“Atalanta é uma personagem da mitologia grega. Normalmente encarada com um paralelo menos importante da deusa Artemis, é associada ao desporto e à disponibilidade física: segundo a lenda, o pai de Atalanta só queria filhos, não filhas, por isso abandonou a recém-nascida no topo de uma montanha, onde esta sobreviveu alimentada por uma ursa. Tornou-se caçadora, matava centauros e é descrita como uma lutadora forte e rápida. Normalmente, representa a força das mulheres e é sempre colocada ao lado das deusas Hera, Atena e Nike enquanto exemplos maiores da influência do sexo feminino na mitologia grega. Em Itália, bem perto da Grécia, Atalanta é bem mais do que uma personagem mitológica. Em Itália, principalmente esta segunda-feira, Atalanta é sinónimo de algo que nunca tinha sido feito.”

Era assim que, no final de maio, a equipa de Bérgamo era descrita. Aqui no Observador, um pouco por todo o lado. Com a Juventus a prolongar o domínio interno e o Nápoles como principal adversário em 2018/19, só sobravam dois lugares para a Liga dos Campeões entre Inter, AC Milan, Roma ou Lazio. Pelo meio, apareceu a Atalanta de Gian Piero Gasperini, que alcançou a melhor classificação de sempre na Serie A com um terceiro lugar apesar de ter um dos orçamentos mais baixos do Campeonato (afinal, em 2011 estava ainda no segundo escalão). Foi uma época de sonho, que parecia ter chegado ao fim; afinal, a principal página estava ainda por ser escrita.

Apesar de ter começado a fase de grupos com apenas um ponto nos primeiros quatro jogos e logo com um empate em Itália frente ao Manchester City num encontro onde a equipa inglesa terminou com o defesa Kyle Walker na baliza (Ederson saiu lesionado, Bravo foi expulso), o triunfo diante do Dínamo Zagreb deu ainda alguma esperança para a última ronda da Liga dos Campeões, na Ucrânia. Os croatas, que começaram na frente com o City, foram os primeiros a rir; o Shakhtar, beneficiando de um hat-trick de Gabriel Jesus, teve o apuramento para os oitavos na mão; no final, quem saiu a rir ainda foi a Atalanta, que ganhou por 3-0 com golos de Castagne (66′), Pasalic (80′) e Gosens (90+4′) e garantiu aquilo que Nápoles e Inter tinham falhado: os oitavos da Champions.

O mais curioso é que os 15 minutos que decidiram a partida, onde não só Castagne e Pasalic marcaram como Dodô viu o vermelho direto, deixando a formação de Luís Castro reduzida a dez unidades.E foram também esses 15 minutos que acabaram de pagar por completo a temporada à Atalanta (com uns pozinhos a mais para ficarem em caixa) – depois de já ter encaixado 27,5 milhões de euros pela entrada na fase de grupos, o conjunto de Bérgamo somou mais 12,5 milhões, num total de 39 milhões ganhos por uma equipa que tem apenas 36 milhões de folha salarial prevista para a temporada de 2019/20, que marcava a estreia na principal prova europeia de clubes.

“Só fiquei relaxado com o terceiro golo, sinceramente. Foi complicado mas às vezes é assim, é o destino. Estamos satisfeitos com o que conseguimos fazer, também pela cidade de Bérgamo, pelos adeptos e pelo futebol italiano. Conseguimos, mostrámos que o nosso estilo de jogo também pode ter sucesso na Europa. Acreditámos sempre que tínhamos uma hipótese de fazer história”, comentou no final Gasperini. “O primeiro golo da Atalanta matou o jogo. Jogámos de forma equilibrada até ao início da segunda parte mas depois eles marcaram. Às vezes também é preciso ter alguma sorte e não contámos com isso. É uma derrota difícil para nós”, disse Luís Castro.