O rio Leça, nascido em Santo Tirso e desaguado em Matosinhos, tem uma extensão de 45 quilómetros e foi considerado um dos rios mais poluídos da Europa durante várias décadas. Agora parece existir agora uma solução concreta à vista. Trata-se de um corredor verde e de circulação nas margens do rio, que contará com várias intervenções no que diz respeito às acessibilidades, biodiversidade e espaços de lazer. Este é um projeto que envolve os municípios de Matosinhos, Maia, Santo Tirso e Valongo, numa obra de 19,7 milhões, dos quais 85% são fundos comunitários e 900 mil euros são reservados à aquisição de terrenos adjacentes ao rio.

Durante três fases, a intervenção será feita ao longo de 18 quilómetros de extensão, relativos ao percurso do Leça no concelho de Matosinhos. A primeira etapa, cujo concurso público internacional foi aberto oficialmente esta manhã, corresponde ao troço entre Ponte de Moreira e Ponte da Pedra, incluindo a ligação de Picoutos, num percurso de 6,9 quilómetros, que deverá estar concluído em fevereiro de 2021.

Uma das quatro pontes para bicicletas e peões projetadas

Segundo o vereador do ambiente da Câmara Municipal de Matosinhos, António Correia Pinto, o início da obra está marcado para setembro, sendo que, durante o período de realização da primeira fase, é suposto “que as outras fases venham a ser lançadas a concurso”. “Gostava que até ao final do próximo mandato autárquico tudo estivesse pronto”, afirmou em declarações aos jornalistas, acrescendo que “ninguém acredita na realização deste projeto, por isso o primeiro passo é muito importante, a seguir tudo vai ser mais fácil”. Correia Pinto diz que durante décadas a população esteve “de costas voltadas” para o Leça. “De tal forma que se tornou num curso de água que nos envergonha a todos”. O vereador garante que esta era uma ideia pensada há muito e que, embora tenham existido várias etapas para combater o problema da poluição, “ainda há muito para fazer”. “Hoje já há peixe, mas ainda há muito para fazer. Vamos criar condições para termos um rio acessível a todos”.

820 novas árvores, mais biodiversidade e melhor mobilidade

Para a arquiteta paisagística Laura Roldão, o rio Leça “é um elemento estratégico” pela sua extensão, posição e articulação entre o interior e o litoral. Recuperar as margens, a qualidade da água, as zonas adjacentes e a relação com a população foram algumas das premissas de um “projeto complexo”, que pretende preservar a paisagem produtiva, o património histórico e arqueológico, as áreas industriais e urbanas.

Ao longo da realização da obra, a intenção é melhorar a acessibilidade, para peões e bicicletas, desenvolver ligações com os transportes públicos, como estações de metro e linhas de autocarros, construir sete quilómetros de ciclovia e percursos pedonais, sendo possível passar de uma margem para outra. Além das cinco pontes que já existem, serão projetadas quatro novas pontes em estruturas metálicas, dedicadas exclusivamente para peões e bicicletas.

Ciclovia e pista para peões prevista

Segundo Laura Roldão, serão plantadas 820 novas árvores nesta primeira fase, oferecendo zonas de estar para piqueniques e áreas com sobra, promovendo no final das três fases da obra, “um total de 30 hectares” de espaço verde. A arquiteta diz ainda que o corredor verde será iluminado e o objetivo é que seja usado durante todo o ano, “faça chuva ou faça sol”. Embora esta seja uma zona de risco no que diz respeito a cheias e inundações, os pavimentos permitem a descida e subida das águas e “terão todas as condições de segurança”, uma vez que serão construídos em betão permeável. Segundo a arquiteta estão ainda previstas “ações de requalificação da linha da água e controlo de descargas que não estejam devidamente licenciadas”.

Pedro Teiga, doutorado em engenharia e ambiente, afirma que o projeto de preservação e requalificação do rio Leça assenta na “estabilização de pontos de erosão, cortes de limpeza, contenção de espécies exóticas e invasoras e plantação de árvores autóctones”. O especialista mostra que o rio tem neste momento “pontos de degradação, árvores caídas e camadas de plástico”, sendo que a solução passa por envolver a população na “recuperação de um corredor ecológico que respeite as espécies”. “Tudo para que possamos voltar a colocar os pés no Rio Leça.”