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A equipa com amor ao clube caiu aos pés do miúdo que ama o futebol (a crónica do FC Porto-Benfica)

João Félix, que saiu do FC Porto por ter perdido a alegria, encontrou no Benfica de Lage a sua melhor expressão de futebol. Com isso, ganhou o coletivo (2-1). E os encarnados saíram líderes do Dragão.

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Depois de já ter marcado em Alvalade, João Félix fez um golo no Dragão. O terceiro, em cinco clássicos

AFP/Getty Images

Depois de já ter marcado em Alvalade, João Félix fez um golo no Dragão. O terceiro, em cinco clássicos

AFP/Getty Images

Um clássico é sempre um clássico – e não há ninguém que perca este clássico de abrir assim a crónica do clássico. Ainda assim, e dentro da vida própria que cada jogo entre FC Porto e Benfica tem tendência para ganhar nesta espécie de microcosmos criado por ambos nos últimos anos no futebol português, este era o clássico da diferença. E foi através da diferença que se escreveu a história deste clássico. Porque também é a partir dessas exceções que se conseguem escrever as regras. Aliás, vistas bem as coisas, esta crónica começou a ser escrita a 22 de janeiro, quando João Félix publicou um texto na primeira pessoa no The Players’ Tribune. Um texto com o título “Lembrem-se de mim”. Para os mais esquecidos ou distraídos, ele apareceu.

Benfica vence FC Porto no Dragão e sobe à liderança da Liga (1-2)

“Adoro ter a bola e jogar um futebol agradável. É quando estou a ser eu próprio. Mas nas equipas de formação do FC Porto isso nem sempre aconteceu. Não acreditavam em mim tanto quanto eu acreditava, nem confiavam em mim no campo. Criticavam-me pelo tamanho. Tiraram-me do campo e a minha bola. No FC Porto, perdi a alegria. Em Lisboa, encontrei-a novamente. Levou algum tempo, alguma confiança. Tinha de provar a mim mesmo nas equipas jovens outra vez. Mas o Benfica tem um estilo de futebol bonito – acreditam no todo, na formação, na ideia de equipa antes do individual”, escreveu o jovem avançado na parte onde explicou a mudança dos dragões para as águias. Nesse dia, o Benfica sofreu a única derrota na era Bruno Lage e logo frente ao FC Porto, na meia-final da Taça da Liga; agora, o resultado foi outro (2-1). Também por causa de Félix.

A saída de elementos da formação que se assumem no conjunto principal está a tornar-se uma regra. E o avançado também faz parte da mesma. No entanto, é uma exceção. É uma exceção porque há muito tempo que o futebol português não produzia um talento com estas características. Podíamos falar do facto de João Félix ter sido o primeiro desde Tiago (2002/03) a marcar em Alvalade e no Dragão (então Antas) na mesma temporada mas ele distinguiu-se por ter conseguido manter o Benfica agarrado ao jogo depois do golo inaugural de Adrián López. Podíamos falar do facto de João Félix levar já nove golos no Campeonato mas ele distinguiu-se pela forma destemida como nunca se escondeu do jogo tendo em cima de si dois centrais como Felipe e Pepe. Podíamos falar do facto de João Félix ter mais golos em duelos grandes do que Jonas mas ele distinguiu-se pela forma como, percebendo as dificuldades da inferioridade numérica, se desdobrou a ajudar a equipa sem bola e ainda foi dando indicações a Seferovic e Rafa sobre a melhor forma de se posicionarem em campo na primeira linha defensiva.

O FC Porto não ficou arredado do título, longe disso. Mais uma vez, mostrou que é uma equipa à imagem do seu treinador, com amor ao clube. Um amor que se traduz num “sentimento verdadeiro”, como Sérgio Conceição destacou na antecâmara do clássico quando foi anunciada a sua renovação de contrato. Lutou, teve oportunidades, podia ter empatado, no limite almejaria até uma nova reviravolta. No entanto, este Benfica de Bruno Lage continua a fazer do treino uma arma difícil de travar – e que, ao mesmo tempo, consegue parar os pontos fortes do adversário, como aconteceu esta noite com Herrera e Óliver. Assente num coletivo muito forte, há uma dimensão individual. Que teve Vlachodimos em grande na baliza, que teve uma dupla de centrais sempre mais forte, que teve um Samaris, um Gabriel e um Pizzi ao melhor nível, que teve um Rafa a desequilibrar. Com ou sem bola, o Benfica é uma equipa que ama o futebol e que tem num miúdo de 19 anos o expoente máximo dessa ideia.

Ficha de jogo

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FC Porto-Benfica, 1-2

24.ª jornada da Primeira Liga

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Jorge Sousa (AF Porto)

FC Porto: Casillas; Wilson Manafá, Felipe, Pepe, Alex Telles; Herrera, Óliver Torres (Danilo, 81′); Corona (Otávio, 61′), Brahimi; Adrián López (Soares, 61′) e Marega

Suplentes não utilizados: Vaná, Éder Militão, Hernâni e Fernando Andrade

Treinador: Sérgio Conceição

Benfica: Vlachodimos; André Almeida, Rúben Dias, Ferro, Grimaldo; Samaris, Gabriel; Pizzi (Gedson Fernandes, 71′), Rafa (Corchia, 87′); João Félix (Cervi, 90+1′) e Seferovic

Suplentes não utilizados: Svilar, Florentino Luís, Jota e Jonas

Treinador: Bruno Lage

Golos: Adrián López (19′), João Félix (26′) e Rafa (52′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Rúben Dias (17′), Ferro (54′), Samaros (60′), Gabriel (77′ e 77′), Otávio (77′), Felipe (80′) e Vlachodimos (89′); cartão vermelho por acumulação a Gabriel (77′)

Olhando para os onzes, Sérgio Conceição acertou de facto nas opções iniciais de Bruno Lage mas quis também surpreender. Tudo apontava para que Éder Militão voltasse à equipa mas Wilson Manafá manteve-se como lateral direito. Tudo apontava para que Danilo voltasse a ser titular mas Herrera e Óliver mantiveram-se como donos do meio-campo. E ainda houve uma surpresa total, com a inclusão de Adrián López em vez de Soares – além de Marega, que não era bluff. No entanto, e como Bruno Lage também antecipara, o mais importante para a definição do clássico seria o tipo de dinâmicas que cada conjunto iria apresentar. E desde cedo se percebeu que, a nível de qualidade técnica e tática, este seria um encontro diferente dos últimos.

Com apenas 30 segundos Vlachodimos já tinha ido ao chão travar o primeiro golo dos azuis e brancos, com menos de três minutos já os encarnados tinham mostrado o que poderiam fazer nas saídas rápidas (grande corte de Pepe). O jogo estava bem lançado e melhor ficaria com dois golos ainda antes da primeira meia hora: depois de dois lances em que as duas equipas ficaram a pedir dois penáltis, Adrián López marcou num segundo pontapé após um livre direto que ficara na barreira (19′) e João Félix empatou oito minutos depois, num lance em que a pressão alta fez diferença antes de Seferovic assistir João Félix na área. Dois golos com mais protestos das duas equipas mas que mereceram duas validações do VAR.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do FC Porto-Benfica em vídeo]

A repetição do número dois é exagerada mas propositada. FC Porto e Benfica atacavam de forma diferente (um mais em posse e organização, outro mais rápido e vertical), tinham formas distintas de abordar o primeiro momento defensivo mas andavam numa espécie de jogo de pares que se arrastou até ao intervalo. A única diferença entroncava sobretudo na maior facilidade com que as movimentações dos encarnados conseguiam desbaratar os posicionamentos defensivos dos portistas, como ficou visível em oportunidades de Pizzi e Seferovic que deixaram Casillas à beira de um ataque de nervos com os companheiros.

O encontro recomeçou com as mesmas características do primeiro tempo. Intenso, disputado, bola-cá-bola-lá, com uma invulgar capacidade dos movimentos ofensivos conseguirem desconstruir aquelas que são as duas melhores defesas do Campeonato. Um golo, para qualquer um dos lados, poderia fazer toda a diferença e foi essa questão da eficácia que colocou pela primeira vez a balança para o lado dos encarnados: aproveitando um corte incompleto da defesa azul e branca, Pizzi, o senhor assistências (que até aí tinha criado muito jogo mas também perdido 15 bolas), colocou a bola em carreira de tiro para o disparo rasante de Rafa sem hipóteses para Iker Casillas (52′). O internacional português leva a época mais concretizadora da carreira mas mostrou sobretudo como pode fazer a diferença quando enquadrado da melhor forma dentro de uma ideia coletiva.

Desde 1993 que o Benfica não conseguia virar um resultado frente ao FC Porto fora. E até podia ter estado apenas um minuto em vantagem, no seguimento de mais um movimento interior de Brahimi com remate forte a passar muito perto da trave da baliza de Vlachodimos. Pouco depois, e numa jogada alternativa em termos de posicionamento de Marega, o maliano ganhou espaço no corredor central e atirou rasteiro à figura do guarda-redes grego (62′). Foi nessa altura que Sérgio Conceição apostou tudo para mexer com o jogo: lançou Soares para ter mais presença na área, arriscou Otávio para ganhar criatividade na zona de construção e definição no último passe. Pouco depois, foi a vez de Bruno Lage perceber que a equipa necessitava de outra presença na pressão em zonas interiores e trocou Pizzi por Gedson Fernandes. Os dados para os últimos 25 minutos estavam lançados.

Rafa tinha acabado de fazer mais remate perigoso à baliza de Casillas quando esses mesmos dados ficaram “viciados”. A realidade que o jogo teria mudou por completo quando, no seguimento de um pontapé de baliza, Gabriel travou a saída do FC Porto com um agarrão ostensivo dos calções de Otávio: o portista reagiu mal em dois momentos, o médio encarnado empurrou o adversário e gerou-se uma daquelas “molhadas” em versão faroeste onde uns disparam e outros andam a evitar tiros. Jorge Sousa, pelo que viu em campo e ouviu o VAR, decidiu dar um amarelo a cada pela confusão mais um a Gabriel pela falta. Ou seja, considerou que Otávio não chegou a agredir o opositor – e passou ao lado de uma série de agarrões na camisola e no pescoço de Brahimi a Rúben Dias (77′). Assim como passaria de um lance que valeria o segundo amarelo a Samaris pouco depois (80′). No plano disciplinar, o jogo estava meio perdido; no futebol, os portistas continuavam a perder-se com o passar dos minutos.

O Benfica tinha ficado sem capacidade de sair em transições por ter menos uma unidade e tentou de forma assumida segurar uma vantagem que valia liderança do Campeonato, percebendo também que o FC Porto insistia mais com o coração do que com a cabeça. Felipe, na sequência de uma bola parada, ainda acertou na trave (84′); Otávio, com tudo para encostar de cabeça para o golo, atirou por cima (89′); depois, o mesmo Felipe, numa das raras tentativas de fora da área que tem ao longo de uma época, arrancou um míssil que ia ao ângulo mas que Vlachodimos defendeu com a mão direita para canto (90′). E no seguimento ainda houve mais uma tentativa de Marega, a desviar na área, para nova intervenção do grego. Os encarnados tiveram o seu momento onde brilhou a estrelinha da sorte mas esse acabou por ser sobretudo o momento que protegeu os audazes.

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