Católica devota, a presidente-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, nasceu num bairro pobre da cidade e subiu a pulso na hierarquia até que foi escolhida por Pequim para liderar o poder local. Conhecida por ser uma workaholic, que dorme entre três a cinco horas por noite, esteve envolvida em inúmeras controvérsias ao longo dos anos e, em todas, mostrou uma dureza que lhe granjeou o respeito (e os apoios) de quem patrocinou a sua ascensão. Mas com os manifestantes há vários meses nas ruas de Hong Kong, Carrie Lam parece ter cedido, finalmente, e retirou a controversa lei da extradição proposta em fevereiro. Falta o resto.

Carrie Lam Cheng Yuet-ngor cresceu como quarta de cinco filhos num bairro de classe baixa em Hong Kong. Depois de estudar num colégio de freiras, formou-se em Ciências Sociais na Universidade de Hong Kong e iniciou, logo então, uma carreira na área pública. Percorreu 21 lugares ao longo da sua carreira profissional que ainda não chegou aos 40 anos.

Ao longo desse trajeto, ganhou fama de ter uma persistência fora de série, o que foi decisivo em vários momentos para que se tenha conseguido avançar com propostas muito delicadas. Uma delas foi a polémica demolição do Queen’s Pier, o pontão batizado com o nome da Rainha Victoria e onde atracavam todos os barcos de governadores britânicos e, também, a Rainha Isabel II (em 1975).

Num discurso que selou o destino final desse local histórico, Carrie Lam sublinhou que manter o pontão simplesmente não era uma opção e que não faria sentido dar “falsas esperanças” às pessoas que defendiam a sua conservação. Ponto final.

Também nessa altura Carrie Lam enfrentou a fúria dos protestos de milhares de habitantes de Hong Kong, que desafiaram a proposta até ao fim. Foi em 2008 e tornou-se um marco simbólico da entrega do poder, que passou do Reino Unido para a China. Carrie Lam era ministra (secretária) do Desenvolvimento, e a sua atuação nessa altura foi uma prova de lealdade a Pequim que continuaria a ser recompensada nos anos seguintes.

Carrie Lam nasceu num bairro pobre de Hong Kong e estudou num colégio de freiras católicas.

Já uns anos antes, em 2001, como diretora na área da Segurança Social, Carrie Lam capitaneou a subida da idade mínima para as candidaturas a uma espécie de rendimento social de inserção, limitando de forma significativa o número de pessoas a quem essa prestação poderia ser paga porque também se eliminou esse apoio a quem estivesse em Hong Kong há menos de sete anos.

Essa medida, também altamente polémica, foi explicada pela própria Lam com o “amplo consenso na nossa comunidade de não querer que Hong Kong se transforme num estado social pago com impostos pesados”. Porque “existe um limite para aquilo que o Governo pode gastar”, defendeu que “as virtudes da auto-suficiência, da coesão familiar e do apoio intracomunitário devem ser privilegiadas”.

Por outro lado, foi a grande força motriz por detrás da angariação de fundos que foi obtida para pagar os estudos de crianças cujos pais morreram na epidemia de gripe (SARS) que matou várias centenas de pessoas em Hong Kong. Foi uma iniciativa mais condicente com a sua visão de que deve ser a comunidade a unir-se, de forma espontânea e livre, para acorrer a quem precisa — o Estado e a Segurança Social, na altura com stress nas contas, só deveria ser chamado em último caso.

Escolhida a dedo, por 777 fiéis a Pequim

Em 2012, Carrie Lam subiu ao segundo lugar de maior poder na hierarquia de Hong Kong, como secretária-chefe. Pouco depois foi apresentada uma proposta controversa: todos os cidadãos podiam votar, mas só numa lista de candidatos pré-selecionada por Pequim. Mais uma vez, Carrie Lam enfrentava a fúria dos protestos pró-democracia que querem limitar a influência chinesa na gestão de Hong Kong.

O sufrágio universal é o principal desejo dos manifestantes, cujos líderes são escolhidos por um comité eleitoral de quase 1.200 membros fiel à China. Esta é uma questão que está em cima da mesa nos protestos atuais, que começaram com a lei da extradição mas rapidamente se alargaram para vários outras reivindicações.

E foi uma maioria desses quase 1.200 membros — 777 — que escolheu Carrie Lam, em 2017, para se tornar a primeira mulher a liderar a região administrativa de Hong Kong. No seu discurso de tomada de posse, afirmou que seria através do “verdadeiro trabalho e verdadeiros resultados” que iria “corresponder às expectativas daqueles que me apoiam e conquistar o reconhecimento daqueles que ainda não me apoiam”. “As ações falam mais alto que as palavras”, garantia.

Mas já então era vista pelos movimentos pró-democratas como uma nativa de Hong Kong que nunca iria contrariar os desígnios de Pequim, e por isso os problemas começaram logo na tomada de posse do parlamento local. Quatro deputados utilizaram os seus discursos de jura à bandeira para “improvisar” nos textos que leram, incluindo referências à República Popular da China como a “People’s Re-Fucking of China”.

Um tribunal de Hong Kong acabaria por afastar os quatro deputados do cargo, acusados de não terem tomado posse e executado os procedimentos associados sem “sinceridade”. O establishment pró-Pequim acabaria, assim, por levar a melhor e Carrie Lam saiu reforçada. Tanto que, em fevereiro deste ano, Lam introduziu a legislação que lançou a última polémica: a proposta de extraditar suspeitos de crimes para a China, para serem julgados. A medida foi vista como uma forma de atacar cirurgicamente quaisquer dissidentes do poder, que poderiam agora viveriam com a ameaça de serem levados para a China para lá serem julgados por crimes de que fossem sumariamente acusados.

A chefe do Governo admitiu chamar a si poderes reforçados face à situação de emergência que se vive no território e a China chegou a estacionar tropas na cidade vizinha, Schenzen. Mas quando os protestos atingiram uma gravidade inédita, Carrie Lam ensaiou um primeiro recuo. A 2 de julho, afirmou que “estes atos violentos, fora da lei, atingem gravemente os valores nucleares do estado de direito em Hong Kong”. Pediu “as mais sinceras desculpas” pela iniciativa legislativa e garantiu que a proposta legislativa estava não só suspensa como “morta”. Mas isso não chegou para acabar com os protestos, que se prolongaram várias semanas, a pedir a sua demissão.

A dada altura, foi gravada secretamente numa reunião com empresários onde, a chorar, garantia que “se tivesse escolha na matéria”, se demitia.

Mas no dia seguinte, quando a gravação chegou à imprensa, disse, com um leve sorriso no rosto, que nunca tinha entregado qualquer carta de demissão — e nem sequer “contemplou” essa possibilidade. “A escolha de não me demitir é minha”, o que aconteceu é que “numa sessão privada tentei explicar como, enquanto indivíduo, tendo em conta as circunstâncias muito difíceis, o mais fácil seria sair”.

No anúncio da retirada formal da proposta legislativa, Carrie Lam apareceu a ler um discurso cuidadosamente preparado, quase tão cuidadosamente preparado quanto a sua postura corporal e a cadência da voz e das pausas para engolir. Na mensagem, procurou falar sobre as cinco reivindicações dos manifestantes e sobre o que o governo que lidera já fez quando a cada um.

O atual movimento pró-democracia definiu cinco reivindicações: a retirada definitiva da lei da extradição, a libertação dos manifestantes detidos, que as ações dos protestos não sejam identificadas como motins, um inquérito independente à violência policial, a demissão da chefe de governo Carrie Lam e sufrágio universal nas eleições para este cargo e para o Conselho Legislativo, o parlamento de Hong Kong.

Contudo, a expectativa dos especialistas nesta matéria é que, mesmo com esta aparente cedência, os protestos vão continuar, animados por alguns pequenos grupos que estão a ver nestes meses de protestos a oportunidade das suas vidas para tentar mudar o regime, fundamentalmente. A prova dos nove será tirada no próximo fim de semana.