A eliminação na terceira eliminatória de acesso à Liga dos Campeões foi traumática para o FC Porto. A derrota perante o Krasnodar, que impediu a presença na liga milionária onde na temporada passada os dragões só caíram às mãos da equipa que acabaria por ser campeã europeia, abriu espaço a uma série de três vitórias consecutivas e convincentes em que o conjunto orientado por Sérgio Conceição mostrava melhorias — tanto a nível qualitativo como psicológico. A eliminação com os russos, para lá da eficácia do adversário, pode ser explicada em larga escala por um descontrolo emocional dos jogadores azuis e brancos, que não conseguiram recuperar a concentração quando começaram a estar em desvantagem.

Este fim de semana, e apesar de ter garantido a quarta vitória consecutiva, o FC Porto voltou a não conseguir esconder essa faceta nervosa e pouco racional: depois de estar a ganhar até aos 75 minutos, o Portimonense empatou a partida e dificultou um jogo que parecia estar totalmente decisivo. A desorientação da equipa de Sérgio Conceição, que só foi anulada por um golo de Marcano no oitavo (!) minuto de descontos, fez lembrar o encontro do Dragão com o Krasnodar e deixou preocupados os adeptos que já pensavam na receção desta quinta-feira ao Young Boys.

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Ficha de jogo

FC Porto-Young Boys, 2-1

Fase de grupos da Liga Europa

Estádio do Dragão, no Porto

Árbitro: Andris Treimnis (Letónia)

FC Porto: Marchesín, Alex Telles, Marcano, Pepe, Corona, Luis Díaz (Romário Baró, 65′), Danilo, Otávio, Uribe, Marega (Manafá, 70′), Soares

Suplentes não utilizados: Diogo Costa, Mbemba, Nakajima, Fábio Silva, Zé Luís

Treinador: Sérgio Conceição

Young Boys: Von Ballmoos, Bürgy, Sorensen, Zesiger, Janko, Sierro, Lustenberger, García, Fassnacht (Aebischer, 73′), Assalé, Nsame (Hoarau, 61′)

Suplentes não utilizados: Wolfli, Petignat, Gaudino, Mambimbi, Lotomba

Treinador: Gerardo Seoane

Golos: Soares (8′ e 29′), Nsame (gp, 15′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Bürgy (9′), Marcano (52′), Otávio (90′)

A primeira semana de várias em que o FC Porto vai jogar de três em três dias obrigava então a um encontro com o bicampeão suíço, que também falhou o acesso à Liga dos Campeões mas já no playoff com o Estrela Vermelha. A equipa de Berna, onde o lateral Janko era titular — o jogador pertence ainda aos quadros dos dragões, foi dispensado depois de ter atuado apenas num particular –, encontrava no Dragão um FC Porto que tinha apenas uma alteração face ao onze que no fim de semana sofreu para bater o Portimonense: entrava Soares, saía Zé Luís. No meio-campo, Otávio repetia a titularidade e Romário Baró começava novamente no banco de suplentes.

O jogo começou mexido, com as duas equipas a mostrarem desde logo que não tinham como objetivo gastar muito tempo a estudar o adversário. Otávio, que perdeu espaço nas opções iniciais de Sérgio Conceição no arranque da temporada e viu o jovem Romário Baró conquistar um lugar na linha intermédia dos dragões, estava a atuar tombado na direita, sempre muito independente de linhas rígidas ou áreas de ação. O médio brasileiro oferece a profundidade que falta a Baró — que continua a precisar e a ser muito dependente do colega que tem ao lado — e foi precisamente numa dessas demonstrações de passes verticais a rasgar linhas defensivas que o FC Porto acabou por conseguir chegar à vantagem ainda nos primeiros dez minutos do jogo. Otávio levantou para Luis Díaz, que recebeu com o peito à entrada da grande área e tabelou com Soares; o avançado, que ainda não tinha marcado esta temporada, não falhou na cara de Von Ballmoos e inaugurou o marcador (8′).

Mesmo a ganhar, os dragões estavam a ser algo permeáveis na primeira fase de pressão, permitindo a entrada do Young Boys no último terço do meio-campo português: Pepe e Marcano estavam a ter algumas dificuldades a acompanhar a velocidade e a vertigem de Nsame e Assalé e foi precisamente com uma arrancada do segundo, que deixou para trás a dupla de centrais e avançou rumo à baliza, que Marchesín acabou por cometer grande penalidade. O guarda-redes do FC Porto derrubou o avançado da equipa suíça no interior da grande área e Nsame, na conversão, empatou a partida (15′). Depois do empate, colocava-se uma questão: a equipa de Sérgio Conceição ia entrar no vórtice de descontrolo que complicou a situação em Portimão e com o Krasnodar ou ia reagir e assentar na inequívoca superior qualidade individual e global que ia demonstrando? A resposta certa, para bem do FC Porto, foi a segunda.

Os dragões subiram as linhas e procuraram o golo, roubando as linhas de passe ao Young Boys e oferecendo espaço tanto a Otávio como a Uribe, que pegavam no jogo numa fase mais recuada e conduziam até à zona de finalização. Soares ficou muito perto de bisar depois de um erro da defesa suíça (22′) e Danilo acertou no poste de cabeça na sequência de um canto (25′) e adivinhava-se o segundo golo do FC Porto, principalmente porque o avançado brasileiro já levava nesta altura tantos remates como todos os outros jogadores em campo juntos (três). O bis de Soares apareceu a culminar uma jogada coletiva de elevada qualidade, que começou novamente com a visão de jogo de Otávio, que abriu na direita da grande área para Corona; o mexicano, em velocidade e à saída do guarda-redes, cruzou para a pequena área e para Soares, que só precisou de encostar para repôr a vantagem (29′).

Na ida para o intervalo, a equipa de Sérgio Conceição somava oito remates, sendo que cinco foram à baliza, contra apenas um do Young Boys — o do golo. No final da primeira parte, existia a noção latente de que o empate dos suíços tinha sido apenas um acidente de percurso na superioridade inequívoca do FC Porto: mas também pairava a ideia de que bastava mais um arranque bem medido de Assalé ou Nsame para deixar Pepe e Marcano em dificuldades e expor as debilidades portuguesas na hora de pressionar o homem da bola.

Na segunda parte, pedia-se ao FC Porto que procurasse o terceiro golo, de forma a arrumar as contas do resultado, e repetisse a esclarecedora percentagem de posse de bola com que terminou o primeiro tempo (61% contra 39% do Young Boys). Sem mexidas, a equipa de Sérgio Conceição recuou no terreno de forma algo inconsciente e não conseguiu extinguir os erros de reação à perda de bola e pressão imediata na primeira linha de construção suíça — com o passar dos minutos, o conjunto orientado por Gerardo Seoane acabou por conseguir aquilo que queria, que era partir a organização da partida e apostar na velocidade dos três homens da frente, que já tinha provado ser demasiada para as pernas de Pepe e Marcano.

Sem criar ocasiões de golo dignas desse nome, a verdade é que o Young Boys aproximou-se da grande área de Marchesín e passou alguns minutos, durante o quarto de hora inicial do segundo tempo, a trocar a bola no último terço dos dragões e a beneficiar de livres e pontapés de canto. Sérgio Conceição reagiu ao pior período dos dragões na partida com a entrada de Romário Baró para o lugar de Luis Díaz, numa tentativa de recuperar o controlo do meio-campo — mesmo sacrificando o fluxo ofensivo e o critério na hora do passe para finalização — , e o jovem médio ia oferecendo o hat-trick a Soares numa das primeiras ações que teve, mas o brasileiro atirou ao lado (69′).

Marega, que terminou a partida com zero remates, apenas um passe para finalização e cinco controlos de bola deficientes, saiu para deixar entrar Wilson Manafá, que não só soltou Romário Baró para funções mais construtivas como reforçou a primeira linha de pressão dos dragões. Aos 75 minutos, era notória a superioridade dos suíços na segunda parte: o FC Porto só tinha um remate, não enquadrado, e o Young Boys tinha quatro remates, acertando duas vezes na baliza. Até ao final, Sérgio Conceição ainda ofereceu a estreia europeia a Fábio Silva, que se tornou o jogador mais novo de sempre a jogar pelos dragões nas competições europeias, e o conjunto português terminou mesmo a partida a segurar o resultado — contra aquilo que seriam as expectativas.

Soares marcou os primeiros dois golos da conta pessoal nesta temporada e garantiu a vitória do FC Porto, assegurando ao treinador que é opção para o ataque e que, provavelmente, o elo mais fraco entre o brasileiro e Zé Luís será mesmo Marega. Os dragões ganharam, estão no primeiro lugar do Grupo G da Liga Europa em ex aequo com o Rangers (que bateu o Feyenoord), mas estiveram longe de impressionar. E se os puristas dizem, com a devida razão, que o importante é o resultado e os três pontos, a verdade é que é importante ter gás e stamina para 90 minutos. Porque nem sempre se seguram resultados ao longo de duas partes tão distintas.