O Governo decidiu suspender o questionário enviado pela Direção-Geral da Administração e Emprego Público (DGAEP) a mais de 500 mil trabalhadores da administração central do Estado e que questionava se estão satisfeitos com as políticas do atual Governo e se foram afetados pela atuação da troika em Portugal, que coincide com a governação de Passos Coelho. No comunicado enviado pelo Ministério das Finanças, o Governo justifica a suspensão com a “visibilidade do assunto em período pré-eleitoral” e informa que o inquérito será retomado depois das eleições legislativas.

A decisão surge depois de o Observador ter avançado esta quarta-feira a notícia que dava conta de que o questionário feito aos funcionários públicos tinha perguntas novas em relação ao de 2015 e que estavam a indignar alguns funcionários. Isto porque são “convidados” a responder se o período da troika (que coincide com a governação de Passos Coelho) os desmotivou ou se políticas marcantes da “geringonça” — como a “reposição dos salários” ou “descongelamento progressivo das carreiras” — os deixaram mais motivados.

O Governo tomou conhecimento esta semana do lançamento da segunda edição de um inquérito sobre questões motivacionais promovido pela DGAEP – Direção-Geral da Administração e do Emprego Público. Este inquérito é dirigido a todos os trabalhadores em funções públicas e aborda um conjunto de questões relacionadas com a motivação no trabalho, nomeadamente decorrentes da ação governativa”, começa por dizer o Ministério das Finanças no comunicado.

A suspensão do inquérito, refere o Governo, tem em conta “a elevada visibilidade do assunto em período pré-eleitoral” que “pode comprometer a fiabilidade dos resultados, inviabilizando todo o inquérito e a comparabilidade com os resultados obtidos em 2015″. Por isso, acrescenta a nota enviada, “o Governo determinou a suspensão temporária do inquérito e que o preenchimento dos questionários e as fases subsequentes sejam retomados após as eleições legislativas”, marcadas para o dia 6 de outubro.

O questionário em causa chegou por email aos trabalhadores e teria de ser respondido até 30 de setembro. As perguntas mais criticadas surgem na secção dedicada a “Fatores de motivação/satisfação no trabalho na Administração Pública”. E eram as seguintes:

  • “O período da Troika influenciou negativamente a minha motivação no trabalho”;
  • “A reposição dos salários afetou positivamente a minha motivação no trabalho”;
  • “O descongelamento progressivo das carreiras é motivador”;
  • “Sinto-me hoje mais motivado no trabalho do que há 5 anos?”.

Quando questionada pelo Observador sobre este inquérito, a Direção-Geral da Administração e do Emprego Público referiu que o questionário constituía “um follow up do questionário realizado em 2015 sobre a motivação dos trabalhadores em funções públicas” e que a decisão sobre o teor das perguntas foi uma resposta à “taxa de resposta e sugestões recolhidas dos resultados do inquérito de 2015, em que se identificaram precisamente algumas das questões colocadas nesta versão de 2019”. A DGAEP acrescentou ainda que “foi preparado um novo questionário pela equipa de investigadores (e docentes universitários) que concebeu e analisou o instrumento anterior, sendo suportado na literatura científica especializada”.

A presidente da UGT e da mesa do Congresso dos TSD (Trabalhadores Sociais Democratas), Lucinda Dâmaso, considera que em “período de campanha eleitoral não se fazem estas perguntas em questionários aos funcionários públicos” e que “obviamente eram de evitar”. Lucinda Dâmaso não se surpreende, já que “em ano eleitoral acaba por valer tudo”. E acrescenta: “Não tenho memória de um questionário deste tipo alguma vez ter sido feito, que assim acaba por ser uma espécie de uma sondagem”.

Já esta quarta-feira, e depois de a notícia sair, a DGAEP referiu que o questionário foi construído com referência a modelos usados por outras administrações públicas. “A construção do questionário é da responsabilidade da equipa de investigadores e teve como referência modelos de questionários de outras administrações públicas, uma vez que são comuns nos países da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico]”, afirmou fonte oficial da DGAEP à agência Lusa.

(Artigo atualizado às 13h21 desta quinta-feira)