No mesmo dia em que geeks de Nova Iorque faziam fila para agarrar o novo iPhone, os fashionistas apressavam-se a correr para as bancas em busca do mais recente número da Vogue Italia. Rezava assim a crónica da WWD sobre esses acontecimentos simultâneos num ido julho de 2008, quando o mercado das publicações impressas já conhecera dias de maior vitalidade. De repente, o velho papel media forças com a tecnologia de ponta e não saía assim tão lesionado do campo de batalha.

Tudo por causa de um célebre “A black issue”, povoado de manequins negras como Liya Kebede, Sessilee Lopez, Jourdan Dunn e Naomi Campbell — ou como Franca Sozzani trouxe o sensível tema da raça para as páginas de uma publicação iminentemente reservada à moda e suas extensões mais próximas. E se a inclusão e a diversidade no mundo ainda têm um longo caminho pela frente, a verdade é que a capa continuou a ser motivo de reflexão.

O risco e a ousadia de vestir a controvérsia de alto a baixo, patente em incursões sobre o peso ou as cirurgias plásticas, foram apenas uma das imagens mais marcantes do trajeto da italiana nascida em Mantua que dedicou 28 anos àquele título, na qualidade de editora-chefe, uma das mais cobiçadas e icónicas funções do setor — e apenas ao alcance de uns escassos predestinados.

O cunho peculiar é visível no próprio guarda-roupa, uma extensão natural da personalidade de Sozzani, cuja morte precoce, em dezembro de 2016, aos 66 anos, vítima de cancro do pulmão, interrompeu este ciclo criativo. Com um estilo pautado pela inspiração feminina em permanente sintonia com a onda boho, é fácil imaginar que a sua coleção privada, agora acessível aos mortais abonados, represente uma autêntica perdição para a legião de seguidores. Algumas dessas peças, uma abundante mostra entre a alta-costura e o mais cool do pronto-a-vestir, vão ser vendidos ao público esta segunda-feira, 11 de fevereiro, através da plataforma online Yoox.

O espólio inclui 397 peças e 190 acessórios, caso de items únicos como uma carteira preta Louis Vuitton com o seu monograma, vestidos usados em galas, casacos que desfilaram na fila da frente das semanas de moda e que tiveram entrada direta nas galerias do melhor do street style.

E se o talento e ofício de Franca é anterior à explosão dos smartphones, não é menos verdade que a vida inteligente nem sempre dedicou devida atenção aos rastreios de saúde. “A minha mãe nunca fez um check up”, notou o realizador e fotógrafo Francesco Carrozzini, filho de Sozzani, responsável pela Fundação que leva o nome da mãe, com uma ligação direta à investigação do genoma humano, sendo que o valor das vendas reverterá para esta campanha liderada pela Universidade de Harvard.

Outra das peças que estará à venda, com assinatura Miu Miu

O legado Franca Sozzani, outrora embaixadora da Boa Vontade da ONU, e associada a causas como a luta contra a SIDA ou contra o cancro, não fica por aqui. Já no próximo mês, no começo de março, fica disponível a edição Assouline que revisita em formato premium a carreira da editora-chefe. “Franca: Caos e Criação” é o mote para este volume imperdível, uma versão hardcover do documentário com o mesmo nome lançado em 2016.

Uns Manolo Blahnik