Se os “bonecos” criados por Keith Haring são hoje parte integrante da cultura popular, reproduzidos em série em t-shirts, canecas, ímanes ou cadernos — e mesmo que nem sempre o nome do autor seja a primeira coisa que vem à cabeça de quem compra estes objetos –, isso basta para tornar relevante uma nova exposição em Cascais com posters e cartazes assinados por Haring e peças de vestuário que outros fizeram a partir da sua iconografia. De resto, raras vezes o seu trabalho  tem sido apresentado no nosso país. Provavelmente, só ficaram na memória duas exposições de 2003 e 2004 na Culturgest do Porto e de Lisboa.

Acontece que há mais. A exposição “Keith Haring — entre a arte, o ativismo e a moda”, no centro comercial CascaiShopping a partir de 10 de setembro e com duração de dois meses, dá o mote para que outros criadores testemunhem a influência permanente que Haring exerce sobre a arte contemporânea. É o caso do artista multimédia AkaCorleone e do designer de moda Dino Alves.

Já na terça-feira, 3 de setembro, a poucos dias da abertura da exposição, AkaCorleone, ou Pedro Campiche, muitas vezes associado à arte urbana, vai estar a trabalhar ao vivo no CascaiShopping, por volta da hora de almoço. Um vinil de cinco metros que ele preparou, e que vai cobrir uma carruagem de comboio da linha de Cascais com padrões inspirados no artista norte-americano, já estará pronto e aplicado no momento da demonstração ao vivo, pelo que esta consistirá sobretudo num momento de diálogo entre AkaCorleone e o público.

“Keith Haring sempre me influenciou, é um dos meus artistas preferidos, por isso não é complicado fazer a ponte entre o meu trabalho e o dele”, explicou AkaCorleone, sublinhando que a arte urbana é apenas uma das linguagens que adota. “Criei uma imagem digital que foi impressa e aplicada num vinil que estará a cobrir uma parte de uma carruagem, por dentro e por fora. É uma peça híbrida, com ícones do Haring e elementos já habituais nas minhas obras, nomeadamente o tratamento da cor.”

O facto de o artista americano ter começado por trabalhar de forma clandestina nas estações de metro de Nova Iorque, onde deixava desenhos a giz, justificou a escolha da carruagem de comboio, segundo a curadora Astrid Sauer, responsável pela empresa a State of the Art, com sede em Cascais, que está a organizar esta “operação Haring” em Portugal. “No fundo, trata-se de democratizar o acesso à arte e à cultura, o que era era uma valor muito importante para ele”, acrescentou. Além da carruagem, a estação de comboios da vila será decorada na próxima semana com imagens alusivas à obra de Keith Haring, uma intervenção da designer Susana Oliveira.

Noutro quadrante, Dino Alves foi convidado a desenhar um vestido a partir dos ícones de Haring, mas o resultado não será revelado para já, apenas durante a  53ª edição da ModaLisboa, entre 10 e 13 de outubro. Segundo Astrid Sauer, o vestido de Dino Alves será depois leiloado, a 28 de outubro, na casa Cabral Moncada, em Lisboa, com os fundos a reverterem a favor da Ser+, associação portuguesa para prevenção e tratamento do vírus da sida.

A rua para os artistas

Keith Haring nasceu a 4 de maio de 1958 no estado da Pensilvânia, costa leste dos Estados Unidos da América. Pintor, escultor, cartoonista, muralista e performer, foi um dos mais ativos criadores visuais da década de 80 nos Estados Unidos da América, com um trabalho tão bem acolhido em galerias e museus como fora deles, em murais, posters, esculturas públicas, objetos de consumo. Morreu em Nova Iorque com apenas 31 anos, a 16 de fevereiro de 1990, pouco depois de descobrir que tinha contraído o vírus da sida.

Estudou design gráfico numa escola profissional, tendo chegado a Nova Iorque em 1978. Reconhecia o mestre da arte pop Andy Warhol como figura de referência e, de acordo com vários especialistas, liderou o movimento de apropriação da rua como espaço de criação e exibição artística, o que faz dele um dos precursores da arte urbana tal como a conhecemos.

“Ele conseguiu chamar a atenção para questões ainda hoje atuais, como o racismo, a igualdade de género ou a epidemia da sida”, acrescentou Astrid Sauer, segundo a qual o acolhimento da exposição num centro comercial não só faz jus ao espírito de Haring, que estava desalinhado do tradicional mercado da arte contemporânea, como permite criar novos públicos para museus e galerias. “Outras iniciativas que fizemos em centros comerciais têm demonstrado que as pessoas pouco habituadas a frequentar instituições de arte contemporânea acabam por despertar para essa ideia quando veem obras num espaço menos óbvio como este”, disse a mesma responsável.

A exposição de Cascais consistirá em 17 posters originais e autenticados, relativos ao período 1982-1991. São provenientes de uma coleção privada italiana, mas o nome dos proprietários não foi divulgado, o que é comum nestes casos. Pode ser visto, por exemplo, o famoso trabalho “Ignorance = Fear”, de 1989, que Haring criou para a associação Act Up para denunciar a discriminação das pessoas seropositivas.

Além disso, serão exibidos dois vestidos que ele inspirou — um de Alice + Olivia, marca de moda criada em 2001, e outro de Jean-Charles de Castelbajac, diretor criativo da Benetton. Haverá ainda na exposição uma réplica do casaco desenhado por Haring e usado por Madonna na festa de aniversário do artista em 1984, na discoteca Paradise Garage, em Nova Iorque. A cantora recordou-o há uns anos, no Instagram: