nem sequer se sabe muito bem como estará o vinho. Numa delas, a que está na entrada da Casa-Museu, a cor precipitou; a outra, guardada na nossa frasqueira, estava boa há dez anos, mas, há cerca de três anos, a cor também precipitou. Esta última, da qual desconheço o paradeiro, sei que, pelo menos, está escondida longe da luz. Logo se saberá como resistiu à passagem do tempo.

Sempre houve esta preocupação em guardar um exemplar de cada ano, antes de se venderem todos. Deixo esta memória para as futuras gerações, não só porque considero que é importante, mas também para responder ao pedido do meu pai, que me disse: “como enólogo, usa o que te deixámos, mas faz para o futuro”. Arranjámos, entretanto, uns depósitos de cimento que foram escavados e nos quais vamos colocar uma porta blindada, em paredes de um metro de largo, onde serão colocados e catalogados todos os exemplares. Poucas pessoas terão acesso ao local.

Metade português, metade americano

Apesar de já cá estar há quase quatro décadas, sou muito americano. Ao longo dos anos, fui perdendo alguns hábitos, mas o hambúrguer continuo a comer à mão. E muitas vezes, sozinho no carro, dou por mim a pensar em inglês.

Foi em Portugal que nasci, cresci e acabei o liceu mas, depois, quis ir para fora fazer a faculdade. Ainda tentei ver se haveria hipótese de fazer o curso em França, mas tinha de recuar dois anos e não quis. Por um acaso do destino, acabei por ir estudar para os Estados Unidos. Um dia, num jantar com os meus pais e um casal de americanos seus amigos, estes perguntaram-me o que é que eu ia fazer. Eu disse-lhes que o que queria mesmo era estudar vinho e vinhas.

Estávamos em 1975, em pleno período quente e, face à instabilidade do país, eles convidaram-me a ir para a América. Aquilo caiu como uma bomba ao jantar. Olhámos uns para os outros mas, dois meses depois, estava na América. Inicialmente, fui para um colégio interno a norte de Nova Iorque, porque as faculdades já tinham começado, e só depois é que fui para Davis, na Califórnia. Estava no colégio quando se deu o golpe de 25 de novembro de 1975 e, como durante a semana não conseguia falar com os meus pais, só no fim de semana seguinte, quando fui a casa dos nossos amigos, é que consegui perceber o que se passava. Esses não foram tempos fáceis. Mas ajudaram a tornar-me no que sou e permitiram-me seguir a minha vocação.

Um modo de ser

Adoro viajar e conhecer a diversidade de uvas e modos de produção. Ao longo destes anos tive oportunidade de visitar milhares de adegas a nível mundial, sobretudo fora da Europa. Sou assumidamente “novo-mundista”, o que também faz diferença na forma como faço vinho. Fui da Califórnia à África do Sul e estive um mês sozinho na Austrália a visitar cinco adegas por dia. Depois disso, fui para a Nova Zelândia e para a Argentina. Mas também já estive em Espanha, Alemanha, França e em Portugal, claro.

Esta descoberta e este acumular de conhecimento são muito importantes. Até porque não consigo parar de pensar em novos vinhos. Há até quem diga que penso demais, mas ao fim destes anos todos, nem se pode chamar “só” de paixão aquilo que sinto por este mundo. Isto mexe comigo, faz mesmo parte de mim.

Saiba mais em https://observador.pt/seccao/periquita/

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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