Por vezes, os fabricantes de automóveis comportam-se como miúdos grandes e isto está longe de ser uma crítica. Pelo contrário, é um elogio que anima a indústria e faz avançar a tecnologia. Para animar a apresentação mundial da Cybertruck, a Tesla recorreu a um comparativo com o intuito de apurar quem tinha a maior capacidade de reboque, se a Ford F-150, a pick-up mais vendida nos EUA nos últimos 42 anos, ou a nova Cybertruck, a pick-up eléctrica da Tesla. Ligadas por um cabo, cada pick-up puxou para o seu lado e a da Tesla arrastou a da Ford, com rodas a patinar e tudo. A Ford, através de Sunny Madra, um dos seus vice-presidentes, achou que o comparativo não foi equilibrado e pediu uma desforra.

A Ford sabe que os veículos eléctricos têm facilmente mais binário, ou seja, mais força, do que os seus adversários a gasolina ou a gasóleo. A prova é que realizou uma operação promocional com uma pick-up eléctrica que não deverá fabricar nos próximos dois a três anos. Apenas para provar que também possui alguns conhecimentos sobre esta tecnologia, mas sobretudo porque é mais fácil dotar uma pick-up eléctrica com potência e binário suficientes para garantir uma vistosa habilidade.

Porém, já que foi mencionada no vídeo da Tesla, a Ford tem todo o direito de querer estar presente quando a batalha de reboques tiver lugar, até porque em prova estará o modelo que lhe dá dinheiro a ganhar. Em resposta, a Tesla poderia alegar que a Cybertruck ainda é um protótipo, com muito de secreto, pelo que não é aconselhável expô-la ao contacto próximo com técnicos da concorrência, que mais facilmente podem aperceber-se deste ou daquele pormenor. Mas parece que o fabricante de veículos eléctricos não resiste a aceitar desafios. Elon Musk respondeu a Sunny Madra com um “bring it on”.

O que faz um físico numa conversa sobre carros?

Se esta discussão anima o grande público, é ainda mais “intensa” junto daqueles que possuem maiores conhecimentos técnicos. Daí que o tema atraísse Neil deGrasse Tyson, uma das personalidades da televisão mais populares, além de um reputado astrofísico, autor e responsável pelo Centro para a Terra e Espaço do Museu Americano de História Nacional, em Nova Iorque.

Em resposta ao tweet de Elon Musk, em que este publicava o vídeo da prova de reboque entre a F-150 e a Cybertruck, o astrofísico chamou a atenção para o facto de os veículos eléctricos serem “sempre mais pesados e, naquelas condições, é muito importante o peso que incide sobre os eixos motrizes, ou seja, a tracção é mais importante do que a potência do motor”. A isto Elon Musk – e os dois conhecem-se bem, sobretudo pelos debates em que ambos intervieram em relação às viagens para Marte e à perspectiva do planeta se poder tornar habitável – respondeu que “os motores eléctricos têm mais força e mesmo que carreguemos os dois veículos ao máximo, o eléctrico ainda vence. A física é a lei e tudo o resto é apenas uma recomendação.”

Aparentemente, Ford e Tesla vão repetir o duelo. Se o fizerem, vai ser possível tirar tudo isto a limpo: se é mais importante a física da fricção, que é a fonte da tracção, como defende Tyson, ou se, em caso de equilíbrio entre adversários, tudo se vai resumir à potência e à força do motor, como defende Musk.