O receio de que o surto de coronavírus se propague em Portugal já tem efeitos visíveis no comércio chinês em Lisboa. Lojas invulgarmente pouco movimentadas em épocas de grande procura, quebras de vendas, clientes receosos. Por forma a demonstrar “solidariedade pela comunidade chinesa que vive e trabalha em Lisboa”, Manuel Grilo, Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, agendou para sexta-feira um périplo, pela zona do Martim Moniz, com o intuito de “transmitir informação sobre o COVID-19 e desmistificar a relação entre a comunidade chinesa e o vírus”, refere. Além da divulgação de uma brochura informativa em português e mandarim, a ação consiste em visitar algumas lojas e supermercados e terminar a manhã com um almoço num restaurante chinês. Para dar força à ação, o vereador vai fazer-se acompanhar pelo Embaixador da China em Portugal, Cai Run, e pela Diretora-Geral da Saúde (DGS), Graça Freitas.

Jian chegou há três semanas do distrito de Pudong, em Xangai, e só tirou as luvas e a máscara cirúrgica descartável depois de percorrer os mais de dez mil quilómetros que separam a cidade chinesa da capital portuguesa, onde vive há vários anos. E assim permaneceu 14 dias, ao lado das filhas gémeas e do marido que com ela viajaram. Nada nem ninguém os forçou a isso. Apesar de se sentirem bem, sem os sintomas associados ao coronavírus (Covid-19), nenhum dos quatro quis arriscar e sair de casa sem um período de “quarentena autoimposta”, a fim de prevenir qualquer contágio da doença. Para os dois adultos, foi mais simples. Os negócios que gerem na área do imobiliário são mais conciliáveis com a estada prolongada na residência. Já as adolescentes, que frequentam uma reconhecida escola privada, tiveram dificuldade em justificar as faltas. Mas o alarmismo social que o regresso delas, vindas diretamente da China, provocaria entre os estudantes e encarregados de educação fez a direção do estabelecimento de ensino reconsiderar. Já os apontamentos e trabalhos de casa, chegaram-lhes sempre por email ou WhatsApp. Nenhuma amiga quis arriscar e visitá-las.

“O problema não está nas crianças, mas nos adultos. São eles que olham para nós como se fôssemos os culpados pela contaminação do coronavírus. Na escola, chegaram a fazer uma reunião de esclarecimento sobre a epidemia só para portugueses, deixando de fora os chineses”, conta Jian. O Observador sabe que estas situações se repetem um pouco pelos colégios da capital, mas ninguém o assume publicamente para não ser acusado de discriminação.
Histórias que não surpreendem Y Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal, apesar de “desdramatizar” o clima de pânico que se vive aqui e está espalhado por toda a Europa. “A prevenção, por enquanto, é a única forma de controlar a epidemia. Por isso, aconselhamos os chineses que chegam da China a isolarem-se durante 14 dias”, frisa, acrescentando ainda que quem não tem condições económicas para ficar esse período sem trabalhar, não fica para trás. Está disponível um fundo, angariado pela comunidade chinesa, para prestar apoio financeiro aos casos mais vulneráveis. “Estas medidas são importantes para transmitir um sinal de tranquilidade aos portugueses”, conclui Y Ping Chow. Rui Lourido, presidente do Observatório da China, salienta que as ações preventivas têm sido “essenciais” para afastar o “preconceito com os asiáticos e o afastamento do público das lojas e restaurantes chineses”, onde a desconfiança mais se faz sentir. Além de um fundo monetário, na capital estão ainda disponíveis dez casas para os chineses que regressam da China e que não se querem juntar às famílias antes de se certificarem que são assintomáticos. Neste momento, e segundo a DGS, há 50 chineses em isolamento.

A semana de Carnaval, uma altura do ano quase sempre agitada no comércio, foi especialmente atípica. O Observador percorreu várias lojas e grandes armazéns de artigos chineses da capital e ninguém escondeu a preocupação pelas significativas quedas de negócio nas últimas semanas, entre os 40% e 50%. “Esta situa­ção não é justa. Ainda não há razões para todo este alarme”, garante Feng, proprietária de um estabelecimento na zona dos Olivais. Quem nos últimos dias ali entrou, quase sempre à procura de máscaras para crianças, chegou a perguntar-lhe se os acessórios vinham de fábricas na província de Hubei, o epicentro do coronavírus. “Como se eu soubesse”, comenta, entre risos.
Também Y Ping Chow já sabia da necessidade dos clientes quererem, agora, saber a proveniência dos artigos. Só não entende o porquê. “O vírus não sobrevive a uma viagem longa dentro de um contentor. Os produtos das lojas chinesas não têm doenças. E os restaurantes são seguros porque todos os alimentos já são adquiridos cá”, desmistifica o presidente da Liga dos Chineses. Unânime é o desejo de que a Primavera atenue o surto e a atividade económica seja retomada, de forma a “diluir” os prejuízos provocados pelo coronavírus, reconhece o presidente do Observatório da China.

Na ação levada a cabo esta sexta-feira pelo Bloco de esquerda, também Y Ping Chow se vai juntar. O objetivo é tentar dinamizar a economia local. E se por um lado, o presidente da liga dos Chineses em Portugal salienta os esforços da Câmara Municipal de Lisboa, por outro assume que os próximos tempos não vão ser fáceis: “Se o primeiro caso confirmado de coronavírus for um chinês, é mau para nós. Se, pelo contrário, for um português que viajou pela Europa, vai ser mau para todos”.