Rádio Observador

Crítica de Música

Helado Negro fez o melhor disco para sorrir, até para quem não quer

Estão a ver aqueles pequenos momentos que, vai-se a ver, de pequenos não têm nada? Ora bem, o novo disco de Helado Negro, um americano sonhador tão acústico como eletrónico, é a banda sonora perfeita.

Olhem para ele. A sério, olhem bem. É Roberto Carlos Lange, Helado Negro, um homem cheio de sabedoria

Autor
  • Ricardo Lima Esteves

Está tudo muito complicado. No geral, entenda-se: está tudo muito complicado. Mas de ve em quando lá aparece alguém ou alguma coisa a explicar que é com calma que se chega lá. Temos discussões mais ou menos acesas sobre reformas do governo ou grandes penalidades nas redes sociais, ou então surge uma app de meditação ou um documentário sobre como arrumar a casa nos vai tornar mais felizes, produtivos e melhores amantes. Quando muita da vida moderna parece feita para irritar, venha de lá uma prova de que a coisa pode ser vivida mais devagar.

Roberto Carlos Lange, que nos canta com o nome de Helado Negro, nem sempre foi o tipo mais óbvio para falar sobre abrandar. Embora as influências da pop latina, da tropicália ou do funk possam indicar isso mesmo, os registos anteriores de Lange eram, de uma forma ou outra, feitos de uma certa urgência nos seus propósitos. Mas chega This Is How You Smile, o sexto disco do autor natural da Flórida e filho de emigrantes equatorianos, e o jogo parece mudar um bocado. E logo na primeira de muitas audições de um disco que, no fundo, serve para várias ocasiões, esta mistura da eletrónica com ritmos acústicos que encontram sempre o espectro latino está plena em harmonia.

“This is How you Smile”, de Helado Negro

Em 2015, Young, Latin and Proud era uma reflexão sobre o crescimento e as dificuldades que isso acarreta. Parte de um disco, Private Energy, que estava cheio delas. Funcionava com uma espécie de luta pela aceitação, seja qual for o caminho percorrido até então. Agora, essa luta parece ter dado lugar a uma pacífica aceitação e grande parte deste This Is How You Smile é uma apreciação do pequeno gesto. Uma pausa para o (desculpem) gelado, se quisermos. “Imagining What To Do”, o segundo tema do registo, funciona logo como exemplo de ótimas acústicas feitas por quem sabe que o inverno é coisa passageira e mais fácil quando é vivido em conjunto, com versos como ‘We’ll stay under the covers / until there is no snow’.

Mas os momentos de maior brilhantismo chegam logo de seguida, no tríptico composto por “Fantasma Vaga”, “Pais Nublado” e “Running”. Especialmente esta última, em que a variedade de sons espalhados por todo o álbum culmina num crooning mais robusto sobre a intimidade.

[“Pais Nublado”:]

É, no entanto, desta variedade de influências e sons que vem o maior obstáculo a este This Is How We Smile. É um registo com momentos de sonho, cheios de honestidade e espírito. É também feito de muitos contextos que já ouvimos antes. A viragem para paisagens sonoras mais exóticas tem mantido muita pop de raízes independentes um bocado ligada à maquina da relevância. Helado Negro está muito longe de ser seu o maior prevaricador, mas acaba por ser mais uma das suas vítimas do excesso de autores que frequentam obsessivamente as secções de world music das lojas de discos de Brooklyn ou Berlim. E, apesar de dois grandes momentos aos quais já iremos, na segunda metade este sonho perde um bocado de força e acaba algo embrulhado nos seus próprios artifícios.

Mas, caramba, esses tais dois momentos são mesmo bonitos. A palavra “sonho” já apareceu aqui, mas não está tão presente em nenhuma outra faixa deste disco como em “Todo lo que me falta”, essa espécie de andar às voltas num sítio bonito à procura da única pessoa com quem o queremos partilhar. E depois “Two Lucky”, que no fundo é sobre ter 39 anos, como os tem Roberto Carlos Lange, e estar dividido entre a nostalgia e o amor por quem já lhe passou pelo caminho, e como o tempo e a distância acabam por mudar estas relações.

[“Running”:]

This Is How We Smile é um disco que dá para alimentar a intimidade solitária, dá para partilhar com alguém que é mais-que-tudo, e também dá como pano de fundo num jantar de amigos ou numa viagem de comboio ou seja lá o que for. Olhem, é assim que sorrimos, nunca se esqueçam.

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