Clima

Falta de chuva prejudica agricultura mas é “variação normal”, diz especialista

Especialista garante que o atual inverno seco é "uma variação normal", sem relação com as alterações climáticas. Ministro da Agricultura diz que está preocupado.

KATIA CHRISTODOULOU/EPA

Autor
  • Agência Lusa

A falta de chuva nos últimos meses tem impacto na agricultura, mas o atual inverno seco é “uma variação normal”, sem relação com alterações climáticas, considerou Afonso do Ó, especialista em água e seca.

Três dias depois de o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, se ter manifestado preocupado com o “espetro de seca”, uma preocupação que já tinha manifestado no parlamento, a previsão é que a chuva volte ao continente no domingo, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que em janeiro colocava um terço do país na classe de seca moderada.

A situação, no entanto, é normal e além disso a estação das chuvas ainda não terminou, disse à Lusa Afonso do Ó, consultor científico para a água e seca da organização ambientalista Associação Natureza Portugal (ANP), associada da internacional WWF, especialista em gestão de risco de seca.

Susana Neto, presidente da Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos (APRH), também ouvida pela Lusa, considerou que há uma situação de seca, que atribui, “sem dúvidas”, às alterações climáticas.

Não existe prova estatística de que haja menos precipitação em alguma parte de Portugal de há cem anos para cá. Há um aumento de temperatura, isso é verdade, mas a redução da precipitação não é estatisticamente provada”,  contrapõe Afonso do Ó.

O especialista adianta que há um agravamento de fenómenos extremos mas garante que “não há uma tendência clara de redução de precipitação praticamente em lado nenhum”.

Segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente, em janeiro o armazenamento de água nas bacias hidrográficas era inferior às médias do mesmo mês dos últimos 19 anos. As barragens da região do rio Sado eram as que apresentavam menos água.

Questionado pela Lusa Afonso do Ó disse que as disponibilidades hídricas devem ser vistas no período de um ano, mas admitiu a falta de água irá prejudicar o setor agrícola. “Estes dias maravilhosos (sol e temperaturas amenas) já são demasiado”, reconheceu.

Quanto à bacia do Sado, segundo o especialista, o problema de pouca água reside no facto de terem sido feitas muitas e grandes albufeiras.

Até num ano normal as albufeiras estão quase sempre com um nível muito baixo. Mas é no fundo porque sobredimensionámos a capacidade das albufeiras”, disse, lamentando que no passado se tenham feito tantas barragens, “dinheiro público mal gasto”.

Na quinta-feira, Capoulas Santos admitiu algumas limitações no regadio em 11 barragens do sul do país, mas lembrou que a primavera pode ser chuvosa.

Para discutir a questão da seca os ministros do Agricultura e do Ambiente têm uma reunião técnica marcada para 20 de março, quando será feito um balanço e anunciadas eventuais medidas, disse fonte do Governo à Lusa.

Como Afonso do Ó, ou como Capoulas Santos, Susana Neto também admite que a primavera traga chuva. Mas acrescenta que a imprevisibilidade climatológica é o grande problema para técnicos e cientistas na atualidade.

A responsável lembra que há um grupo de trabalho sobre a seca criado pelo Governo, e defende que deviam ser produzidos relatórios para a população, porque documentos técnicos a população não entende.

A seca e as alterações climática, disse Susana Neto, exigem novas abordagens. É preciso acabar a “abordagem fantasiosa da abundância de água potável”, como é preciso impedir o surgimento do “populismo ambiental”, de se dizer por exemplo que é preciso usar-se pesticidas para se conseguir alimentar o mundo numa era de alterações climáticas.

E porque o mundo vive “uma fase perigosa” e a água potável é um bem cada vez mais escasso Susana Neto diz que todas as ações de poupança contam. Cada descarga de sanita são 30 litros de água que desaparecem, o que muita gente não tem para viver por dia.

O IPMA prevê chuva para o continente na próxima semana. Mas apenas até quinta-feira. Para o resto do mês a precipitação prevista é abaixo do normal.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Astrofísica

Buracos negros e a ciência de dados

Manuel Loureiro

Os métodos e os algoritmos da ciência de dados aplicados neste empreendimento fantástico são os mesmos que usamos quando pretendemos segmentar mercados, prever saldos bancários ou planear a produção.

Paris

A morte das catedrais

António Pedro Barreiro

A separação forçada entre a beleza e a Fé é lesiva para ambas as partes. O incêndio em Notre-Dame recorda-nos isso. Recorda-nos que as catedrais não são montes de pedras.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)