A última semana do Sporting, tal como as últimas semanas do Sporting, teve poucos momentos mortos. Depois da derrota em Alvalade com o Rio Ave para a Taça da Liga, que se seguiu à derrota em Alvalade com o Famalicão para a Liga, que se seguiu à derrota na Holanda com o PSV para a Liga Europa, Leonel Pontes saiu sem surpresas, Silas foi apresentado sem surpresas (ainda que com alguns avanços e recuos) e tudo isto, sem surpresas, foram apenas micro capítulos do enredo mexicano que tem envolvido o clube.

Pelo meio, surgiram áudios em que Bruno Fernandes criticava alguns colegas de equipa. Pelo meio, o mesmo Bruno Fernandes deu uma entrevista à UEFA e disse que alguns companheiros “não têm noção do clube que representam”. Pelo meio, Francisco Salgado Zenha disse em entrevista à Rádio Observador que os administradores da SAD leonina iriam abdicar dos aumentos salariais propostos pela Comissão de Acionistas. E, também pelo meio, esse mesmo cenário confirmou-se na Assembleia-Geral da SAD, na terça-feira, onde marcaram presença antigos elementos da Direção de Bruno de Carvalho e antigos elementos da lista de João Benedito que ficou em segundo no ato eleitoral de há pouco mais de um ano. Por fim, e não pelo meio, José Maria Ricciardi reativou a conta de Facebook que tinha durante essa mesma campanha eleitoral e deixou antecipar que será novamente candidato, na fórmula mais tardia, em 2022.

Ficha de jogo

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Sporting-LASK, 2-1

Fase de grupos da Liga Europa

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Alain Durieux (Luxemburgo)

Sporting: Renan, Mathieu, Coates, Luís Neto (Vietto, 45′), Miguel Luís, Doumbia, Wendel (Eduardo, 58′), Bruno Fernandes, Acuña, Bolasie, Luiz Phellype

Suplentes não utilizados: Maximiano, Tiago Ilori, Rafael Camacho, Borja, Jesé

Treinador: Silas

LASK: Schlager, Wiesunger, Trauner, Filipovic, Ranftl, Michorl, Holland, Potzmann (Renner, 72′), Frieser (Sabitzer, 80′), Raguz (Klauss, 55′), Goiginger

Suplentes não utilizados: Gebauer, Pogatetz, Müller, Tetteh

Treinador: Valérien Ismaël

Golos: Raguz (16′), Luiz Phellype (58′), Bruno Fernandes (63′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Acuña (44′), a Ranftl (45′), Wiesunger (58′), Luiz Phellype (70′), Bruno Fernandes (78′)

De forma transversal a tudo isto, Silas estreou-se fora, contra o Desp. Aves, colocou Jesé e Bolasie no onze inicial e ganhou o primeiro jogo ao comando dos leões graças a um golo de penálti de Bruno Fernandes. Esta quinta-feira, apenas três dias depois dessa importante vitória que colocou um ponto final a um ciclo negativo que se prolongou por um mês, o Sporting recebia o LASK da Áustria na segunda jornada da fase de grupos da Liga Europa e tentava compensar a derrota sofrida há duas semanas com o PSV e voltar às contas da passagem aos 16 avos de final da competição europeia. Na hora de escolher a equipa — e já sabendo que não podia contar com Rosier, que se lesionou –, Silas optou por uma defesa composta por três elementos, com Luís Neto, Coates e Mathieu, colocou Doumbia a jogar nas costas de Bruno Fernandes e Wendel e Acuña e Miguel Luís, um de cada lado, eram os homens mais próximos dos corredores. Lá à frente, Jesé começava no banco de suplentes, assim como Vietto, e Bolasie e Luiz Phellype formavam a dupla ofensiva.

Nos primeiros instantes da partida, depressa de percebeu que a linha defensiva era mesmo a três e que Acuña tinha a responsabilidade de fechar na esquerda e ajudar Mathieu, ao passo que Miguel Luís fazia o mesmo com Luís Neto na direita. A jogada inicial da partida mostrou desde logo que o LASK não tinha viajado da Áustria a Portugal para fazer turismo, já que Renan teve de se aplicar e fazer duas defesas com os pés para evitar que o marcador fosse inaugurado logo no primeiro minuto do encontro. Os minutos seguintes, porém, pouco ou nada alteraram esta lógica: o clube austríaco conseguia penetrar nas costas da defesa leonina facilmente, principalmente a partir da direita do ataque e da esquerda da defesa, e estava a aproveitar os inúmeros erros individuais que os jogadores de Silas iam cometendo.

O segundo susto para Renan apareceu precisamente através de um erro de Mathieu, que ofereceu a bola ao ataque adversário quando tentava sair de forma apoiada, mas o remate saiu ao lado da baliza do guarda-redes brasileiro (12′). Os dados, ainda assim, estavam lançados, e o LASK não demorou muito a perceber que seria por ali — onde Wendel tentava fazer dobras defensivas, Acuña cumpria piscinas ao longo do corredor para não falhar em lado nenhum e Mathieu se desdobrava entre fechar ao meio com Coates ou alargar — que causaria perigo. O ataque austríaco tombou totalmente para a direita e a entrada pouco tranquila do Sporting no jogo teve a primeira consequência ao passar do quarto de hora inicial, quando mais um erro acabou por não ter remédio. Wendel perdeu a bola, mais uma vez na esquerda, e Raguz depressa recebeu já no interior da grande área para rematar na diagonal e bater Renan (16′).

Os austríacos estiveram perto de aumentar a vantagem logo no lance que se seguiu ao golo e depois no seguimento de um erro de Bruno Fernandes em zona proibida (21′) mas o Sporting conseguiu passar a reter a posse de bola por volta da meia-hora. Ainda assim, os leões não conseguiam chegar perto da baliza adversária e limitavam-se a rendilhar o jogo e a lateralizar, com total ausência de passes verticais ou movimentos de rotura. Miguel Luís, com um cabeceamento depois de uma solicitação de Acuña (29′) e um remate de primeira que passou muito por cima da trave (36′), foi mesmo o único elemento leonino a criar algo parecido com perigo durante o primeiro tempo. Bolasie, sempre muito combativo na frente de ataque, não recebia jogo e Luiz Phellype parecia totalmente perdido para lá dos defesas austríacos. Na ida para o intervalo, o Sporting descia para o balneário sem ter rematado à baliza do LASK, sem dinâmica, sem momentos de relevo e sem vontade de chegar ao golo: as únicas boas notícias para Silas eram mesmo os factos de os leões só terem sofrido um golo e de Marcos Acuña permanecer em campo, já que o jogador argentino atingiu um adversário com uma cotovelada enquanto era puxado e viu cartão amarelo.

Na segunda parte, Silas tirou Luís Neto para lançar Vietto e alterou o esquema tático da equipa, passando Miguel Luís a jogar em permanência a lateral direito e Acuña a cumprir a mesma função do lado esquerdo da defesa. Luiz Phellype tomou uma posição mais destacada na frente de ataque, Bolasie alargou na direita e Vietto ficou a explorar o corredor esquerdo. Ainda assim, o LASK voltou do intervalo tal e qual como tinha iniciado a partida, com vontade de chegar depressa ao golo e arrumar o jogo sem precisar de sofrer. Criou três oportunidades, não foi eficaz e acabou por sofrer não com a partida mas com a maior máxima do futebol que diz que quem não marca sofre.

No minuto em que Wendel saiu para dar lugar a Eduardo, Bruno Fernandes bateu um canto perfeito na direita e Luiz Phellype apareceu ao primeiro poste a cabecear sem tirar os pés no chão e a empatar a partida — totalmente contra a corrente (58′). O cabeceamento do brasileiro foi mesmo o primeiro remate enquadrado dos leões em toda a receção ao LASK e a equipa de Silas demonstrava eficácia total, ao marcar na única verdadeira ocasião de golo que havia criado até ao momento. Bruno Fernandes ameaçou com um livre direto (60′) e acabou por chegar ao golo e confirmar a reviravolta somente cinco minutos após o empate, com os papéis a inverterem-se e o capitão leonino a ser assistido pelo avançado brasileiro para depois rematar na diagonal já no interior da grande área (63′).

Silas tirou um desgastado Acuña para colocar Borja e segurar aquele que foi, durante todo o jogo, o setor mais frágil da equipa e o Sporting passou os últimos 25 minutos da partida a procurar manter a vantagem, confirmar a reviravolta e somar os primeiros três pontos na fase de grupos da Liga Europa. O encontro partiu, os leões desceram as linhas e só atacaram em transição rápida, sempre de forma a não cometer erros em zona proibida como havia acontecido na primeira parte. O Sporting ganhou em formato cambalhota no resultado, teve nota máxima na eficácia depois de ser surpreendido pela intensidade dos austríacos no primeiro tempo e acabou por beneficiar do desperdício do LASK no segundo tempo. Silas leva duas vitórias em duas possíveis, Bruno Fernandes marca há seis jogos consecutivos e a verdade é que os leões chegam à pausa para as seleções a trabalhar sobre dois resultados positivos seguidos. O treinador português, que esta quinta-feira foi sempre representado pelo adjunto Emanuel Ferro, somou também as duas primeiras vitórias a título pessoal esta temporada e bem pode agradecer ao capitão leonino, que mesmo depois de uma primeira parte menos conseguida apareceu na segunda para marcar e assistir e resolver o problema. E 46 dias depois, o Sporting voltou a ganhar em Alvalade.