Na Turquia, uma barragem hidroelétrica vai ser o suficiente para afundar — literalmente — 12 mil anos de história. Hasankeyf, antiga cidade que fica no sudeste da Turquia e é considerada um “museu ao ar livre”, pode ficar submersa já no próximo ano.

Hasankeyf fica junto ao rio Tigre e tem milhares de cavernas artificiais e 300 monumentos medievais, segundo a Smithsonian Mag. Alguns dos principais monumentos foram transportados para a “nova Hasankeyf”, que se está a erguer na outra margem do rio, a dois quilómetros do local original. Ainda assim, o reservatório de água da barragem de Ilisu vai inundar grande parte da cidade, onde em tempos viveram mais de 20 culturas diferentes.

É um desastre. Há diversas casas, túmulos, mesquitas e igrejas que vão ficar submersos. E o mesmo vai acontecer aos jardins, que são um dos últimos exemplares da jardinagem islâmica e medieval que restam no mundo”, diz John Crofoot, jornalista norte-americano e defensar da defesa da cidade há vários anos, citado pelo El País.

Hasankeyf é mesmo considerada como um dos sete patrimónios mais ameaçados do mundo há vários anos e, em 1981, chegou a ser declarada como área de conservação natural.

A construção da barragem — a segunda maior da Turquia — motivou diversas queixas no Parlamento Europeu. Várias pessoas têm lutado pela conservação do local arqueológico e levaram mesmo a que vários países retirassem o apoio financeiro à construção da barragem. Ainda assim, Veysel Eroglu, ministro responsável pela infraestrutura, afirmou: “Não precisamos desse dinheiro. Vamos construir a barragem custe o que custar”. A obra, que começou em 2006 e terminou em 2018, foi financiada por bancos turcos.

Ercan Ayboga, ativista e engenheiro ambiental, acredita, no entanto, que ainda não é demasiado tarde: “Neste momento, só 1% do património cultural do vale do Tigre está danificado. A barragem vai demorar entre seis e 24 meses para encher, dependendo do caudal do rio. Se houver protestos na Turquia e em todo o mundo, ainda podemos salvar Hasankeyf”.

Ayboga criou, em 2006, a Keep Hasankeyf Alive e afirma: “Não vamos perder só património cultural, mas património mundial”.