Já a segunda sessão do julgamento do caso de Alcochete estava a chegar ao fim, com o relógio a bater nas 18h, quando a juíza presidente, Sílvia Rosa Pires, lançou o pedido ao advogado que representa o Sporting: passar a pente fino a lista de testemunhas do Sporting e perceber quais delas ainda permanecem no clube e podem ser notificadas na Academia, em Alcochete, para comparecerem no Tribunal do Monsanto e falarem sobre a invasão e o ataque a 15 de maio. Algo que, em princípio, começará a acontecer já no início de dezembro.

No total, são 68 as testemunhas arroladas pelo Ministério Público para confirmarem aquilo que o despacho de pronúncia mandou para julgamento: 44 arguidos, entre eles o ex-presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, acusados de dezenas de crimes relacionados no limite até com terrorismo. Destas testemunhas, 14 são militares da GNR que tomaram conta do caso e dois são da PSP – que terão contribuído para a investigação. Esta terça-feira, na segunda sessão de julgamento, foram ouvidos três desses militares: o comandante do posto de Alcochete, a quem o responsável pela segurança da Academia, Ricardo Gonçalves, telefonou a dar o alerta, e os dois militares da patrulha que foi de imediato ao local (e que encontrou a cancela do espaço fechada).

Foi depois de ouvi-los, já com todos os advogados e arguidos a prepararem-se para ir embora, que a juíza se dirigiu ao advogado Miguel Coutinho. É que só do Sporting, ligados aos leões de forma direta ou indireta, são mais de 50 testemunhas, e muitas delas (treinadores, jogadores e até funcionários) podem não estar no clube ou no país.

Miguel Coutinho ficou surpreendido com o pedido, quase pronto para responder que tal seria impossível. Mas a juíza refez o pedido: “Faz o que conseguir, estou a notificá-lo, cinco dias são suficientes?”, perguntou. O advogado que representa o Sporting não teve outro caminho se não o de responder que iria tentar. O Observador fez um levantamento destas testemunhas para perceber onde andam e 20, por exemplo, estão no estrangeiro. A ser esta a listagem, e em relação a todos aqueles que não tenham agora vínculo ao clube, o Tribunal terá de apurar onde vivem atualmente para os poder notificar. E o mais certo é que, caso as condições em Monsanto o permitam (e rede tem sido um problema na sala), sejam ouvidos por videoconferência.

Olhando apenas para os jogadores que na altura faziam parte do plantel principal do Sporting, a conclusão que se retira é que dois terços encontram-se não apenas noutros clubes mas no estrangeiro. E há pontos geográficos para todos os gostos, dos sete países da Europa (Espanha: William Carvalho no Betis, Petrovic no Almería, Piccini no Valencia, Lumor no Maiorca; França: Gelson Martins no Mónaco, Salin no Rennes; Inglaterra: Rui Patrício no Wolverhampton; Alemanha: Bas Dost no Eintracht Frankfurt; Itália: Rafael Leão no AC Milan; Suíça: Doumbia no Sion; Grécia: Daniel Podence no Olympiacos, Misic no PAOK) ao Brasil (Bruno César no Vasco da Gama, Bryan Ruíz no Santos), passando pela América do Norte (Fredy Montero no Vancouver Whitecaps) ao Médio Oriente (André Pinto no Al Fateh da Arábia Saudita, Rúben Ribeiro no Al Ain dos Emirados Árabes Unidos). A todos eles juntam-se ainda Jorge Jesus, Mário Monteiro e Márcio Sampaio, todos no Flamengo.

Assim, restam apenas oito jogadores no plantel principal verde e branco um ano e meio depois do ataque (Mathieu, Wendel, Acuña, Luís Maximiano, Ristovski, Coates, Battaglia e Bruno Fernandes) e mais dois que, não estando no Sporting, permanecem em Portugal: João Palhinha no Sp. Braga e Fábio Coentrão, sem clube. Há ainda o caso de José António Laranjeira, que é agora coordenador do departamento de scouting do Rio Ave.

Extra jogadores, todos os elementos arrolados pelo Ministério Público como testemunhas permanecem no país, podendo ou não ter ligação ao Sporting – ou mesmo mudando de funções, sendo exemplo paradigmático o então diretor clínico que é hoje presidente do clube, Frederico Varandas. João Rollin, Vasco Fernandes (ambos secretários técnicos), Paulo Cintrão (departamento de comunicação), Gonçalo Álvaro, Ludovico Marques, Hugo Fontes (fisioterapeutas) ou Nelson Pereira (coordenador do departamento de guarda-redes) entre outros, continuam com as mesmas funções, ao passo que Raúl José e Miguel Quaresma, que eram da equipa técnica de Jorge Jesus, saíram para o Al Hilal mas regressaram à estrutura. A antiga glória verde e branca Manuel Fernandes mantém-se também no clube tal como Ricardo Gonçalves, diretor de segurança da Academia na altura do ataque a Alcochete que passou a desempenhar as funções no estádio e num âmbito mais alargado.

Entre os nomes que saíram, André Geraldes – tido como um dos testemunhos chave do processo – passou a diretor desportivo do Farense, Virgílio Lopes deixou de ser o diretor da formação leonina, Vasco Santos saiu de diretor de segurança do clube e Gonçalo Rodrigues já tinha sido suspenso de funções no âmbito do processo Cashball. Rui Falcão, a primeira testemunha ligada a Sporting ou Academia indicada, era o porteiro que estava na entrada principal do espaço no dia do ataque, sendo outro dos depoimentos relevantes no caso.