O histórico recente com Espanha e Argentina era tudo menos famoso. Assim como as fases finais disputadas em solo espanhol, onde tinha alcançado apenas uma vitória no longínquo ano de 1960. No entanto, e depois do encontro nos quartos onde Portugal andou sempre atrás no resultado até ganhar nas grandes penalidades, havia qualquer coisa a pairar de diferente e que teve a sua dose final no jogo decisivo frente aos argentinos. Foi quase contra tudo e contra todos. Mas foi.

A partida diante dos sul-americanos foi um exemplo paradigmático disso mesmo. Com Jorge Silva castigado após ter acumulado três cartões azuis, Renato Garrido perdeu uma opção ofensiva que tinha estado em destaque ao longo do Mundial. A juntar a isso, João Rodrigues acusou algumas dificuldades físicas após um choque na primeira parte e não teve propriamente a influência de outros jogos, assim como outras figuras como Gonçalo Alves – sendo que a própria velocidade de jogo argentina ajudou a mostrar o esforço físico nacional. Todavia, Portugal soube ser uma equipa, fez das fraquezas forças e contou com um Girão que defendeu cinco bolas paradas entre tempo regulamentar e prolongamento.

Aos 29 anos, o guarda-redes do Sporting foi de novo o melhor da Seleção e prolongou uma espécie de toque de Midas desde que chegou aos seniores: depois de ter conseguido quebrar um longo reinado do FC Porto com um título do Benfica pelo meio ao serviço do Valongo (curiosamente numa equipa onde estavam também Telmo Pinto, Magalhães e Rafa), Girão chegou viu e venceu em Alvalade, conseguindo uma Taça CERS e uma Supertaça antes dos dois grandes títulos no clube, o Campeonato (2017/18) e a Liga Europeia (2018/19). Pela Seleção, entre Europeus e Taça das Nações, faltava-lhe um Mundial. Até hoje.

“Somos uma verdadeira equipa, as pessoas não nos conhecem. Apesar de jogarmos uns contra os outros durante o ano, somos amigos e isso nota-se cá dentro. Fizemos do cansaço a nossa força. Eles correram imenso, meteram-se à frente de todas as bolas e as que sobraram tentei parar. Fomos melhores, merecíamos ter ganho em jogo corrido mas conseguimos vencer e isso foi o mais importante”, comentou o guarda-redes em declarações à RTP, recordando os duelos entre uma equipa formada maioritariamente por jogadores que militaram esta temporada no FC Porto (Nélson Filipe, Telmo Pinto, Gonçalo Alves, Hélder Nunes e Rafa), Sporting (Girão e Magalhães), Benfica (Vieirinha) e Oliveirense (Jorge Silva), a que se juntou o único “estrangeiro” João Rodrigues, jogador do Barcelona e capitão que alinhou com uma braçadeira com a imagem de Livramento.

“Podem começar a fazer uma estátua para o Girão”, atirou João Rodrigues na RTP, que durante muitos anos esteve no Benfica, antes de dedicar o título à família. “Estão aqui os melhores jogadores do mundo. O jogo fica 0-0 e pode ser contraditório mas foi um espetáculo. Espero que Portugal esteja orgulhoso de nós. Mostrámos o nosso valor cá dentro, unidos. Isto é mais do que uma família. Já tínhamos feito história, agora estamos na história. Estava tudo alinhado”, acrescentou Hélder Nunes, futuro reforço do Barcelona, prosseguindo: “Portugal são estas pessoas, esta vitória não é só nossa. São as nossas famílias e os nossos amigos, que compraram voo no sábado e estão cá hoje, se calhar pagaram 500 euros para estarem aqui”.

De acrescentar que o conjunto agora orientado por Renato Garrido, que conquistou o seu 16.º título mundial, tinha perdido nas grandes penalidades também a última final frente à Espanha e não vencia a prova desde 2003, quando ganhou o Mundial em Oliveira de Azeméis. Tudo numa época onde três conjuntos portugueses conseguiram chegar à Final Four da Liga Europeia, que teve um jogo decisivo 100% português entre Sporting e FC Porto. E há outra curiosidade: metade da equipa da Argentina e metade da equipa de Espanha joga na Liga portuguesa, sinal também do patamar em que encontram as provas nacionais.

“Sabemos que o futebol é um mundo à parte, mas queremos ser uma modalidade apoiada. Representamos o País para elevar sempre o nome de Portugal. Esta vitória é do hóquei mas já recebi mensagens de amigos de várias modalidades porque também vibram connosco. Há dois pavilhões míticos no hóquei: o Palau e San Juan, na Argentina. É uma vitória do grupo, foram sempre atletas inexcedíveis em todos os aspetos. E têm uma parte humana que só com isso foi possível conseguirmos este título”, resumiu o selecionador Renato Garrido, antes de inúmeras mensagens de felicitações que foram chegando em termos públicos não só de jogadores e equipas mas também de outras figuras como o primeiro-ministro, António Costa.