A melhor forma de começar esta história é pelo hexágono. Ou melhor, pela teia de hexágonos que forma um dos tapetes mais inesquecíveis para uma cinéfilo minimamente atento. Falamos do corredor do hotel de “The Shining”, o filme de 1980 de Stanley Kubrick e apenas um dos muitos pavimentos para o suspense. Mas, e se de repente a paixão pelo cinema e pelo mobiliário e design permitisse resgatar peças como esta e reproduzir algumas das cenas e décors mais icónicos da sétima arte em nossa casa?

Nada de novo para Paula Benson, a britânica que vive e trabalha rodeada de alguns destes marcos. Se a visitar, é possível que se cruze com a cadeira Djinn de Olivier Mourgue, a mesma que recordamos de “2001: Uma Odisseia no Espaço”, cujos talheres também se encontram por aqui; ou com o gira-discos de “Control”, o biopic dos Joys Divison; ou ainda com os copos usados na série “Mad Men”.

Das primeiras perguntas dos clientes à longa maratona de investigação que cada pedido desencadeia, Benson, a “detetive do mobiliário”, guia-nos por um curioso processo que promete contagiar os fãs dos clássicos e de um design sem prazo de validade. O melhor é entrar em Film and Furniture, uma catálogo que é em simultâneo uma aula de história e uma porta aberta para o futuro.

Form, Paul & Paula, a empresa dedicada ao design, sedeada em Londres, e um dos quartéis-generais de Paula Benson © Claire Nathan

Trabalhava em design de interiores quando começou à procura do famoso tapete do filme de Kubrick. Como é que se lançou no projeto Film and Furniture?
Sou co-responsável pela agência de design londrina Form mas sempre adorei design de interiores e sempre fui uma amante do cinema. Foi aquele padrão hexagonal do tapete do “The Shining” que mexeu mesmo comigo. Tornou-se uma peça icónica e vi-o ser parodiado e mencionado em filmes como “Toy Story” ou “Passengers”. Foi isso que me fez tentar descobrir se o tapete tinha sido desenhado especificamente para o Kubrick, quem o tinha desenhado, e porque é que o realizador o escolhera para estar ali.

O hexágono de Hicks

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David Hicks (1929-1998) é o nome do designer responsável pelo famoso padrão, uma referência no design de interiores, que deixou a sua marca entre a aristocracia, celebridades como Vidal Sassoon ou Helena Rubinstein, e ainda no castelo de Windsor ou no primeiro apartamento do príncipe de Gales no Palácio de Buckingham. Os arquivistas de Kubrick não conseguiram encontrar nenhuma ordem de encomenda. Na verdade, conta Paula, a produção é anterior ao filme, remontando aos anos 60. Segundo o filho de Hicks, Kubrick terá recorrido a uma cópia do gráfico padrão.

Dei por mim mergulhada em investigação, a tentar ligar uma série de pontas, e rapidamente percebi que há imensas pessoas interessadas nos mesmos detalhes sobre o décor e mobiliário dos filmes. Pouco depois nascia a Film and Furniture.

Com um subtítulo ajustado, que aponta também para esse trabalho de investigação permanente.
Chamamos-lhe “Mobiliário, iluminação e artigos para a casa com uma história para contar”, uma vez que identificamos e partilhamos uma série de factos fascinantes sobre as peças que aparecem nos filmes preferidos das pessoas, do “Batman” ao “Blade Runner”, de Wes [Anderson] ao [designer Hans J.] Wegner . Também temos entrevistas longas com alguns dos mais influentes produtores e decoradores deste universo. Digamos que no nosso mundo, a estrela da companhia são os móveis e acessórios.

Se um modesto tapete souber a pouco, inspire-se no refúgio no Alasca que Paula acabou de encher com este padrão hexagonal © DR

Como é que funciona na prática esta “caça ao tesouro”?  
Acho que neste caso desenvolvi uma espécie de saber enciclopédico. Basta-me ver as peças num filme para saber de onde vêm. Frequentamos várias feiras e eventos de design, lojas de antiguidades, para podermos ter uma boa base de trabalho. Isto também envolve uma enorme quantidade de pesquisa online. Se não conseguimos identificar uma peça, tentamos entrar em contacto com a produção ou com o responsável pelo décor para tentar obter uma resposta. Não usamos nada super tecnológico ou algo do género, resulta tudo dos nossos olhos e da nossa paixão.

O que é que os clientes mais procuram? 
Atraímos um público bastante vasto em termos de gosto e idade. Em regra geral, a procura é comandada pelo facto de alguém reparar numa peça num certo filme, ir ao Google tentar saber mais sobre ela, e acabar por chegar até nós, acabando por tirar alguma dúvida. Por exemplo, se publicarmos no site algum artigo sobre o “Blade Runner 2049” ou o “Alien Covenant” mal acabem de se estrear nos cinemas, é natural que atraiam mais atenção. Ou, por exemplo, há muita procura pela casa modernista do Bruce Wayne em Batman vs Superman (e compreensivelmente, porque está cheia de detalhes de design e iluminação), mas claro que se de repente fazemos um artigo sobre outro tema…

Um brinde a Blade Runner

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São os mesmos copos usados por Deckard (Harrison Ford), seja na versão de 1982 ou em “Blade Runner 2049”, no edifício Wallace, quando o trazem para conhecer Niander Wallace. Mesmo que não seja fã de wiskey, não despreze esta ideia para oferta, numa caixa especial para fãs da saga. Criados pela designer italiana Cini Boeri, rondam os 78 euros. Se preferir a variante “Mad Men”, para um toque de charme com selo de Don Draper, também se arranja por aqui.

O interesse acaba por ser redirigido?
Sim, basta-nos escrever sobre um sucesso da Netflix, como o “To All the Boys I’ve Loved Before”. De certeza que vamos receber imensas mensagens sobre o papel de parede no quarto da Lara Jean depois de lerem o artigo. Não conseguimos responder a todos os pedidos, infelizmente, porque não temos todos os recursos, mas é muito difícil eliminar uma pergunta quando ela entra na nossa cabeça! Cada pedido de um cliente leva-nos a uma viagem interessantíssima. É como ser um detetive da mobília.

Copos de wiskey usados em Blade Runner

Cuidado para não partir! Copos de whiskey iguais a estes foram usados em “Blade Runner” © DR

Entretanto o vosso vínculo com a rede de fabricantes e fornecedores também se fortaleceu.
Recebemos muitas visitas de pessoas interessadas no tapete hexagonal do “The Shining”. Depois de muita pesquisa e muitos artigos publicados no site, passámos a trabalhar diretamente com a empresa que detém a licença original e que nos permite a sua utilização para fins comerciais — sejam tapetes, papel de parede ou outros motivos com este padrão.

O futuro segundo Kubrick

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Receoso de que caíssem nas mãos de criadores de segunda, Stanley Kubrick destruiu por completo os sets de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. O título de 1968 apontava caminho para um futuro feito de peças muito especiais, como as modernistas cadeiras encarnadas espalhadas pela estação espacial. A célebre Djing, criada por Olivier Mourgue em 1965, enquanto trabalhava para o fabricante francês Airborne International, já não é fabricada, razão para que exemplares como estes se tenham convertido em preciosos objetos de coleção que ascendem aos 3.170 euros. As que se encontram à venda foram concebidas com material da Airborne e espuma à prova de fogo.

Acabámos de atapetar um refúgio de esqui inteiro no Alasca! E estamos a trabalhar com um ator famoso que quer fazer o mesmo numa divisão inteira da sua casa. Depois temos a exposição do Kubrick, que está a decorrer no Museu do Design, em Londres, e que também tem motivado o aumento da procura da cadeira retro-futurista ou do faqueiro, duas coisas que vendemos.

Qual é a parte mais difícil no vosso trabalho?
Sinceramente? É mesmo o facto de não termos tempo suficiente para fazer investigação e escrever sobre todos os assuntos que queremos. Temos sempre tantas ideias e uma longa lista a desenvolver.

Um momento de repouso retro-futurista saído de uma das obras-primas de Stanley Kubrick para um regresso a 1968 e a uma estação espacial © Paul West

Há alguma peça em particular que adorassem ter para venda e não consigam arranjar? Ou têm algo no horizonte que não lhe dará descanso até que o encontre?
Peço desculpa por estar a falar no “The Shining” outra vez mas neste momento ando atrás do papel de parede daquela cena das gémeas no corredor — é um design floral azul.

Sabemos que deve andar algures por aí porque ele foi usado na recreação de uma cena para uma sessão de fotos com a Kiernan Shikpa, que entrou em “Mad Men”, portanto vamos tentar chegar à equipa de produção. Por falar em “Mad Men”, também dizemos onde comprar aqueles copos de whiskey que o Don Draper usa.

Minimalismo à mesa

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Futuristas, elegantes e ideais para uma refeição servida à tripulação da Missão Júpiter. Estamos de volta a “2001: Uma Odisseia no Espaço”, sendo que este faqueiro desenhado pelo dinamarquês Arne Jacobsen já levava uma década de avanço ao filme. Perfeitamente contemporâneo, o set de 16 peças está disponível por 210 euros.

Para terminar, que peças vamos encontrar de certeza em sua casa?
Eu e o meu companheiro Paul West temos um gosto eclético, e a nossa casa é uma mistura de referências no que toca ao design de interiores — do mais contemporâneo ao retro — e claro que também temos uma série de peças óbvias do nosso acervo, como a cadeira Djing, o tapete com hexágonos, os copos de whiskey de Blade Runner, incluindo uma edição limitada de Johnnie Walker. Também encontra uma tigela semi transparente que aparece no “Batman vs Superman” e o candeeiro de mesa que influenciou a Pixar e se tornou a sua imagem de marca (e que também aparece no filme “Toy Story”)

Facas, garfos e colheres a postos para uma refeição inspirada em “2001: Uma Odisseia no Espaço” © DR

E chegar a peças como estas, será um grande filme? Nem por isso. Algumas são vendidas diretamente a partir do site Film and Furniture, noutros casos a empresa orienta os clientes a encontrarem-nas em retalhistas espalhados pela Europa ou EUA.