Se por estes dias tem estado pelo Algarve ou passou por algumas praias da costa algarvia, há uma alta possibilidade de ter encontrado um cenário diferente do normal para esta altura do ano: a água esteve mais fria do que é comum (mas está a melhorar), o vento tem estado mais forte e o mar está, literalmente, verde por causa da presença de uma quantidade bastante elevada de algas. As fotografias que têm sido partilhadas nas redes sociais mostram o que tem sido visto na região e com alguns a mostrarem dúvidas e alguma preocupação com o que está a acontecer. Mas, segundo os especialistas, não há motivos para isso.

Teresa Mouga, professora do Instituto Politécnico de Leiria, explica ao Observador que a presença de algas verdes (Ulva) na praia não é um fenómeno inédito, mas o facto de ter surgido numa quantidade tão elevada não é tão comum. A investigadora diz não destacar um motivo específico para este caso, mas aponta três fatores que normalmente podem originar este fenómeno, dependendo de caso para caso: a temperatura da água, a existência de muitos nutrientes vindos de uma maior carga orgânica provocada pelo excesso de fertilizantes e também pode acontecer quando o mar está mais agitado “e as algas arrojam, ou seja, são arrancadas da profundidade e vêm até á costa”.

Neste caso específico, Teresa Mouga explica que uma das hipóteses mais fortes será mesmo a da elevada concentração de nutrientes naquele local. “A existência de muitos nutrientes nas zonas costeiras pode causar, muitas vezes, volumes maiores de algas. E estas algas verdes são oportunistas: elas, tendo nutrientes, crescem. Depois pode haver aqui também a questão das correntes que levam estas algas, uma série de fatores que podem levar a este fenómeno”, acrescentou a investigadora.

Joaquim Parrinha, profissional marítimo na EcoAlga, acrescenta que, “no caso da alga, todo o seu corpo vai buscar fertilizante. Todas elas se alimentam diretamente da água”. Por isso, quando há um excesso de fertilizantes, nomeadamente nitratos e fosfatos, há um boom de algas. “Se o espaço for confinado, como por exemplo nas lagoas e nos ribeiros, acontece uma eutrofização [crescimento excessivo de plantas aquáticas], uma vez que não há movimentação de água o suficiente para que o excesso de algas seja levado e entre novamente o oxigénio e mais nutrientes. No oceano, como é muito dinâmico, temos sempre movimentação, não há a eutrofização”, acrescenta.

E os banhistas devem estar preocupados com a presença destas algas? “Não é uma questão de problemas para a saúde. O que vai acontecer é que as algas vão acabar por apodrecer e ganham um cheiro muito forte, muito intenso”, responde Teresa Mouga. As autarquias poderão fazer uma limpeza na zona para evitar esta questão. Joaquim Parrinha acrescenta que a presença destas algas “indica que as águas estão saudáveis o suficiente para manter a vida marinha que nela habita“.

Estas algas crescem na rocha ou nos estuários porque suportam bem as variações de salinidade. O que está a acontecer pode ter muito a ver com as correntes que transportam as algas para a praia. E esta questão não é inédita. Tem vindo a crescer e tem a ver com mais poluição orgânica”, acrescentou a investigadora ao Observador.

Sobre previsões para a situação voltar ao normal, Teresa Mouga diz não existir um tempo definido, mas destaca que este tipo de algas tende a desaparecer em pouco tempo, “até porque na nossa costa não é muito comum este tipo de fenómeno”. As algas verdes, acrescenta, “aparecem em toda a costa portuguesa com abundância, só que estes volumes não são habituais, sobretudo na costa arenosa”.

Águas estiveram mais frias do que o normal, mas temperatura está a subir

Além do fenómeno das algas verdes, os últimos dias no Algarve têm sido também marcados por uma temperatura da água mais fria do que é normal  — e que terá ajudado no aparecimento das algas. Na semana passada, por exemplo, a temperatura do mar em Albufeira, Portimão e Armação de Pera variou entre os 16ºC e os 17ºC, um valor inferior ao que é considerado normal por esta época e em alguns casos inferior à temperatura verificada no norte do país, onde a água costuma ser mais fria.

De acordo com Vânia Lopes Brogueira, coordenadora do gabinete de comunicação do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a situação justifica-se com “o vento mais intenso do quadrante norte, em especial a sul do cabo Carvoeiro” que “tem dado origem a um fenómeno denominado afloramento costeiro (upwelling)“. Este fenómeno, explicou a meteorologista ao jornal I, “consiste na subida de águas subsuperficiais para a camada de água à superfície no oceano, tendo como forçamento meteorológico o vento junto à superfície”. Ou seja, a camada mais profunda da água acaba por vir à superfície.

Joaquim Parrinha recorda também que “quando há águas mais frias, as algas gostam mais e desenvolvem-se mais”. Com o fenómeno do upwelling, as águas frias que vêm do fundo do oceano sobem e trazem matéria orgânica, nutrientes para alimentar os peixes. “Quando há um aumento de temperatura exterior e há um contacto com a água que vem do fundo do mar, que traz nutrientes, então há um boom de algas”, explicou ainda.

Seja como for, a temperatura da água está, agora, a voltar ao que é mais habitual. Esta quinta-feira, de acordo com o IPMA, a temperatura da água, por exemplo, em Faro já rondava os 19ºC. “A partir de dia 22, quinta-feira, já se prevê ondulação de sueste (levante) e é expetável que a temperatura da água do mar no Algarve aumente para valores mais habituais para a época do ano (acima de 20ºC)”, acrescentou Vânia Lopes Brogueira.

(Artigo atualizado às 10h10)