Futebol

Do bairro El Socorro para a eternidade, o trajeto irregular do pequeno génio que definiu a Libertadores

Começou no banco, jogou 60 minutos, fez um golo e uma assistência, tornou-se o novo herói do River. Juan Quintero, ainda hoje com vínculo ao FC Porto, decidiu a final na sua segunda vida aos 25 anos.

Juan Quintero iniciou a jogada do 1-1, fez uma obra prima a 11 minutos do final do prolongamento e assistiu Pity Martínez no 3-1

Getty Images

O Santiago Bernabéu tornou-se uma espécie de passadeira vermelha para as celebridades do futebol mundial aproveitarem uma final que deveriam ter visto na TV há duas semanas mas que acabaram por ter a oportunidade de ver in loco depois da passagem da final da Taça Libertadores para Madrid. Ora vejamos: na tribuna e arredores, incluindo camarotes próximos, foi possível ver Lionel Messi (que nunca tinha sido tão aplaudido no recinto do Real Madrid como esta noite), Antoine Griezmann – que levou a camisola do Boca Juniors, tendo sido apanhado num vídeo a insultar os jogadores do River Plate quando subiram ao relvado –, Jaimes Rodríguez, Javier Zanetti, Diego Simeone, Savic ou Mauro Icardi; num camarote reservado apenas para si, vários nomes da Juventus como Chiellini, Bonucci, Dybala ou Betancur; nas bancadas ou no exterior, Gaitán, Gabriel Mercado, Funes Mori, Cavenaghi, Cambiasso, Sneijder ou a dupla portuguesa Ricardo Esgaio e André Horta, que apareceu num vídeo entre os adeptos xeneizes ainda no exterior do estádio. Demasiadas estrelas na noite que pertenceu a um herói improvável: Quintero.

Saído do banco, o médio ofensivo colombiano entrou aos 58′ quando o River Plate ainda estava em desvantagem e mudou por completo o encontro: começou a fantástica jogada para Lucas Pratto carimbar o 1-1 no tempo regulamentar (67′), apontou o 2-1 na segunda parte do prolongamento com o melhor golo da noite, fez a assistência para Pity Martínez fechar as contas em cima do minuto 120, acertou todos os passes longos feitos, tentou quatro remates e teve percentagens de passe acima dos 90%. Uma exibição de luxo de um jogador que pertence ainda aos quadros do FC Porto mas que dificilmente fugirá aos millonarios, que têm uma cláusula de opção de 3,25 milhões de euros até ao final do ano. E que, com toda a certeza, ficará como herói do clube nas próximas décadas depois de ter vergado o rival direto na final da Libertadores.

“Como foi o golo? Nem pensei bem, recebi a bola, procurei o espaço, controlei e rematei. Ontem tinha trabalhado este remate e é um golo para festejar”, comentou no final do encontro o esquerdino, que venceu também o Troféu Fair Play no final da partida. “Foi um jogo muito difícil. Sabíamos que o Boca era uma equipa muito tática, com muito poder físico, mas trabalhámos até ao final, começámos a mostrar-nos e marcámos as diferenças. Tenho de felicitar os meus companheiros. É um prémio para todos e somos justos vencedores. No River somos 25, os onze que jogam e os que entram depois de têm de estar preparados para tudo para ajudar a equipa”, acrescentou na primeira reação após o triunfo por 3-1.

Formando no Envigado, Quintero passou depois pelo Atlético Nacional antes da primeira aventura europeia, ao serviço dos italianos do Pescara. Foi aí que despertou as atenções do FC Porto, que pagou 4,5 milhões de euros por metade do passe em 2013. No entanto, apesar de ter conquistado uma Supertaça, as coisas não correram bem no Dragão, somando nos anos seguintes empréstimos a Rennes (França) e Independiente Medellín (Colômbia) antes de chegar ao River Plate, tendo depois sido o grande destaque da seleção da Colômbia no Campeonato do Mundo da Rússia, em 2018.

Quintero esteve dois anos no Dragão, onde conquistou apenas uma Supertaça antes dos empréstismos (FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images)

Nascido e criado num dos bairros mais perigosos de Medellín, El Socorro, local onde nem a polícia consegue entrar em situações de perigo e onde existe muita violência e tráfico de droga, “Juanfer”, como também é conhecido, teve no futebol uma espécie de tábua de salvação para evitar outros caminhos mas nem por isso fugiu a uma infância complicada que foi marcada pela perda do pai quando tinha apenas dois anos. Como contou a Marca, Jaime Enrique saiu um dia de casa para se deslocar às instalações do Exército para pedir permissão para conseguir um trabalho e nunca mais apareceu sem que se tenha percebido ao certo o que se passara. Também por isso, sempre teve uma relação ainda mais próxima com a mãe, Lina.

James Rodríguez é um dos amigos mais próximos de Quintero, tal como o cantor Maluma (MLADEN ANTONOV/AFP/Getty Images)

Criticado em alguns momentos de menor rendimento pelos problemas com o peso e pela ligação com o músico Maluma, com quem ia saindo à noite entre algumas aparições em vídeos de canções do colombiano, viu no regresso à América do Sul uma espécie de segunda vida para recuperar o comboio do estrelato entretanto perdido, como destacava o artigo da Four Four Two no rescaldo da grande participação no Mundial, onde marcou três golos. Agora, pelo River, alcançou a sua maior coroação e logo como protagonista principal de uma história que será contada durante décadas a fio. Por causa das exibições ao serviço dos cafeteros, e ainda de chegar ao Mundial, andou a ser observador por clubes como Barcelona ou Arsenal. É que, apesar dessa irregularidade, ninguém duvida de todo o talento do pequeno génio que tem ainda uma história por escrever no futebol.

Como curiosidade, Fernando Madureira, líder da claque Super Dragões, deslocou-se propositadamente à Argentina há dois fins de semana para ver no Monumental a segunda mão da final da Taça Libertadores que nunca chegou a existir, tendo na altura mostrado nas suas redes sociais um cartaz do colombiano de 25 anos com a alcunha “El Mago”. Nessa altura, Madureira terá estado também com o próprio irmão do jogador que realizou 64 jogos (e sete golos) em duas temporadas no Dragão.

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