Cada treinador tem o seu estilo. E estilo, pelo menos desta vez, não quer dizer sistema tático, forma de abordar vitórias ou derrotas ou presença nas conferências de imprensa. Estilo, pelo menos desta vez, está mesmo relacionado com a indumentária que cada um veste. Uns optam pelo confortável fato de treino, outros não descartam o fato, alguns escolhem uma solução híbrida entre calças de ganga e um casaco mais descontraído. Uma coisa é certa: quando tomam uma decisão, raramente traem o fato de treino, o fato ou as calças de ganga.

O estilo de Sérgio Conceição, habitualmente, é pautado por uma camisa coberta com um pullover e um casaco impermeável com o símbolo do FC Porto no lado esquerdo do peito. Um misto, lá está, entre o mais formal e o mais confortável, entre o apresentável e o desportivo. Mas esta terça-feira, contra o Gil Vicente, Sérgio Conceição tirou algo diferente no roupeiro. De camisola escura, blazer e casaco comprido, totalmente de negro, o treinador parecia querer dizer também através da roupa que o FC Porto começou, ou terá de começar, um fase nova na presente temporada. Uma fase pós-Taça da Liga, uma fase pós-lugar colocado à disposição e uma fase pós-assumir da desunião no cerne do clube.

A instabilidade que se vive dentro do clube, agravada e engrossada pelo facto de Sérgio Conceição ter colocado nas mãos de Pinto da Costa o próprio futuro, foi visível principalmente na primeira parte. O FC Porto entrou melhor mas nervoso, com posse mas instável, com vontade mas sem força. Pelo quarto jogo consecutivo, os dragões sofreram o primeiro golo da partida e tiveram de arrancar uma complicada reviravolta que acabou por marcar um quase crucial regresso às vitórias. O golo de Sérgio Oliveira, já na segunda parte, garantiu três pontos e a manutenção da distância de sete para o Benfica mas representou mais do que isso: representou a “demonstração de força” que Pinto da Costa havia pedido no domingo, no comunicado que fez e onde garantiu que Sérgio Conceição vai continuar a ser o treinador do FC Porto.

Na flash interview, o treinador dos dragões não escondeu que a receção ao Gil Vicente aconteceu num contexto específico. “Não podemos esquecer o contexto deste jogo, tudo o que aconteceu há três dias. Perdemos a Taça da Liga no último segundo. As expectativas eram grandes para oferecer este título que nos falta num museu tão rico e cheio. Notou-se na primeira parte. Se tivéssemos tido a tranquilidade como tivemos na segunda, podíamos ter feito dois ou três golos. Mas é compreensível, os jogadores são humanos, querem muito ganhar, sentem frustração e desilusão de uma derrota numa final que queriam muito ganhar. Tudo o que façamos em termos motivacionais por vezes não é suficiente. Não é fácil”, explicou Sérgio Conceição, que não deu a habitual conferência de antevisão à partida e não falava desde que colocou o lugar à disposição.

“No momento certo falarei disso. Qual é o clube que quer ganhar que não necessite de toda a gente a remar para o mesmo sítio e unida? Faz parte destas instituições que vivem de títulos. O mais importante é que hoje ganhámos e demos, depois de uma derrota difícil para nós, uma resposta importante de missão cumprida e agora é pensar já no próximo jogo, neste objetivo principal que temos. Dar tudo para ganhar este Campeonato”, concluiu o técnico, que conseguiu voltar a ficar a sete pontos do Benfica depois da vitória dos encarnados em Paços de Ferreira.