São os dois jogadores com mais Grand Slams de sempre no ténis. São os dois jogadores da atualidade com mais seguidores. São os dois jogadores com a maior rivalidade em court – mesmo não sendo aqueles que fizeram mais jogos entre ambos. Uma vista de olhos pelo court central de Roland Garros, um agradecimento à chuva por ter dado tréguas e permitir que de quando em vez o sol pudesse ir ver alguns pontos, um lamento pelo vento que condicionou o encontro sobretudo na sua hora inicial, um esgar de surpresa por haver cadeiras vazias nas bancadas e nas zonas corporate que milhares e milhares de fãs gostariam de ocupar. Esta sexta-feira, dois ícones que até na forma como se respeitam para chegar à vitória conseguem ser exemplos cruzavam-se de novo em Paris. E não faltaram elogios de Rafael Nadal e Roger Federer na antecâmara do jogo mais esperado.

“Todos sabem que, quando se chega às rondas finais de qualquer torneio em terra batida, podemos cruzar com ele. Se não quisesse jogar com o Rafa, nunca tinha regressado a este circuito. Antes odiava jogar com canhotos mas agora gosto, em especial quando tenho Nadal pela frente porque é o melhor canhoto que conheci. Hipóteses de ganhar? Há sempre essa opção, de outra forma o recinto estaria vazio e ninguém iria ver ténis porque já se conhecia o vencedor. Todos podem passar. Pode haver tudo: lesões, outro tipo de problemas, chuva, vento, uma paragem de dez dias por causa do tempo…”, comentou o suíço, citado pela Marca, perante a clara desvantagem com o espanhol no Grande Slam francês (0-5) e nos jogos em terra batida (2-13).

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“Não sei como estaremos, um e outro. De momento só sei que os quatro melhores do torneio estão nas meias-finais e que tenho à espera um jogo de grande dificuldade. As coisas têm saído bem e por cá continuo. Agora será mais um episódio entre nós e estou feliz por isso. Vai ser especial porque isto não é para sempre e darei o máximo para poder ter o máximo de oportunidades possível de jogar estas partidas. Quero continuar a desfrutar destas vivências, é para isso que trabalho. Todos os nossos encontros são especiais mas este, nesta fase das nossas carreiras, é um pouco mais”, referiu o espanhol, citado pelo El País.

Rafa Nadal e Roger Federer encontraram-se pela primeira vez em Roland Garros há 14 anos. Com 19 e 23 anos, respetivamente. O suíço já tinha ganho pouco antes Wimbledon e o Open da Austrália, o espanhol procurava o seu primeiro Grand Slam (que viria a surgir nessa mesma edição). O esquerdino foi melhor e venceu nas meias-finais em quatro sets, com os parciais de 6-3, 4-6, 6-4 e 6-3. Daí para a frente, mais quatro jogos entre ambos em Paris sempre com o mesmo a ganhar apesar das histórias diferentes das partidas, com maior (final de 2011) ou menor equilíbrio (final de 2008). A terra batida passou a ser o reino de Rafa Nadal e Roland Garros tornou-se o seu habitat natural. De tal forma que, em 15 encontros nessa superfície, Federer ganhou apenas dois, o último dos quais em Madrid, há dez anos. O desafio era grande. A recompensa seria ainda maior.

De forma resumida, o Telegraph colocava duas grandes prioridades para Federer conseguir finalmente quebrar o domínio de Nadal na terra batida. Por um lado, ter “flexibilidade” nos pontos – que cumpriu, em muitas fases do jogo, alternando entre as subidas à rede (só com Wawrinka nos quartos o suíço tinha feito essa aposta 60 vezes), os serviços mais para fora ou com efeito e o fundo do court. Por outro, ser cirúrgico nos pontos de break – e foi aqui que o espanhol alcançou a chave do triunfo. Aqui e na forma como conseguiu ser mais forte nos momentos críticos do encontro, como quando conseguiu cinco pontos consecutivos para virar de 0-40 para vitória o quinto jogo de serviço de Federer no segundo set, que o colocou na frente por 5-4. No final, 6-3, 6-4 e 6-2 foram os números do triunfo que colocaram Nadal na 12.ª final em Roland Garros.

Como Toni Nadal, tio e antigo treinador do espanhol, destacava antes do jogo ao ABC, “Federer é provavelmente o melhor jogador da história mas, em terra batida, Rafa é quase sempre superior”. E, no final de mais um duelo de titãs nas meias-finais, percebe-se ainda melhor as palavras de Rod Laver à Marca quando foi instado a comentar se seria mais difícil Nadal ganhar 12 vezes Roland Garros ou Djokovic fazer o seu segundo Grand Slam com vitórias seguidas em todos os Majors: “As duas coisas têm um grau de dificuldade elevado mas aquilo que Rafa fez ninguém conseguia imaginar. Quando Bjorn Borg ganhou seis quase consecutivos, pensávamos que seria um recorde que se manteria muito tempo e com não haveria mais ninguém como ele. Então chegou Rafa e as suas 11 vitórias”. A 12.ª, essa, poderá surgir já no próximo domingo, contra Djokovic ou Thiem.