A primeira coisa que salta à vista em “Pandemic – Como Prevenir uma Pandemia” nada tem a ver com busca por vacinas, nem medo de vacinas, nem produção intensiva de animais, nem infraestruturas hospitalares subfinanciadas. É a forma como, hoje, um documentário pode contar histórias competindo esteticamente com a melhor ficção televisiva.

Realizada por Doug Shultz e produzida pela Zero Point Zero (que foi responsável, entre outros, pelos programas de Anthony Bourdain), a nova série documental da Netflix vai de Nova Iorque ao Cairo, do interior do Congo ao Vietname, da Guatemala ao Rajastão, para nos dizer até que ponto está o mundo preparado para a próxima pandemia. Fá-lo com tantos ângulos de câmara e tanto ritmo de montagem como qualquer série de ficção selecionada do separador próprio, no menu do lado. Mas fá-lo, sobretudo, usando os mesmos recursos narrativos: seguindo personagens em vez de temas, investigando e revelando poliedricamente essas personagens, estruturando a história em plots e camadas, completando a história daqueles que tipicamente seriam apenas os “especialistas”, cabeças falantes num documentário, com as suas próprias demandas pessoais e familiares. Com suspense, envolvimento emocional e princípio, meio e o fim possível.

Mas claro. O que torna “Pandemic” particularmente especial é outra coisa: o timing. O incrível timing que talvez não seja casual. Sheri Fink, uma das produtoras, explicou no início do mês no Twitter que, na verdade, os responsáveis pela série, pela sua investigação, sabiam das fragilidades dos sistemas e quiseram deliberadamente informar o público antes que alguma coisa acontecesse – porque qualquer coisa poderia acontecer, a qualquer momento. E bom… qualquer coisa está a acontecer.

[o trailer de “Pandemic”:]

Embora seja dito apenas uma vez ao longo dos seis episódios da série, “coronavírus” é o termo que está na nossa cabeça do início ao fim de “Pandemic”. É-nos cedo explicado por várias personagens: uma nova pandemia não é uma questão de probabilidade; é uma questão de tempo. Ela virá – só não sabemos quando. Mas, quando passa já pouco mais de um século da “Gripe Espanhola” que, em 1918, matou entre 50 a 100 milhões de pessoas (isto é, mais do que as duas grandes guerras mundiais juntas), um novo surto pode estar para breve. Com a diferença de que o mundo já não tem dois mil milhões de habitantes, mas quase oito. E que não há meia dúzias de aviões de guerra, mas mais de 200 mil voos comerciais por dia, barcos, metros, comboios e autocarros sobrelotados, mas sempre com lugar para levar e espalhar mais uma bactéria, criação, exploração e transporte intensivo de gado, ah!, e uma dose crescente daquele que acham que não devem vacinar os filhos. Alguém disse tempestade perfeita?

“Pandemic” acompanha o trabalho notável de um conjunto de profissionais à volta do globo. Os médicos que combatem o vírus da gripe suína na Índia e os que se debatem com a gripe das aves no Egito; os enviados da Organização Mundial de Saúde que lutam contra o ébola no Congo; a médica única de um pequeno hospital rural no Oklahoma e a que coordena toda a prevenção contra uma eventual pandemia no sistema hospitalar de uma megalópole como Nova Iorque. Os especialistas que viajam pelo mundo, procurando detetar, o mais cedo possível, quando e onde poderá aparecer uma nova variação, uma nova mutação, um novo vírus. E até os cientistas de um pequeno laboratório que, fora do perímetro das grandes farmacêuticas, procuram uma vacina universal contra gripe para levar ao mundo inteiro, em particular àqueles que não a podem pagar.

E o que aprendemos com toda esta gente? Essencialmente, isto:

Por mais que façamos, surgirá sempre um novo vírus;

O melhor que podemos fazer é localizá-lo e isolá-lo o mais depressa possível;

Estes vírus nascem sempre entre os animais e, algures, passam ou não para a espécie humana;

Os grandes vírus mortais dos últimos 50 anos começaram sempre na China;

E claro, os suspeitos do costume sobrepopulação mundial e crescente demanda por proteína animal, são também dos grandes responsáveis por mais estas brechas no sistema.

Mas há mais. Ficamos a saber que algumas das mais sofisticadas franjas da população dos países desenvolvidos do Ocidente não diferem, afinal, das mais pobres e desinformadas tribos do interior africano: uns e outros acham que as vacinas são, na verdade, uma conspiração para infetá-los com doenças. E que, de acordo com a OMS, a recusa à vacinação é já uma das dez maiores ameaças à saúde mundial em 2020. E que, graças aos cortes da Administração Trump, os milhares de imigrantes que tentam, ilegalmente, todos os anos, atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos da América deixaram de ser vacinados.

Todos os anos, a gripe sazonal mata cerca de 650 mil pessoas no mundo. Um novo vírus, para o qual não haja ainda vacina, poderá matar centenas de milhões. Com os números do novo coronavírus a aumentarem todos os dias e abrirem todos os noticiários, ver “Pandemic” hoje mete algum medo. Mas também nos deixa importantemente alerta. E inspira pelos notáveis exemplos de profissionalismo e amor de que essa velha e irrefletida humanidade é, afinal, também sempre capaz.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).