Cinema

“O Cavalheiro com Arma”: Robert Redford diz adeus ao cinema, e já estamos com saudades dele

920

Quase 60 anos após o seu primeiro papel no cinema, Robert Redford despede-se neste soberbo filme de David Lowery sobre um assaltante de bancos cavalheiresco. Eurico de Barros dá-lhe cinco estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

A última vez que Robert Redford roubou um banco no cinema, foi em “Dois Homens e um Destino”, de George Roy Hill, em 1969, ao lado de Paul Newman. Em “O Cavalheiro com Arma”, de David Lowery, o seu último papel num filme, Redford volta a roubar bancos, quase meio século mais tarde, mas já não tem Newman, que morreu há dez anos, para o acompanhar. Aqui, os seus cúmplices, também já tão encanecidos como ele, são Danny Glover e Tom Waits. Mas é Redford que domina por completo o filme no papel do septuagenário Forrest Tucker, um assaltante de bancos de longuíssima data que saboreia o que faz como se fosse a vocação da sua vida, e se caracteriza por actuar da forma mais cavalheiresca e discreta possível (a personagem é real e foi objeto de um longo artigo na revista “The New Yorker”, há 15 anos).

[Veja o “trailer” de “O Cavalheiro com Arma”]

Sempre elegantemente vestido e de chapéu, Tucker entra num banco de pasta na mão, dirige-se a um caixa ou ao gerente, mostra-lhes a arma que tem no bolso do casaco, pede-lhes para encher a pasta de notas e depois sai tão discreta e calmamente como entrou. Nunca puxa da pistola e o filme sugere que, se por acaso o fizesse, nunca a dispararia porque isso não lhe está no temperamento nem no carácter. Raríssimos são os atores que, como Robert Redford, nos conseguiriam convencer disso. E apesar do que Tucker faz ser um crime, socialmente condenável e punível, não podemos deixar de sentir alguma condescendência e simpatia por ele. Afinal, Redford não é apenas mais um ator, é uma estrela de cinema que, aos 82 anos, acumulou um capital de carisma, masculinidade e credibilidade, e conquistou um estatuto de lenda como só um Clint Eastwood ainda tem em Hollywood.  

[Veja uma entrevista com Robert Redford]

Redford atravessa “O Cavalheiro com Arma” com a classe reservada, a segurança tranquila, a confiança consumada e a parcimónia expressiva de quem já não tem absolutamente nada a provar, a exibir ou a explicar a ninguém. E é nesta nota que ele quer dizer adeus à tela e fechar quase 60 anos de papéis no cinema (onde se estreou em 1962, no filme de guerra “War Hunt”). O realizador e argumentista David Lowery (“A Lenda do Dragão”, “A Ghost Story”) sabe isso muito bem, e talha, modula e roda o filme a essa medida. A calma, o ritmo, o clima e a identidade de “O Cavalheiro com Arma” decorrem diretamente do modo de ser de Forrest Tucker, e da forma como Redford o interpreta, bem adequados ao elenco da terceira idade que o compõe. Aqui, coisa que não há, é pressa, precipitação, afobação. (A história passa-se no início dos anos 80, quando o mundo ainda andava mais devagar).

[Veja uma entrevista com Sissy Spacek]

Além de Robert Redford e dos citados Glover e Waits, a fita conta ainda com Sissy Spacek, magnífica no papel da sorridente e paciente Jewel, a viúva por quem Tucker se toma de amores, e eles partilham algumas das cenas românticas mais bem escritas, mais divertidas e mais bonitas vistas nos últimos tempos no cinema. Numa delas, Jewel consegue a proeza de levar o seu apaixonado a contrariar a sua natureza de rapinador compulsivo. A todos estes distintíssimos actores entrados nos anos e com longos e ricos currículos, juntam-se nomes de uma nova geração, caso do invariavelmente excelente Casey Affleck em John Hunt, o detetive afincado, bom marido e pai desvelado, que persegue Forrest Tucker. E que quanto mais o vai conhecendo, mais vai simpatizando com ele e menos vontade vai sentindo de ser ele a engavetá-lo.

[Veja uma entrevista com o realizador David Lowery]

No final de “O Cavalheiro com Arma” (o distribuidor português não quis ser fiel ao título original, “The Old Man & the Gun”, mas não havia mal nenhum nisso), David Lowery recorre a uma montagem de cenas de vários filmes de Robert Redford, para ilustrar as muitas fugas de reformatórios, cadeias e penitenciárias levadas a cabo por Forrest Tucker ao logo das décadas, e por lá passam imagens de títulos tão variados como “Perseguição Impiedosa”, “O Vale do Fugitivo”, “O Grande Golpe” ou “As Grades do Inferno”. E a legenda de abertura da fita é quase igual à de “Dois Homens e um Destino”, numa homenagem a Paul Newman: “Não que isso importe muito, mas a maior parte do que se segue é verdade”.

Robert Redford acaba de sair de cena no melhor estilo, e de se despedir do cinema, e de nós, num filme belíssimo, justíssimo, humaníssimo, onde nada soa falso ou forçado e absolutamente tudo está no tom exato, na proporção devida e no lugar certo. Já estamos cheios de saudades dele.  

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
IAVE

Errare humanum est… exceto para o IAVE!

Luís Filipe Santos

É grave tal atitude e incompreensível este silêncio do IAVE. Efetivamente, o que sempre se escreveu nos anos anteriores neste contexto foi o que consta na Informação-Prova de História A para 2018.

PSD

Marcelo, o conspirador /premium

Alexandre Homem Cristo

O pior destes 10 dias no PSD foi a interferência de Marcelo. Que o PSD se queira autodestruir, é problema seu. Que o Presidente não saiba agir dentro dos seus limites institucionais, é problema nosso.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)