Afonso Reis Cabral é o vencedor da edição de 2019 do Prémio Literário José Saramago, com o romance Pão de Açúcar. O anúncio foi feito esta terça-feira, ao final da manhã, pela presidente do júri do prémio, Guilhermina Gomes, na sede da Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, em Lisboa.

Narrado na primeira pessoa, Pão de Açúcar, publicado em setembro de 2018 pela editora Dom Quixote, parte da história verídica de Gisberta, uma transexual que foi assassinada na cidade do Porto, em 2006. Segundo Ana Paula Tavares, membro do júri do Prémio Saramago, o romance “lida com o espesso e confuso mundo da memória e retira do esquecimento acontecimentos que os jornais e os relatórios da polícia tinham tratado de forma redutora e parcial com silêncios e omissões que o autor se propõe aqui a revelar”.

Na opinião de António Mega Ferreira, que também integra o júri do prémio, Pão de Açúcar trata-se de “uma das obras ficcionais mais arrebatadoras e poderosas dos últimos anos”. Manuel Frias Martins, a quem coube fazer o elogio da obra e do escritor, considerou que “este é um romance que reforça a minha convicção de que de facto as melhores obras são também aquelas que nos obrigam a dizer que não é só de literatura que tratamos quando tratamos de literatura”.

A criança cresceu, mas o “puto” diz “obrigado”

No discurso de aceitação do prémio, entregue pelo presidente da Fundação Círculo de Leitores, Paulo Oliveira, o escritor de 29 anos começou por dizer que gostava de dizer “obrigado como uma criança”. “Mas entretanto o tempo tropeçou e parece que deixei de ser criança.” Contudo, há coisas que ainda o espantam como se fosse ainda pequeno e, por causa disso, disse, “qual puto: ‘obrigado'”.

Sobre o processo de escrita de Pão de Açúcar e também de O Meu Irmão, o romance de estreia que lhe valeu o prémio Leya em 2014, Reis Cabral explicou que, durante o processo de escrita, tenta o mais possível pôr-se de parte e dar espaço às personagens, à história e ao trabalho da linguagem. “Gosto de narradores muitos diferentes de mim, de personagens com as quais me cruzo no dia a dia. Quanto mais elas forem menos eu, melhor. Para mim essa tem sido a chave da escrita. Por isso, espanto-me com maneiras de ler que sufocam o livro com o que é acessório”, disse, criticando aquilo que considerou ser “o escrutínio do autor”.

Apesar de isso ainda não ser norma em Portugal, Reis Cabral lembrou que isso acontece regulamente “em sítios como os Estados Unidos”, onde “os livros interessam cada vez menos”, ao “serem analisados de acordo com os bons sentimentos de quem os escreveu”. Citando André Gide, declarou que “bons sentimentos não fazem boa literatura”, frisando que “os livros têm de ser lidos à luz do que está escrito e não [à luz] das boas intenções ou da biografia de quem os escreveu”.

“Nesta época do bom moralismo, dos bons sentimentos públicos, só espero que haja muitos artistas (…) que produzam em quantidade por todos os outros. Até lá faço, o que posso”, disse, acrescentando que Pão de Açúcar “não foi influenciado por nada” a não ser pela “procura da natureza humana no seu melhor e no seu pior. Inspira-se num caso real mas, para mim, vive da ficção”.

Afonso Reis Cabral disse ainda que “houve vários momentos belos e tristes na escrita deste romance”. Um dos mais belos e também mais tristes foi quando entregou as páginas do romance a uma amiga, Ariana Mascaranhas, “para as ler na cama do hospital”. Foi a ela que dedicou o prémio. “Doente, a Ariana teve o maior gesto de generosidade gastou com o que escrevi o pouco tempo que lhe faltava.”

Frias Martins: “Grande romance de um jovem autor de quem a literatura portuguesa se pode desde já orgulhar”

Para Manuel Frias Martins, trata-se de um “grande romance de um jovem autor de quem a literatura portuguesa se pode desde já orgulhar”. O membro do júri, a quem coube fazer o elogio da obra e do autor, explicou que os seus caminhos e os de Afonso Reis Cabral já se cruzaram antes, “algures nas regiões etéreas da universidade”, mas que não foi por isso que votou em Pão de Açúcar: “Votei na obra dele porque de facto admiro muito este autor”.

Este é, segundo o professor da Faculdade de Letras de Lisboa, um “romance compassivo mas nunca sentimental”, “de uma parcimónia exemplar no que respeita à linguagem e à imagística, sobretudo face à dramaticidade comovente dos envolvimentos humanos da sua estória. Há uma frescura estilística notável que acaba por equilibrar o próprio potencial trágico da obra, gerando no leitor aquele interesse ou aquele querer saber que nos prende irremediavelmente ao texto que vamos lendo”.

“Este é um livro que nos traz o prazer da literatura pelo mistério de tocar a alma mais pungente da realidade, mantendo-se sabiamente, ao mesmo tempo, dentro das ilusões da ficção”, afirmou ainda Manuel Frias Martins.

Além da ministra da Cultura e do júri do Prémio José Saramago, estiveram presentes na cerimónia desta terça-feira a vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, e alguns dos autores vencedores das edições anteriores. Na última edição, em 2017, o Prémio José Saramago foi entregue ao romance A Resistência, do brasileiro Julián Fuks.

Ministra da Cultura: “Às vezes só a ficção pode dar resposta ao mistério e fazer incidir uma luz a onde as notícias não chegam”

Graça Fonseca, que esteve presente na cerimónia desta terça-feira, chamou sobretudo a atenção para o tema escolhido por Afonso Reis Cabral, que deu “voz e uma nova vida àquilo que os outros vão esquecendo”. “Às vezes só a ficção pode dar resposta ao mistério e fazer incidir uma luz onde as notícias não chegam”, afirmou a ministra da Cultura, considerando ser este “um dos aspetos mais notáveis desta obra, que trata com talento literário e também com imensa dignidade e sentido ético um tema tão sensível e tão fundamental que nunca pode ser esquecido” — o preconceito contra a comunidade LGBTI.

“Pode ser ficção, mas às vezes precisamos de ficção para entender a realidade”, disse ainda Graça Fonseca, agradecendo ao autor por ter “trazido de volta um tema que, nos dias que correm, nunca podemos esquecer.”

Prémio José Saramago vai passar a premiar autores com até 40 anos

Guilhermina Gomes anunciou esta terça-feira que, a partir da próxima edição, “a idade limite” do Prémio Literário José Saramago vai passar a ser “os 40 anos à data de publicação da obra a concurso”. Criado em 1998, depois de José Saramago ganhar o Prémio Nobel, o prémio tinha, até então, distinguido escritores com idade não superior a 35 anos por uma obra de ficção, romance ou novela, publicada em qualquer país da lusofonia nos dois anos anteriores à atribuição do galardão.

Com um valor de 25 mil euros, o Prémio Literário José Saramago, que tem por objetivo celebrar a nova literatura em língua portuguesa, não contempla obras póstumas.