Rádio Observador

Sustentabilidade

Alimentos estragados transformam-se em composto agrícola e energia elétrica na Amadora

829

Sem condições para venda, frutas, legumes, pão e bolos estragados passaram a ser reciclados, transformando-se em composto agrícola e em energia elétrica.

Christian Charisius/EPA

Autor
  • Agência Lusa

Sem condições para venda, frutas, legumes, pão e bolos estragados continuam a produzir valor, no município da Amadora, porque deixaram de ser depositados no lixo indiferenciado e passaram a ser reciclados, transformando-se em composto agrícola e em energia elétrica.

Intitulado “+ Valor”, o programa municipal foi implementado em abril de 2005, permitindo a recolha seletiva de resíduos urbanos biodegradáveis, com a adesão de 190 produtores, desde cantinas, supermercados e restaurantes, disse o vereador da Higiene Urbana da Câmara Municipal da Amadora, Luís Lopes, revelando que, desde o início até hoje, foram recolhidas “à volta de 25 mil toneladas” de matéria orgânica.

Às portas de Lisboa, numa zona residencial, repleta de prédios e pequeno comércio nos rés-do-chão, no concelho da Amadora, a pastelaria Aquarius foi um dos estabelecimentos que aceitou o desafio da autarquia para a reciclagem de resíduos biodegradáveis, contribuindo com “as sobras, o que não se vende, seja pão, seja bolos”.

“Se fosse numa zona rural, teríamos animais. Aqui não, só desta forma é que pode ter algum proveito. De outra forma, não teria, ia tudo para o caixote do lixo”, afirmou um dos sócios da pastelaria José António Aguiar, em declarações à agência Lusa, considerando que o programa é “uma boa iniciativa” e podia ser alargado a todos os cidadãos.

Enquanto prepara o caixote com “as sobras”, aguardando a passagem do camião de recolha, o comerciante destacou o “aproveitamento” destes resíduos para fazerem adubos, manifestando-se “surpreendido e contente” sobre a possibilidade de, também, produzirem energia elétrica.

A cerca de um quilómetro, ainda no município da Amadora, a Frutaria Fernando Santos separa “todos os produtos que não estão em condições” para venda ao público, colocando-os nos caixotes do programa “+ Valor”, permitindo que “sejam encaminhados, ao contrário do que antigamente era feito, em que ia tudo para o lixo comum”.

“Como a fruta é um produto sensível e os legumes também, temos algum desperdício. Esse desperdício, neste caso, tem um reaproveitamento, o que é muito positivo”, apontou o gerente da frutaria Miguel Brito, referindo que, por dia, são cheios dois a três contentores.

Entre a grande variedade de frutas e legumes deste estabelecimento, onde sobressaem as cores vivas e o cheiro de produtos frescos, Miguel Brito fala do processo de transformação dos que são retirados das bancas como “uma mais-valia”, com benefícios para o meio ambiente.

A coordenar a equipa de recolha, com “um camião que já está preparado para isso”, nomeadamente com capacidade de impedir que o líquido que resulta de determinados resíduos verta pelo caminho, Gracilino Furtado assegura que o serviço é realizado “todos os dias” à porta dos produtores que aderiram ao “+ Valor”.

“Temos que retirar tudo o que é resíduo orgânico, desde alimentos já pré-cozinhados, frutas, legumes, verduras, tudo o que seja degradável”, indicou o trabalhador, recorrendo ao sentido do tato, mesmo com luvas, para caracterizar o que vai dentro dos sacos pretos autorizados na recolha, “se tem resíduo orgânico ou não”, e “retirar certas contaminações”.

Classificando como “extraordinário” o trabalho de “desviar” os biodegradáveis dos resíduos urbanos normais, o vereador da Higiene Urbana reforçou que, “efetivamente, os orgânicos, as embalagens e tudo o que é material que possa ser selecionado e separado, em termos de resíduos urbanos, são dinheiro”.

Em parceria com a empresa Valorsul, os resíduos urbanos biodegradáveis são recolhidos e vão para a Estação de Tratamento e Valorização Orgânica (ETVO), onde se produz energia elétrica, através do biogás, e se transforma a matéria orgânica em composto agrícola, indicou o autarca Luís Lopes, explicando que, assim, “não é resíduo que é deitado para incineração e é deitado fora, que depois não tem qualquer tipo de retorno”.

Depois deste passo, que ainda tem margem para abranger mais produtores, o futuro passa por permitir que qualquer cidadão possa fazer a separação dos resíduos biodegradáveis, avançou o vereador da Câmara Municipal da Amadora, lembrando a diretiva da União Europeia que obriga, até 2023, que 20% da população de cada concelho participe nesse objetivo de recolha seletiva de resíduos urbanos biodegradáveis.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Alterações Climáticas

A lei do EROI /premium

Marco Robalo

Ouvimos muito falar na esperança em tecnologias, mas este debate foge da realidade e concentra-se em ideias de ficção científica, pois ninguém sabe como resolver as necessidades de consumo instaladas.

Universidade de Coimbra

Fraca carne

Henrique Pereira dos Santos
271

Substituir carne por peixe (ou por vegetais), sem saber de que sistemas de produção (e de que ciência) estamos a falar é completamente vazio do ponto de vista da sustentabilidade ambiental.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)