Bloco de Esquerda

A debandada em bloco dos críticos do Bloco

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Contra o "tacticismo", militantes do Bloco de Esquerda, incluindo dois irmãos de Francisco Louçã, fundadores do partido, decidiram afastar-se e apontam as razões numa extensa carta, que pode ler aqui.

MÁRIO CRUZ/LUSA

O “tacticismo“, a “ausência de pensamento crítico” ou ainda o “desconforto” por ter sido um assessor, Mamadou Ba, a criticar os eventos no bairro da Jamaica, em vez de um dirigente. Estas são apenas algumas das razões que sobressaem da extensa carta enviada por 25 militantes do Bloco de Esquerda à Mesa Geral do partido, em rutura com o rumo que o partido está a tomar.

A notícia foi avançada pelo diário i, que destaca os nomes de Isabel Maria Louçã e João Carlos Louçã, dois elementos fundadores e irmãos de Francisco Louçã, que se juntam ao coro de críticas e manifestam intenção de se desvincular do partido liderado por Catarina Martins. Nenhum dos militantes que agora anuncia a saída tinha até ao momento funções de direção.

Apesar de terem experiências e sensibilidades políticas diferentes, o grupo que assina à carta tem em comum o facto de ser crítico da direção há vários anos. Nas últimas Convenções do BE, uma maioria dos signatários da carta era, aliás, subscritora das moções minoritárias críticas do rumo seguido pelo partido.

Contactada pelo Observador, a Direção do Bloco de Esquerda não quis comentar.

Em baixo, leia a carta enviada à Mesa Nacional do BE, assinada por 25 militantes, na íntegra:

“Camaradas,
conscientes de que pouco resta do projeto original do Bloco de Esquerda de ser uma força política em alternativa à sociedade existente, resolvemos deixar o partido no qual militámos ativamente até agora.

Sem arrependimentos, mas também sem ilusões, este é o momento da clarificação política entre uma esquerda com um projeto radical para a sociedade e outra paliativa em que o resultado da sua ação é a integração no sistema que deveria combater. O capitalismo não se reformará com a gradualidade de medidas parcelares que, por mais justas que sejam, não evitam o aprofundar das crises, a exclusão e o agravamento das desigualdades inerentes a um sistema de dominação que tem a propriedade privada, o mercado e a finança como suas principais forças motoras.

O socialismo não será um projeto retórico que esquece a razão estratégica na sua prática, que ignora que cada ganho institucional só terá razão de ser se contribuir para o aprofundar da consciência da exploração e dos seus responsáveis, se lançar luz sobre a origem das desigualdades e de quem as promove, se apontar formas que disputem poder ao estado.

Resolvemos deixar o Bloco porque não podemos ignorar o caminho de institucionalização dos últimos anos que transformaram o partido, de instrumento de luta política, num fim em si mesmo. O taticismo de decisões, o jogo da comunicação na sua forma burguesa, a ausência de qualquer ativismo local inserido numa estratégia de construção do partido, a progressiva ausência de pensamento crítico acompanhada pela hostilização da divergência interna e profundo sectarismo com outras forças de esquerda, transformaram o Bloco de Esquerda num projeto reformista centrado na sua própria sobrevivência. Uma sobrevivência quase sempre determinada através da influência eleitoral projetada em cada momento. É esse taticismo que justifica a posição tíbia a propósito dos incidentes recentes no Bairro da Jamaica no Seixal ou o desconforto sentido por ter sido um seu militante e assessor, Mamadou Ba, que protagonizou a denúncia de serem as forças policiais responsáveis por um racismo sistémico dirigido contra africanos e afrodescendentes dos bairros pobres. Ao ocultar esse racismo sistémico das forças de segurança e dos agentes do Estado, o Bloco coloca-se no lado errado do combate antirracista e perde espaço junto de uma geração que perdeu o medo e que trava os combates decisivos do nosso tempo. É ainda esse taticismo que faz o Bloco abdicar de posições claras e de agir em conformidade como no caso da questão da renegociação da divida externa que era central e incontornável com o governo anterior, agora transformada em mero pormenor retórico que não perturba o apoio a um governo que perpetua a austeridade.

Sem espaço para a construção coletiva, perseguindo e expulsando militantes, manipulando eleições internas de forma a garantir a ficção de um partido coeso, ao mesmo tempo que a grande maioria dos e das aderentes se abstém em todos os processos de debate e decisão onde imperam os acordos de cúpula, o Bloco tornou-se numa organização hierárquica e cristalizada. E assim, deixou de servir para pensarmos coletivamente os caminhos da emancipação, deixou de ser capaz de uma prática política coerente com as tradições comunistas, socialistas ou libertárias, deixou de ser capaz de transformar esperança militante em energia transformadora.

Com a certeza de que continuaremos a partilhar com tantas pessoas do Bloco espaços e projetos, ação concreta e militâncias, sabemos que a esquerda não se esgota nas suas representações parlamentares, institucionais ou sequer partidárias, que a esquerda que faz falta para este século está em grande medida por construir.

Em ano de eleições europeias e legislativas, a ideia de que o partido está unido será pouco beliscada por esta nossa decisão, certamente menorizada e combatida politicamente. Com humildade, respondemos antecipadamente que depois das eleições o país continuará profundamente desigual, a precariedade continuará a crescer nas relações de trabalho, o capital a ser um instrumento da sua própria acumulação através da exploração incessante do trabalho e das classes que dele vivem. Depois das eleições a extrema direita europeia continuará a crescer e a beneficiar da falta de clareza da esquerda que convive e reproduz ideias dominantes sobre a Europa, ou sobre a utopia do crescimento económico perpétuo.

A esquerda que varreu o projecto revolucionário para debaixo do tapete, numa tentativa de ganhar respeitabilidade, não será assim tão diferente da esquerda que dele abdicou há muito. As duas convergem no conformismo fatalista que transforma o capitalismo no único sistema possível e a sua alternativa socialista em utopia alucinada. Pela nossa parte continuaremos o combate, pelos meios ao nosso alcance, para uma alternativa que não se limite a gerir o sistema existente, mas que procure os caminhos para sua superação revolucionária.

Para nós, o tempo de militância no Bloco de Esquerda acabou. Começamos de novo quando ainda está tudo por fazer.

12 fevereiro 2019

Assinam:
Alex Gomes, 2803;
Alistair Grant, 4221;
Ana Margarida Tavares dos Santos, 12220;
André Rodrigues Pereira, 1062;
Ângela Patrícia Teixeira Fernandes, 965;
Elisabete Figueiredo, 9036;
Filipe Teles, 11832;
Isabel Louçã, 2780;
Irina Castro, 6797;
João Carlos Louçã, 240, Lisboa;
João Freitas, 10997;
João Rodrigues, 10538;
José Viana, 1887;
Leonardo Silva, 3888;
Maria da Graça Pacheco, 771;
Maria Emilia Gomes, 567;
Maria José Martins, 623;
Mário Martins, 11238;
Nuno Pacheco dos Santos Costa,13622 ;
Paula Coelho, 5088;
Paulo Martins, 607;
Pedro Santos Costa, 770 ;
Ricardo Cabral Fernandes, 10758;
Sérgio Vitorino, 663;
Tiago Braga, 10930″

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