O clima de há quatro anos era bem mais meloso do que agora entre PS e Bloco de Esquerda. Sem acordo escrito, os dois partidos seguem mais soltos no ataque mútuo e em Santarém, na reunião da Comissão Nacional do PS, António Costa espicaçou mais o Bloco (sem o referir explicitamente) do que o fez em toda a campanha eleitoral. A farpa maior foi aos “arrependidos” que têm “dúvidas e angústias existenciais” e a quem aconselha como quem se despede: “Amigo não empata amigo”. Na reunião elegeu por 97% o nome que propôs para secretário-geral adjunto.

Foi bom, mas agora acabou. Pelo menos como foi até aqui. O PS reforçou-se nas eleições e o seu líder avisa o Bloco de Esquerda que não precisa dele, embora prefira dar “continuidade ao que começou há quatro anos”. “Não estamos aqui arrependidos, nem queremos arrepiar caminho”, disse aos dirigentes socialistas do órgão máximo do partido entre congressos. Agora, o Bloco é que tem de decidir onde quer estar e juntar-se se “vier por bem”. Costa nunca o refere, mas a referência às “dúvidas” das “forças de protesto”, não deixa margem para dúvidas:

Percebo que alguns devam estar cansados de serem meramente forças de protesto ou que tenham dúvidas e angústias existenciais se devem estar mais próximos do poder ou mais longe das soluções de Governo. Não me compete a mim dar-lhes conselhos. Respeitarei qualquer uma das opções que sigam, mas há uma coisa que gostaria de dizer: amigo não empata amigo. E portanto, enquanto pensam no caminho a seguir, podem estar certos que vamos continuar o caminho que iniciámos há quatros anos”

E a seguir ainda citou Manuel Alegre, em plena campanha num comício em Coimbra, quando o histórico socialista atacou o Bloco — aliás, era esse o método, pôr alguém a atacar por ele, com Costa a ficar quase sempre afastado dessas críticas mais diretas aos eventuais futuros parceiros. Alegre disse que “o PS já é há suficientes anos um partido da esquerda para precisar de professores de esquerda e para saber como se governa à esquerda” e Costa relembrou estas mesmas palavras aos  aos socialistas recebendo aplausos de volta.

Antes disto já tinha dito, na análise aos resultados eleitorais, que os parceiros de esquerda nada tinham ganho ao “fazer do PS o seu inimigo principal” durante a campanha eleitoral. “Não tiveram qualquer prémio”, disse “convencido que os votos que perderem foram essencialmente pelo erro que cometeram em voltarem a fazer do PS o seu principal inimigo”.

Sublinhou que agora tem “um quadro de parceria mais plural”, com o PAN e o Livre a entrarem no jogo de forças parlamentares. Mas também diz que a “porta está aberta para depois quem se quiser juntar à caminhada”, “quem vier por bem é bem vindo”.

Bloco Central, não. Mas não há “zona de tampão” para o PSD

Aqui, nem ao PSD fecha a porta, embora reduza a parceria com o lado direito do hemiciclo a questões “de superior interesse nacional”, dizendo mesmo que “é útil e conveniente para reformas estruturantes”. Exemplos de matérias de diálogo: a descentralização e os investimentos de longo prazo. O desafio foi claro, com Costa a começar mesmo por dizer que é nociva a “dissolução” entre a duas alternativas de Governo porque faz “empobrecer as hipótese de escolha dos portugueses quanto ao seu futuro: quando quiserem alternativa do PS têm cá o PS, quando quiserem ter alternativa de direita, lá está a direita para construir alternativa”, disse desejando que o PSD se reorganize.

Ainda a este propósito, António Costa diz-se contra a construção de “uma zona de tampão sem diálogo possível”, lembrando que a democracia “é um regime de compromissos”.

Curiosamente, não é a Rui Rio que atira no seu discurso, mas a Luís Montenegro (um dos candidatos à liderança social democrata) quando assinala o que disse sobre o seu Governo. “É de continuidade, é verdade”, aproveitando a crítica para a transformar em elogio. Mas Costa sabe que é importante que “à direita haja uma alternativa”, até porque o PS conhece o sítio em que está, num campo oposto: “É o partido da esquerda democrática, da social-democracia, do liberalismo. E é nesse campo em que ficaremos”.

Em 2015, o clima socialista era mais atribulado do que no tempo desta Comissão Nacional. A “geringonça” não foi pacífica internamente e Francisco Assis foi um dos que a criticou — ficando quase publicamente isolado, no PS, nessa posição — considerando-a uma opção tática de Costa que  “serviu para superar uma derrota eleitoral”. O líder não se deixa ficar e garante, sem falar em Assis, que não foi nada disso. “Não foi uma operação tática. Corresponde à opção estratégia que o PS decidiu adotar em 2014″, no congresso em que reclama ter dado o primeiro tiro de morte no famoso “arco da governação” cingido ao PS e ao PSD e CDS.

Quanto ao futuro da governação, o socialista avisa os que “pensam que o PS vai andar aos ziguezagues” que estão “enganados”. Que o objetivo é seguir o Programa do Governo onde teve “naturalmente em conta o que ouviu das conversas tidas com PCP, BE, PAN e Livre”: “É este compromisso que desejamos fazer nesta legislatura”.

Rui Rio queixa-se do escasso tempo para discutir o Programa de Governo na Assembleia da República, mas questionado pelos jornalistas, à entrada do centro nacional de exposições de Santarém, António Costa atirou essa responsabilidade para a conferência de líderes, que decidiu no Parlamento as datas para o debate do Programa.

Segundo vinho melhor? “Temos pela frente longo período de prova do vinho”

Aí também desdramatizou eventuais leituras críticas do discurso presidencial e quanto ao segundo vinho poder ser melhor do que o primeiro — que Marcelo Rebelo de Sousa referiu recorrendo no discurso da posse do Governo ao episódio das Bodas de Caná –, o líder socialista virou enólogo: “A qualidade do vinho só se sabe depois de provar. Vamos ter quatro anos para poder saborear, abrir garrafa, ver pelo cheiro da rolha se está em bom estado, fazer a prova. Temos quatro anos, é um longo período de prova do vinho”, gracejou com a analogia ao seu segundo Governo e se será melhor do que o primeiro.

Também falou nas promessas que deixou na posse, nomeadamente na subida do salário mínimo nacional. Quanto aos valores, quer ouvir primeiro os parceiros antes de “fixar uma base de partida para esta caminhada” que propõe que atinja os 750 euros em 2023.

No final, o PS elegeu o deputado e ex-secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, como o novo secretário-geral adjunto socialista. Sucede a Ana Catarina Mendes que é a nova líder parlamentar do partido. É a Carneiro que Costa deixa uma tarefa de peso, com meta em 2021: “Grande resultado eleitoral nas autárquicas de 2021”. E avisa que os próximos anos “serão muito exigentes e de muito trabalho”. Por agora, os trabalhos socialistas ditaram a vitória do nome proposto por Costa para a função de o substituir no partido quando o Governo lhe concentra maiores atenções. Carneiro foi eleito com 70 votos, seis brancos.