Rosa Mota recusou estar presente na inauguração do novo pavilhão multiusos Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, que vai ser inaugurado esta segunda-feira. A atleta diz sentir-se enganada pelo presidente da Câmara Municipal do Porto porque não pensou que o seu nome fosse subvalorizado em relação à marca de cerveja.

“Comunico a todos os vereadores, em primeira mão, que não dou a minha anuência a algo que parece estar definitivamente estabelecido e que não foi o que foi acordado”, escreveu Rosa Mota, numa carta enviada à Câmara Municipal do Porto, a que o Observador teve acesso. A atleta estava convencida que o novo nome do antigo Palácio de Cristal seria Pavilhão Rosa Mota – Super Bock Arena.

O antigo Palácio de Cristal, chamado Pavilhão Rosa Mota desde 1988, tem agora a designação de Super Bock Arena em destaque — Câmara Municipal do Porto

Os deputados municipais da oposição estão do lado da campeã olímpica de maratona (1988) e dizem que aquilo que ficou aprovado foi um acrescento da marca Super Bock Arena ao nome do Pavilhão Rosa Mota e não o contrário, noticia o Público. Segundo o jornal, estes deputados também não estarão presentes na inauguração.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que iria presidir à inauguração também não estará presente. O Observador sabe que o Presidente se mostrou desagradado com a situação. A Presidência da República, no entanto, justifica a ausência de Marcelo com a necessidade de fazer exames médicos.

Marcelo Rebelo de Sousa e Rosa Mota tinham estado juntos no passado dia 8 de outubro durante a apresentação do programa desportistas, que visa colocar em diálogo jovens e figuras de várias modalidades. Na altura, o Presidente disse que “a Rosa Mota é mais importante do que todos os governos ou presidentes de Portugal”.

A Câmara Municipal do Porto defende-se em comunicado dizendo que quando o executivo de Rui Moreira tomou posse há seis anos “encontrou um pavilhão em pré-ruína e praticamente inutilizado pela degradação e falta de manutenção” e nunca o nome da atleta aparecia referido.

“Embora batizado com o nome da atleta, não tinha qualquer inscrição do seu nome nem na fachada nem em nenhum local visível. Nunca teve, aliás”, refere o comunicado do município.

A câmara diz ainda que nunca autorizou a retirada do nome da atleta, mas que permitiu que o nome comercial também estivesse presente. “Estes dados foram fornecidos à atleta, que com eles concordou e se congratulou há mais de um ano.” Na carta, Rosa Mota diz que aquilo que aceitou não foi o que agora é apresentado como resultado final.

A autarquia acrescenta que, num processo paralelo, “a atleta e o seu representante terão entrado em negociações com o patrocinador e em conversações com o concessionário”. A câmara diz não ter participado nas reuniões, não saber o que foi discutido, nem que tipo de contrapartidas foram negociadas.

A rádio Observador contactou o representante da atleta, José Pedrosa, que remeteu os esclarecimentos para o comunicado que foi enviado para os vereadores da Câmara do Porto, a que o Observador teve acesso.

Rui Moreira apelou a Rosa Mota porque “a cidade beneficiaria muito”

O pavilhão no centro dos Jardins do Palácio de Cristal não tinha um nome oficial até ter tomado o nome de Rosa Mota, em 1988, depois da atleta ter vencido a maratona nos Jogos Olímpicos de Seul. Na altura, era presidente da Câmara Fernando Cabral, do PSD.

Com as remodelações, iniciadas em 2017 e patrocinadas pela Super Bock, chegou a estar em cima da mesa a possibilidade de o nome de Rosa Mota desaparecer da designação do pavilhão multiusos, mas Rui Moreira terá dito à atleta que isso não ia acontecer, como a mesma conta na carta aos vereadores.

“O presidente Rui Moreira convidou-me para reunir com ele, na Câmara e aí, começou por afirmar exatamente o contrário dos senhores do [sociedade] Círculo de Cristal: ‘A toponímia não se muda’ e acrescentou, sabendo do meu enorme constrangimento em que o meu nome esteja ligado uma bebida alcoólica e até da legalidade discutível desta situação: ‘Mas se a Rosa pudesse aceitar a bebida alcoólica (Super Bock) a cidade beneficiaria muito'”, escreveu Rosa Mota.

A contragosto, Rosa Mota aceitou a concessão “Pavilhão Rosa Mota Super Bock”, depois de, em reunião com o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, lhe ter sido pedido o aditamento do nome da marca. Uma marca que não envergonha o autarca por ser uma empresa da região, como disse em reunião de Câmara no dia 27 de novembro.

Na proposta de designação daquele pavilhão, de 20 de novembro de 2018, a que o Observador teve acesso, a vereadora Catarina Araújo escrevia que se pretendia “acrescentar à designação toponímica Pavilhão Rosa Mota, a marca comercial Super Bock Arena” e assegurava que “este novo pedido não altera a designação formal ou corrente do equipamento, traduzindo-se apenas na adoção suplementar de branding“. 

Em ata de Reunião de Câmara do dia 27 de novembro de 2018, consultada pelo Observador, Rui Moreira afirma que “o contrato original já previa a possibilidade de renaming do Pavilhão, havendo o poder de a Câmara autorizar ou não” e afirmou que “reuniu com a atleta Rosa Mota para discutir esta questão e a solução final é uma situação confortável”. O problema é que o logótipo aceite pela atleta, não é o mesmo que acabou por ser apresentado pela vereadora do Desporto.

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Ciente, na altura, da controvérsia que o nome dado ao pavilhão da cidade estava a ter no executivo, Rosa Mota indica na carta entregue aos vereadores da Câmara do Porto que chegou a propor “com a máxima discrição possível” a retirada do seu nome do pavilhão, “caso a sua permanência fosse um grande prejuízo para a Câmara/cidade”.

O Observador sabe que a atleta sempre pensou que o aditamento de “Super Bock Arena” à toponímica anterior implicava que “Pavilhão Rosa Mota” se mantivesse à frente na designação de “Super Bock Arena”, mas o conceito legal de “acrescentar” refere-se apenas a um acréscimo no nome, seja ele feito antes ou depois da designação já existente.

Câmara não ganha mais por se incluir Super Bock Arena no nome do pavilhão

Na reunião de Câmara de 27 de novembro de 2018, Manuel Pizarro, deputado do PS, questionou que um equipamento onde se pretendem realizar provas desportivas e eventos culturais seja associado a uma marca de bebidas alcoólicas e criticou que fosse dada uma vantagem adicional ao concessionário por poder dar o próprio nome ao pavilhão — neste caso, Super Bock Arena.

Rui Moreira esclareceu que o contrato original já previa a possibilidade de o pavilhão ter um novo nome, mas que o mesmo teria de ser aprovado pela Câmara Municipal. Essa possibilidade era um bónus para o vencedor do concurso público internacional.

O problema levantado pelos deputados municipais é que o patrocinador, que vai poder adicionar o nome ao pavilhão durante o período de concessão — 20 anos —, vai beneficiar com este branding sem nenhuma contrapartida para a Câmara Municipal. Manuel Pizarro estimou que esta utilização do nome tem um valor comercial de 15 a 20 milhões de euros, em 20 anos. Tendo em conta que o investimento na reabilitação do pavilhão terá sido de oito mil euros, a empresa fica a ganhar, e muito, com o negócio.

A única contrapartida que a Câmara Municipal terá, a julgar pela ata de novembro de novembro de 2018, é uma renda anual de quatro milhões de euros.

A carta de Rosa Mota aos deputados da Câmara do Porto

Ex.mos membros do executivo da Câmara Municipal do Porto:

No início de março de 2018 fui convidada para uma reunião, com o Círculo de Cristal e um administrador do Super Bock Group.

Na reunião, dentro do Pavilhão a que, em tempos, alguém atribui o meu nome, o que sempre muito me honrou, o consórcio informou-me, com toda a naturalidade, que já tinham decidido que o meu nome sairia da designação do Pavilhão e que o mesmo se iria chamar simplesmente Super Bock.

Ainda nesse mês o presidente Rui Moreira convidou-me para reunir com ele, na Câmara e aí, começou por afirmar exatamente o contrário dos senhores do Círculo de Cristal: “A toponímia não se muda” e acrescentou, sabendo do meu enorme constrangimento em que o meu nome esteja ligado uma bebida alcoólica e até da legalidade discutível desta situação: “Mas se a Rosa pudesse aceitar a bebida alcoólica (Super Bock) a Cidade beneficiaria muito”.

Foi a partir destas duas premissas que, mais tarde, em reunião com a senhora vereadora Catarina Araújo a informei que aceitaria o “suplemento” Super Bock à designação Pavilhão Rosa Mota, tal como estava num logótipo cedido/elaborado pelo Super Bock Group e que, nessa reunião, entreguei à senhora vereadora e que rejeitava, em absoluto, outro que o Círculo de Cristal tinha apresentado à Câmara e que na mesma altura a senhora vereadora me mostrara, por o consideramos uma inaceitável subalternização da toponímia da cidade.

Como nunca quis obter qualquer tipo de vantagem que não o interesse da cidade e o respeito pelas suas instituições, disponibilizei-me ainda para, com a máxima discrição possível, pedir a retirada do meu nome do Pavilhão, caso a sua permanência fosse um grande prejuízo para a Câmara/cidade.

Foi em função deste logótipo que dei a minha anuência à proposta que a senhora vereadora levou à reunião Camarária de 27 de novembro, acreditando que a mesma traduzia o logótipo por mim aceite e o nosso acordo(*).

Algumas semanas mais tarde, quando vi na comunicação social/internet, que o nosso acordo não estava a ser cumprido, alertei de imediato a senhora vereadora para o facto. Dias depois, tivemos uma reunião em que lhe reafirmei a minha total indisponibilidade para aceitar outro logótipo que não fosse o que lhe tinha deixado na reunião anterior. E donde decorre (em Portugal lê-se da esquerda para a direita e de cima para baixo) a designação Pavilhão Rosa Mota – Super Bock Arena e jamais Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota. Nessa reunião a senhora vereadora comprometeu-se a esclarecer posteriormente a situação. O que nunca aconteceu.

Quando recebi o convite do senhor presidente da Câmara para a reabertura do Pavilhão, e no qual está escrito “Super Bock Arena Pavilhão Rosa Mota” senti-me definitiva e claramente enganada.

E foi por ver que o nosso acordo está, de forma cada vez mais flagrante, a não ser cumprido, que admiti não ir à cerimónia do próximo dia 28. Confrontado esta posição o Dr. Rui Moreira disse que era tudo um mal entendido. Daí termos reunido na passada quinta feira.

Nesta reunião ficou bem claro que efetivamente quando eu apresentei, em 14 de Novembro 2018, a minha posição à senhora vereadora do Desporto, fui categórica quanto ao logótipo a usar que teria que ser o que lhe entreguei, e que jamais aceitaria a versão que o Consórcio Círculo de Cristal havia enviado à Dra. Catarina Araújo. Perante isto o sr. presidente da Câmara respondeu dizendo que não era possível impor ao Consórcio o que tínhamos acordado anteriormente com a vereadora.

Depois da reunião e antes de vos enviar este email perguntei por email, ao Dr. Rui Moreira se, principalmente o facto de ter ficado claro que eu apresentei um logótipo de que fiz depender a minha posição, o teria feito reconsiderar. Como não obtive resposta, 40 horas depois, e por respeito ao executivo municipal comunico a todos os vereadores, em primeira mão, que não dou a minha anuência a algo que parece estar definitivamente estabelecido e que não foi o que foi acordado, entre as partes.

Assim não irei estar presente na reabertura do ainda Pavilhão Rosa Mota,

Por respeito ao executivo Municipal liderado pelo Presidente Fernando Cabral que em 1988, e por unanimidade, atribuiu o meu nome ao Pavilhão,
Por respeito ao Porto e,
Por respeito ao País.
Rosa Mota

(*) Em relação à proposta que a Dra. Catarina Araújo, e que teve a minha aprovação, dizem-me agora os juristas que, “forçando” alguns termos, talvez também possa contemplar o logótipo que tem sido utilizado e a designação Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota. A decisão da Câmara até talvez também possa acomodar esse logótipo, mas o acordo que eu fiz com a Câmara, através da senhora vereadora, não o contempla garantidamente.

(Em atualização)